Entregou a alma ao Criador a FMR, a mais bela revista do Mundo, imolada pelos ventos da história, a soprar agora rasteirinhos. Na circular que acompanha o derradeiro número, o 34, da que recentemente passara a chamar-se FMR Nera, a fim de a distinguir da que com ela alternava, a FMR Bianca, mais aggiornata, e menos exigente, escreve o seguinte um tal Paolo Lugli. "Caro assinante, venho informá-lo de que, em consequência da conjuntura macroeconómica internacional, e da alteração do cenário dos meios de comunicação, a nossa sociedade decidiu pôr termo à publicação da sua revista." E acrescenta ele, esclarecendo os destinatários, "Em sua substituição a sociedade projecta uma inovadora revista on-line, e em moldes de ampliar a difusão dos conteúdos a um público mais vasto, e aos jovens."
Há cerca de três anos, falando desta FMR, malograda hoje, nas páginas do semanário Expresso, o qual continua felizmente a sair em papel e tinta, via-a eu como "homenagem a uma certa condição europeia", votada a "honrar o eterno, reabilitar o efémero, celebrar o kitsch, e repescar o out-of-the-way". E formulava então o voto de que não deixasse de se cumprir o desiderato do seu director, Franco Maria Ricci, de "dare all'Italia il primato delle più bella rivista che esista". Não ouviriam os deuses a minha súplica, nem a de Ricci que se afirmava determinado a lutar pela vida do magnificente periódico "sem a assistência do poder, e sem o mecenato das empresas". A enxurrada de misérias e inutilidades varreria a FMR do mapa, teimando nessa estratégia que anda a excluir rapidamente do nosso convívio quanto se destaque como perdurável, como coleccionável por isso, e como susceptível de por conseguinte registar o decurso do tempo, e o sensual efeito que sobre a matéria exercem os agentes naturais.
Suponho que a vanguarda do instante terá de algum modo concluído pelo academismo da esplêndida FMR Nera, apegando-se à convicção da obsolência de toda uma estética que prefere a leitura à piscadela de olho, o som ao chinfrim, o cheiro ao pivete, o paladar à sensaboria, e o toque da descoberta ao arranhão da saciedade. Abundam em tal cartilha expeditos galeristas, em tudo iguais a vendedores de automóveis, ou de apartamentos, e críticos que na pontuação oscilam entre as quatro estrelas, atribuídas ao monte de palha, e as cinco estrelas, glorificadoras do monte de merda. No desaparecimento da FMR são as exéquias dos sentidos humanos, nobilitadores da espécie, que se organizam, e é a ressurreição do vazio da inteligência, e do engenho, que se promove. Busquem-se mais fundas razões do assassínio, e deparar-se-nos-á a instalação do blackout globalizador, fazendo baixar ao grau zero absoluto o relativo grau zero da invenção, e a apocalíptica performance de um colosso da indústria, vomitando para os céus o luto da sua fumaça.
Não se nos autorizando proclamar, "A revista morreu, viva a revista!", resta-nos ainda assim um rio de lágrimas, a carpir a sua perda, e a alimentar um ultra-romantismo que julgávamos sepulto, e reduzido a cinza, nos figurinos do gosto, entretanto desactualizados.