Estamos de costas (só neste caso) para a porta principal (entrada e bilheteiras) do Teatro da Trindade. Em frente é a Rua da Trindade, neste sítio também topo norte do Largo Rafael Bordalo Pinheiro. E logo merece visão atenta o prédio oitocentista (nº 28 a 34) com a frontaria coberta de azulejos. A partir do 1º andar até ao 3º e ao frontão triangular que o coroa, as paredes estão totalmente revestidas de azulejos polícromos com seis grandes figuras simbólicas (Água, Terra, Comércio, Indústria, etc.), representadas em nichos por entre os vãos das janelas, e outras alegorias decorativas (em que há quem veja símbolos maçónicos) que culminam no olho no frontão. Fazem lembrar o interior da vizinha Cervejaria Trindade, o que não é de espantar, porque o edifício foi mandado construir pelo mesmo Manuel Moreira Garcia que fundou a Fábrica de Cerveja da Trindade, e o autor dos dois festivais de azulejaria é o mesmíssimo Luís Ferreira, conhecido no seu tempo por "Ferreira das Tabuletas".
Ultrapassada a esquina da reentrância, imediatamente damos com o restaurante Aqui Há Peixe, com porta de entrada no nº 18-A. Esta primeira salinha de cerca de uma vintena de lugares é mais informal, adequada para petiscar, beber um copo, tomar café e fumar. Por um corredor frente à cozinha se atinge a sala principal, com seus dois arcos de pedra e espaços diversificados a permitirem várias disposições de mesas, sempre sob o signo da boa luz, da decoração cuidada e da amesendação correcta, ao dispor de 40 manducadores. O proprietário e cozinheiro da casa chama-se Miguel Reino, tem larga experiência do ofício, inclusive no Brasil, e durante uma década manteve um restaurante com este mesmo nome na praia da Comporta. O actual em que agora nos vamos sentar foi inaugurado em 5 de Agosto passado.
A lista quantifica-se em 14 Entradas (incluindo 3 Sopas), 11 pratos de Peixe e Marisco e 3 de Carne. Das primeiras, além das que se provaram, constavam salsicha toscana, salada de ovas, salada de polvo, petiscos variados (aqui deveriam usar o singular, pois de um reduzido lote comunicado só se pode petiscar um), gambas ao alho e berbigão. Da área marítima ficaram por conhecer picanha de tamboril, robalo grelhado, lulas grelhadas, carabineiros à Miguel, esparguete de carabineiros, lagosta nacional e lavagante. Do trio carnal deixaram-se em sossego a picanha e o piano de porco com chutney.
Provemos então. "Ceviche" (€13): uma aproximação à receita original mexicana (ou peruana?), corvina crua, 'cozida' no sumo de limão da marinada, a frescura requerida. "Ovos revueltos com espargos e gambas" (€15): combinação teoricamente boa e que na prática também o foi. "Amêijoas à Bulhão Pato" (€17): pequenas mas de boa estirpe, cristãs, toldadas por excesso de alho (dentes inteiros com pele). "Ostras" (€12): seis unidades oriundas do Sado, do tipo das antigas chamadas 'portugaises', a darem o que se lhes pedia. "Choquinhos à pé-descalço" (€9): muito bons, todavia esqueceram-se de lhes tirar a cartilagem durázia.
A "corvina à pescador" (€19) consistiu na posta, singularmente branda, cozinhada num caldo de peixe, na companhia de batatinhas, cenoura, feijão verde, coentros e grãos de pimenta, num exagero quantitativo de azeite e vinagre. Idêntica cocção, mas neste caso com cebolada e tomate, para a "garoupa à marinheira" (€21). Também na companhia de legumes cozidos, grosso e comprido, o "bife de atum fresco salteado no azeite" (€15), atilado. O "arroz negro de choco" (€15), saboroso, a não poder dar mais do que deu. Para não se ignorar a carne, o "bife de lombo à portuguesa" (€18,50), que, naco estimável, não justificou a designação, por não vir em frigideira, não ter a fatia de presunto e as batatas fritas serem aos gomos e não em rodelas moles.
Doçaria reduzida a um trio, de experiência positiva. A carta de vinhos, sem datas e com a indicação da região à frente, está curta: 17 brancos, 4 rosadinhos, 14 tintos, filhos únicos de champanhe e espumante. Serviço atencioso.
Da Comporta para a Trindade não cai o Carmo nem a Trindade, não senhor. Este Aqui Há Peixe, de bonitas instalações, comporta-se com dignidade dentro dos parâmetros que escolheu. Nos tempos que correm já é regozijante não se limitar ao peixe grelhado, antes pelo contrário. Creio, contudo, que não será demasiado pedir-lhe mais um esforço anti-rotina.
Aqui há Peixe
Rua da Trindade, nº 18 - A
Lisboa
Tel. 213 432 154
Funciona das 17 às 24h
(Fecha às segundas)
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009