Enganam-se os que pensam que o futuro a Deus pertence e que é impossível prevê-lo! Nada mais falso! Olhai para este país à beira-mar plantado e dizei-me: Qual dos dois é mais compreensível: presente ou futuro? E eu respondo-vos: compreendo muito melhor o futuro do que estou a compreender o presente!
O presente é obscuro. Não se sabe, por exemplo, o que disse José Sócrates a Armando Vara ao telefone. No futuro saber-se-á, sem margem para dúvidas isso e o resto, porque já se sabem coisas muito menos importantes, como quem vai pagar as SCUT - os nossos netos, de certeza absoluta e sem qualquer dúvida.
No presente, há enormes discussões sobre quanto vai ser o défice, mas no futuro não só saberemos de quanto foi o défice, como de quem foi a culpa de andarmos a chamar orçamento redistributivo a um orçamento que é rectificativo. Enfim, numa palavra, ao passo que o presente é difuso, nevoento e com contornos mal definidos, o nosso futuro colectivo é risonho, desafogado e radioso.
Vejamos: os sacrifícios que agora fazemos são em nome desse futuro, por isso é que ele tem de ser bom. É verdade que aqueles que são mais velhos já fizeram na década de 70, na década de 80, na década de 90 e noutras décadas, imensos sacrifícios no então presente de modo a que o futuro - que é o que temos hoje - fosse muitíssimo melhor!
É certo que não é! Mas a culpa não pertence àqueles que nos pediram tais sacrifícios.
A culpa, meus caros amigos, é que o futuro está atrasado! Ficou preso nalgum esconso, num desvão, numa curva apertada do tempo... Mas há-de chegar!
E quando chegar esse futuro vai ser tão bom. O défice baixinho, o investimento na maior, o TGV a andar a 300 à hora, o aeroporto cheio de turistas e homens de negócios, as auto-estradas apinhadas de TIR que levam as nossas exportações para todo o mundo... e arredores! E tudo isto com os impostos mais baixos, o país sem corrupção, o Governo dialogante e o Presidente da República feliz e contente.
Sofro de ansiedade em relação a esse futuro em que apenas uma pequena mágoa subsistirá na cabeça de todos nós. Uma ínfima sensação de desconforto, que porém afastaremos como quem afasta uma insignificante mosca com a mão. Esse sentimento mínimo de desconforto será o nosso passado. E o nosso passado, visto desse futuro, é o nosso presente (não sei se acompanham esta reflexão assaz inteligente).
Nesse futuro de leite e mel, de ouro sobre azul, de jóias e veludo, de riqueza e felicidade, apenas a nuvem do passado (o que hoje vivemos) será infeliz. Os tempos em que os miseráveis estavam desempregados; o tempo em que alguns políticos não pareciam sérios; o tempo em que a economia não exportava, o TGV não andava e o avião não tinha aeroporto de jeito...
Mas contentemo-nos com este pensamento: tudo o que estamos a fazer é para que tenhamos um futuro decente. Tudo o que fizemos nos últimos 10, 20, 30, 40, 50 ou mesmo 60 anos tinha esse objectivo. Para mim, o presente não é claro, está cheio de dúvidas. Mas o futuro dissipá-las-á!
E digo mais, o futuro seria absolutamente fantástico não fosse ter por passado este presente miserável.
Aguentemos, ó povos!
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009