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Requiem por uma revista

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 1 de janeiro de 2010

Entregou a alma ao Criador a FMR, a mais bela revista do Mundo, imolada pelos ventos da história, a soprar agora rasteirinhos. Na circular que acompanha o derradeiro número, o 34, da que recentemente passara a chamar-se FMR Nera, a fim de a distinguir da que com ela alternava, a FMR Bianca, mais aggiornata, e menos exigente, escreve o seguinte um tal Paolo Lugli. "Caro assinante, venho informá-lo de que, em consequência da conjuntura macroeconómica internacional, e da alteração do cenário dos meios de comunicação, a nossa sociedade decidiu pôr termo à publicação da sua revista." E acrescenta ele, esclarecendo os destinatários, "Em sua substituição a sociedade projecta uma inovadora revista on-line, e em moldes de ampliar a difusão dos conteúdos a um público mais vasto, e aos jovens."

Há cerca de três anos, falando desta FMR, malograda hoje, nas páginas do semanário Expresso, o qual continua felizmente a sair em papel e tinta, via-a eu como "homenagem a uma certa condição europeia", votada a "honrar o eterno, reabilitar o efémero, celebrar o kitsch, e repescar o out-of-the-way". E formulava então o voto de que não deixasse de se cumprir o desiderato do seu director, Franco Maria Ricci, de "dare all'Italia il primato delle più bella rivista che esista". Não ouviriam os deuses a minha súplica, nem a de Ricci que se afirmava determinado a lutar pela vida do magnificente periódico "sem a assistência do poder, e sem o mecenato das empresas". A enxurrada de misérias e inutilidades varreria a FMR do mapa, teimando nessa estratégia que anda a excluir rapidamente do nosso convívio quanto se destaque como perdurável, como coleccionável por isso, e como susceptível de por conseguinte registar o decurso do tempo, e o sensual efeito que sobre a matéria exercem os agentes naturais.

Suponho que a vanguarda do instante terá de algum modo concluído pelo academismo da esplêndida FMR Nera, apegando-se à convicção da obsolência de toda uma estética que prefere a leitura à piscadela de olho, o som ao chinfrim, o cheiro ao pivete, o paladar à sensaboria, e o toque da descoberta ao arranhão da saciedade. Abundam em tal cartilha expeditos galeristas, em tudo iguais a vendedores de automóveis, ou de apartamentos, e críticos que na pontuação oscilam entre as quatro estrelas, atribuídas ao monte de palha, e as cinco estrelas, glorificadoras do monte de merda. No desaparecimento da FMR são as exéquias dos sentidos humanos, nobilitadores da espécie, que se organizam, e é a ressurreição do vazio da inteligência, e do engenho, que se promove. Busquem-se mais fundas razões do assassínio, e deparar-se-nos-á a instalação do blackout globalizador, fazendo baixar ao grau zero absoluto o relativo grau zero da invenção, e a apocalíptica performance de um colosso da indústria, vomitando para os céus o luto da sua fumaça.

Não se nos autorizando proclamar, "A revista morreu, viva a revista!", resta-nos ainda assim um rio de lágrimas, a carpir a sua perda, e a alimentar um ultra-romantismo que julgávamos sepulto, e reduzido a cinza, nos figurinos do gosto, entretanto desactualizados.

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Rest in peace FMR
António David (seguir utilizador), 1 ponto , 14:06 | Segunda feira, 4 de janeiro de 2010
A morte da revista FMR é, sem dúvida, um momento que merece uma reflexão como a que o escritor Mário Cláudio aqui nos propõe. Considerada a mais bela publicação mundial, a revista FMR dedicava-se ao estudo e divulgação do Belo. Poder pegar-lhe e folheá-la era, na verdade, um privilégio (não acessível a muitos porque neste mundo mercantil a beleza tem um preço elevado e, portanto, a FMR era uma revista caríssima). E é curioso como, ainda assim, acessível apenas a poucos, a revista não resistiu à pressão da crise económica e financeira que atravessamos. Aproveitando o pretexto, gostaria de trazer à colação a extinção, também muito sentida por mim, da revista Goldberg, que se dedicava ao estudo e divulgação da música antiga. São apenas dois exemplos que mostram bem que neste sistema de coisas moribundo em que vivemos há cada vez menos espaço para a Arte e para o Belo. Como bem refere Mário Cláudio, não estamos em condições de gritar "viva a revista!", precisamente porque, neste caso, morrendo aquela que era a única da sua espécie, nada mais nos resta do que a lembrança dos números passados, que podemos continuar a percorrer, como se revisitam as fotografias daqueles que já adormeceram na morte.
 
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