12/02/2012 atualizado às 19:35
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Rankings e xanax

8:00 Segunda feira, 15 de setembro de 2008

Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, a destruição do que se foi fazendo de bom - do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.

Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.

Tenho uma coisa um pouco fora do comum para dizer sobre o assunto: a escola serve para ensinar e aprender. Se isto falha, os exames, as avaliações e os "rankings" são irrelevantes. Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. Enquanto se exigem mais e mais exames, garantir que os miúdos aprendem com algum gosto qualquer coisa entre cada um deles.

Enquanto se fazem "rankings", conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? Se não for por melhor razão, só para desanuviar o ambiente nos edifícios onde os nossos filhos passam uma boa parte do dia.

A América dos valores

A campanha americana parecia ir no bom caminho. Dois candidatos consistentes na disputa democrata. Um candidato republicano com mais neurónios no activo do que o seu antecessor. Melhor: os dois nomeados têm alguma noção do que se passa nos arredores dos Estados Unidos. Até que apareceu Sarah Palin e os americanos voltaram à cepa torta. Agora o debate é sobre a gravidez da filha de Palin, o seu filho com síndrome de Down, as posições radicais da candidata sobre o aborto.

Não é por ser mulher, como se viu com Hillary. É por não ter mais nada para dizer. Restam as suas novelas familiares e, valha-nos Deus, os seus 'valores'. São os mesmos 'valores' que imobilizaram Bill Clinton porque a oposição andava excitada com os seus segredos de alcova.

Que elegeram o mais inepto dos presidentes. Que fizeram do criacionismo matéria curricular, prometendo transportar os petizes da maior potência ocidental para a idade da pedra. Que enterraram os americanos num défice assombroso, numa crise económica com efeitos colaterais em todo o mundo, numa guerra desastrosa e numa perigosa crise de confiança. Deus nos livre da 'América dos valores', tão bem representada pelos psicodramas da insignificante senhora Palin. Esperemos que isto seja apenas um intervalo e que a política regresse dentro de momentos.

Daniel Oliveira

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Um bom artigo
etp (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 18:08 | Terça feira, 16 de setembro de 2008
Raramente consigo ler as suas crónicas: é demasiado azedo, intransigente, a sua "noção" de liberdade é parcial. Mas desta vez, verdade seja feita: boa crónica (diria que quando você comenta algo sem ter implicações pessoais no assunto até acerta).

1 - No caso dos professores deixe-me só acrescentar um ponto. A histeria do actual governo em anunciar que a melhoria de desempenho se deu ao maior investimento na educação de sempre é o maior acto de demagogia que eu já vi. Eu diria que até os mais ingénuos percebem isto. A educação, o ensino no geral, não se faz de quadros electrónicos, faz-se de excelentes professores e de uma vivência escolar que incentive ao estudo. Nada disto existe em Portugal (em qualquer nível de ensino). Os professores estão desmotivados (e não me refiro à carreira, refiro-me à motivação em saber cada vez mais para melhor ensinar). Nas melhores universidades do mundo ainda há muitas aulas dadas a giz e quadros de ardósia. Será que a internet em banda larga serve de alguma coisa se os alunos souberem mais do assunto que os professores da velha guarda? Um bom estudo seria perceber quais os sítios mais visitados nos computadores das escolas secundárias. Deixem-me adivinhar: hi5, jogos online diversos... Isto incrementa o desempenho dos alunos?

2 - Palin (só de escrever o nome me repudia) vai garantir uma vitória republicana. Porquê? Porque a maior parte dos americanos revê-se nela. Numa democracia os políticos são no fundo o espelho da população. Pegando nesta frase, façamos uma retrospecção para tentar perceber o nosso próprio governo. Qual a moral de pedir governantes do tipo "norte da Europa" quando o país continua bem bem no sul?
 
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Como foi possível?
aguafria (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 18:30 | Terça feira, 16 de setembro de 2008
Numa vida inteira passada na Escola nunca a encontrei em tamanha desgraça.

Não é só a desmotivação dos professores (que já não seria pouco).
É ninguém se entender.
É os mais incompetentes a mandarem: Peter tinha razão.
É a falta de bom senso nas decisões (das poucas que ainda podem ser tomadas na Escola). A autonomia retoricamente apregoada é isso mesmo: RETÓRICA.
As Escolas são dirigidas centralmente por fax e email's.

Quem legislou e impôs uma política nas escolas ou era ignorante ou incapaz.

Vejamos os concursos de titulares e a estruturação da carreira docente - tanta arrogância para tanto disparate. Está à vista de todos. O que trouxe de benefícios à vida das escolas e dos professores ou dos alunos? Veja-se o que se passa nas Escolas.
Vejamos a gestão das escolas. Onde surgiram os problemas? Afinal as escolas vão ser entregues " às grandes ausências" . Só não o sabia quem não conhecia a vida escolar.
Vejamos a avaliação dos professores. Onde está o bom senso? Onde está o rigor? Onde está o realismo? Como evitar a preversão do sistema?

Com os melhores a sairem penalizados nas reformas e desiludidos...
Quem será responsável pelas consequências dos erros?
Prateleiras douradas como prémio. Já vi muito para saber o que vai acontecer.

Parabéns, Daniel, pelo artigo.

 
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Eu continuo boa companhia... acho.
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 22:50 | Segunda feira, 15 de setembro de 2008
Sabe como eu vou fazer para sobreviver ao que aí vem?

1- Embora ainda não esteja no topo de carreira, aceitei que se quiser ser "apenas" um bom (diria excelente se não fosse imodéstia) professor, tenho que (e perdoem-me o vulgarismo) estar-me a cagar para as novas burocracias de avaliação, com todas as suas "grelhinhas" das mais variadas cores, e darei as minhas notas exactamente como dava antes (se os pais não gostarem, problema deles...)

