Como era óbvio, este orçamento passa. Talvez seja menos óbvio, mas o próximo terá o mesmo destino. No meio disto, a política fica mais calma mas a economia cada vez mais dependente do Estado. Esse é o nosso maior drama.
Tanto tempo para tão pouca coisa. Passaram quase 100 dias sobre a posse do novo (?) Governo e a sensação que todos temos é a de uma enorme perda de tempo. Em bom rigor, o Governo aproveitou estes meses para negociar com quem antes se recusava a negociar, pôr dinheiro onde antes não punha, fazer-se de vítima da oposição, agitar o fantasma da ingovernabilidade e fazer uma ou outra coisa.
A oposição não esteve melhor. Numa primeira fase, juntou-se em bloco para, do PCP ao CDS, ajustar contas de quatro anos de degredo e levar a votos no Parlamento uma salada de frutas legislativa sem qualquer nexo ou laivo de responsabilidade. É claro que, tal como o Governo, este movimento não passava de um medir de forças, que acabou rapidamente, com o PC e o Bloco para um lado e o PSD e o CDS quase ao colo do Governo.
O orçamento era o ponto limite de uma peça que esteve em cena quase três meses. O debate quinzenal de ontem no Parlamento já surgiu aos olhos de todo o país num tom delicodoce, só atrapalhado de quando em vez pelo óbvio desprezo que José Sócrates tem por Manuela Ferreira Leite e vice-versa. Há coisas que nunca mudam...
No resto, entrámos na normalidade. Continuamos falidos, endividados e com a remota esperança de que "isto há-de melhorar"; não sabemos bem porquê nem como mas "isto há-de melhorar". Mas, vá lá, temos um orçamento e a certeza de que não vamos estar mais um ano em campanha eleitoral. Bem vistas as coisas isso não é nada mau. Veremos rapidamente que um Executivo minoritário consegue governar e que a oposição consegue levar avante algumas das suas ideias. E que uma ou outra reforma pode ser feita neste quadro.
Se nada de anormal se passar, se a Justiça não tirar algum caso do seu infinito congelador, se os políticos não abusarem do esticar da corda, se a nova liderança do PSD não quiser ir directamente para votos (uma possibilidade real), o próximo orçamento passará sem dificuldade, perante o olhar atento de um Presidente que procura a reeleição e de agências de rating dispostas a dizer as tautologias que lhes pagam para dizer.
No meio disto o Estado engorda e torna-se mais discricionário. Este é o verdadeiro perigo deste orçamento e deste Estado. Com a crise instalada e a economia de rastos, os governos ganham um poder brutal de subsidiar, contratar, ajudar ou perdoar o que lhes apetece. Quem conseguir ser ouvido safa-se, quem não se fizer ouvir fica a pregar no deserto. A discricionariedade do Estado é o maior perigo com que vamos ter de viver.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010