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Referendo, não, obrigado

Contra os casamentos homossexuais e, muito mais, contra o referendo da homossexualidade. Mais vale perder.

Henrique Burnay
8:31 Sábado, 7 de Nov de 2009
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Sou, por várias razões e com vários argumentos, contra a legislação dos casamentos homossexuais.

Não vale a pena entrar em detalhes, mas quem se der ao trabalho de ir ler o Código Civil perceberá que o que ali está não é aplicável às uniões entre pessoas do mesmo sexo sem uma enorme ginástica jurídica. Dos impedimentos às presunções que lhe estão associadas, há toda uma lógica que não se aplica.

Mais, o casamento não é um direito que o Estado reconhece a uns e recusa a outros. É um regime aplicável a determinadas circunstâncias, em que há interesse em regular, e não aplicável a outras, onde o interesse público (e não o próprio, é esse o ponto) não vê necessidade de se intrometer. E livre, coisa que alguns não percebem, quando pedem que se acabe com os casamentos todos, mas adiante, a conversa é sobre outra coisa.

Isto dito, há dois argumentos dos defensores da causa que me interessam: tudo o que tem que ver com a transmissão patrimonial, o direito de visitas em prisões e hospitais e por aí fora. Sou obviamente a favor, mas não acho que a coisa se resolva com o casamento. Desde logo porque ficariam de fora todos os não casados, heterossexuais ou homossexuais.

O outro argumento, menos usado mas mais profundo, é a vontade de, com a Lei, mudar a sociedade. Gosto de sociedades mais livres (detesto o paternalismo da tolerância), mas não sou adepto da mudança das mentalidades pela via legislativa e, mais ainda, não me parece que o efeito justifique o meio. Há melhores maneiras de abrir uma sociedade e poucas maneiras piores de as reformar. O custo, acho, é bem maior do que o benefício.

Dito isto, tenho um problema com quem está do meu lado da barricada. Pelo mera contabilidade eleitoral, a nossa posição está derrotada na Assembleia da República. Faça-se um referendo, pedem os defensores do Não. Não, digo eu. Mil vezes perder esta "batalha". (Se dúvidas houvesse, o artigo de José António Saraiva tira-as. Para alguma coisa havia de servir), um referendo sobre os casamentos homossexuais acabará, irremediavelmente, a ser um referendo sobre a homossexualidade. E isso, a sexualidade, não se referenda. Mais vale perder esta batalha a entrar nessa guerra civil tonta.  

 

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Referendo, não, obrigado: Magnífica observação
jpafonso (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 16:52 | Sábado, 7 de Nov de 2009
"Mil vezes perder esta "batalha". ...", um referendo sobre os casamentos homossexuais acabará, irremediavelmente, a ser um referendo sobre a homossexualidade"

Magnífica observação. Ao mesmo sumariza todo um sem número de razões porque outros referendos não vão avante: porque o risco de se julgar outras coisas que não o objecto do referendo, é real. Mas também há aqui uma armadilha que senão for desarmadilhada, corre o risco de impedir qualquer referendo de qualquer espécie no futuro.
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"...não sou adepto da mudança das mentalidades..."
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 17:31 | Sábado, 7 de Nov de 2009
"O outro argumento, menos usado mas mais profundo, é a vontade de, com a Lei, mudar a sociedade. Gosto de sociedades mais livres (detesto o paternalismo da tolerância), mas não sou adepto da mudança das mentalidades pela via legislativa e, mais ainda, não me parece que o efeito justifique o meio."

Ora, caro Henrique,

E se parasse um pouco para reflectir sobre a História recente da Humanidade? Então o Henrique acha que a abolição da escravatura, os direitos cívicos dos negros (e de muitas outras minorias étnicas), a emancipação da mulher, a abolição da pena de morte e muitos outros avanços civilizacionais deviam ficar à espera da mudança da mentalidade dos povos para se concretizarem, em vez de terem sido impostos por uma pequena minoria de mentes esclarecidas?

É óbvio que a mudança das mentalidades é fundamental. Mas, já parou para reflectir sobre o papel e a relevância do legislador no que diz respeito à mudança da mentalidade das massas?

Se, depois de tantas décadas, ainda é comum assistirmos a posições racistas, xenófobas, misóginas, intolerantes, etc., acha que devíamos ficar à sentados à espera da mudança das mentalidades?
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