2- Para poder ser o que digo atrás, tenho que aceitar não subir na carreira.

3- Quando o dinheiro, manifestamente não me chegar, mudo de profissão, com a vantagem de poder agradecer ao nosso governo o facto de não ir ter saudades do ensino. (é que há alguns anos atrás tive a possibilidade de mufdar de actividade, indo ganhar mais, bem mais, e não quis ir. Se fosse hoje...)
 
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pedro sergio pereira (seguir utilizador), 1 ponto , 12:02 | Quinta feira, 18 de setembro de 2008
Re: Rankings e xanax
mosqueteira (seguir utilizador), 1 ponto , 19:08 | Terça feira, 16 de setembro de 2008
Para começar, etp, os computadores das escolas secundárias têm filtros que não permitem aos alunos aceder a alguns sites, de jogos, nomeadamente. E há sempre professores e funcionários presentes..

Quanto à motivação dos professores, é inexistente, verdade! Mas falo por mim: o que me apetece mesmo é aprender coisas novas, experimentar técnicas, crescer: enquanto professora, e sobretudo enquanto pessoa [e olhe que tenho mais de 50 anos, etp ... mas eu, e as pessoas da minha idade (a maioria dos professores que estão nas escolas, afinal) somos a 'geração de Abril': interventiva, crítica, e avessa à estagnação. Conheço-os, sei do que falo!])

Agora, o que acontece, é que não me dão tempo para que eu possa fazer o que é importante: melhorar eu, e fazer com que isso se reflicta nos meus alunos, nas suas aprendizagens, no seu crescimento.

Tem absoluta razão o Daniel Oliveira. Qualquer veleidade em querer inovar, pesquisar, pensar (...) é inapelavelmente afogada em burocracias, legislações, papeis, papeis, papeis (péssimo para o ambiente, ainda por cima! ...)

Com o brilhante novo Estatuto (ECD), os professores passam horas intermináveis nas escolas ('acompanhamento de alunos' - furo - furo - aula - furo - aula - reunião) - a maior parte do tempo sem fazerem absolutamente nada (e escuso-me a explicar de novo porquê...). Quando têm de dar uma aula a sério (não confundir com a demagogia das de substituição!!) , estão já cansados, com sono, sem paciência. Chegam a casa, que é o local que lhes oferece condições de trabalho, e transformam-se em 'couch potatoes' (isto se tiverem sorte...) , de tão esmagados - a energia sugada até ao tutano.

Eu ... tento manter um periclitante 'estado de graça' que me sobra ainda do mês de férias que gozei (sim, um mês, para que não haja equívocos. E ainda fiz revisão de provas de exame durante as férias!).

Boa companhia, não sei se sou - passo os intervalos ao sol e ao relento, para poder fumar (isto apesar de a minha escola ter uma sala preparada para fumadores, ser constituída por pavilhões e ter metros e metros quadrados de jardim e outros espaços ao ar livre!!).

Só sei é que não quero ouvir falar de escola, nem de fichas de avaliação, nem de objectivos individuais. Nada de nada. E apetece-me dizer: "Deixem-me trabalhar!" mas naquilo que é importante: as aulas, a sua preparação rigorosa - que implica estudo, e pesquisa, e evolução.

Ao contrário do Professor.com.muita estou no topo da carreira e só me apetece é sair dela - não pelos alunos, que são o que ainda me 'agarra' - por tudo o resto que me abafa.
 
A (des)propósito, uma frase muito sábia, muito antiga: "corruptissima re publica plurimae leges" - Provérbios Latinos, Tácito (quão mais corrupto for o país, mais haverá leis) - e reformas, e contra-reformas, e contra-contra reformas

 
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    Re: Rankings e xanax    Ver comentário
etp (seguir utilizador), 1 ponto , 1:21 | Quarta feira, 17 de setembro de 2008
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mosqueteira (seguir utilizador), 1 ponto , 9:27 | Quarta feira, 17 de setembro de 2008
Profs e Xanax
SandraCosta37 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:48 | Terça feira, 16 de setembro de 2008
Bom, vamos fazer as contas:
a) uma colega minha apanhou um esgotamento nervoso e físico e está de baixa há meses. É prof titular;
b) um dos meus melhores amigos está de baixa também: um dia chegou ao metro e teve um ataque de pânico;
c) outro colega meu começou a ver doenças em todos os lados. Está com um esgotamento físico e nervoso;
d) uma colega minha teve um acesso de choro convulsivo em plena reunião. Está de baixa;
e) Eu? Eu estou a Cloxam, um excelente ansiolítico! Não, AINDA não estou de baixa...
E tudo isto no espaço de três meses!!
 
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Este ano AJUDE o professor... com a SUA companhia.
userEX102872 (seguir utilizador), 1 ponto , 23:29 | Quarta feira, 17 de setembro de 2008
Exmo. Sr. Daniel Oliveira

Venho apenas agradecer-lhe este artigo.
Nós, professores, precisamos que pessoas como o senhor exponham ao público aquilo que estão a fazer com a nossa Educação.
A Educação dos nossos filhos.
Se não tivermos o auxílio de homens como o senhor, com a coragem e a determinação de desafiar e criticar os poderes instalados, estaremos sentenciados a viver o início do fim da Escola Pública Nacional.
Gostaria de estender este meu raciocínio, mas a burocracia criada com estas des-políticas educativas impede-me de ter mais tempo para o fazer.
E estou tão desmotivado que, adorando um belo naco de bife na pedra... nem consigo vê-lo à minha frente...
Bem haja.
 
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