Filipa não tem cama no quarto. Cresceu muito nestes últimos anos e, como não há orçamento familiar para comprar uma cama nova, dorme em cima de dois colchões. Não dá muita importância a isso. Aos 16 anos valoriza mais a posse da sua guitarra comprada à custa da poupança e gestão dos 15 euros de semanada que (ainda) recebe para todos os seus gastos pessoais. Mais cinco euros ganha Sofia, a irmã mais velha, de 20 anos, que tem aprendido a fazer esticar uma nota para sete dias.
Quantias que o seu pai se esforça por lhes continuar a dar, embora esteja desempregado há dois anos, depois de quase três décadas a trabalhar ininterruptamente na Fábrica Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, onde era director de serviços."O pai tenta mostrar-se divertido e dá-nos tudo o que pode, mas sabemos que ele anda muito abalado. E nós puxamos por ele. Então? Não te podes ir abaixo. Tens de manter o pensamento positivo para as coisas boas acontecerem!", falam à vez estas irmãs, com uma boa disposição contagiante.
O pai responde com um sorriso apagado. "É duro uma pessoa levantar-se de manhã e não ter um objectivo, um estímulo, um lugar para onde ir." Aos 49 anos, João Hermenegildo tem-se aguentado com o subsídio de desemprego e com o apoio da sua mulher, que se mantém a trabalhar nas Faianças da Bordalo Pinheiro. De um momento para o outro esta família de classe média, com um rendimento mensal desafogado, passou a remediar-se com bastante menos. E anunciam-se tempos bem piores. Numa espécie de grito de revolta, este pai de família revela a encruzilhada por onde tem andado: "Sou demasiado velho para trabalhar e demasiado novo para me reformar. Estou a entrar na fase do funil. O horizonte estreita-se. Falta apenas um ano para o subsídio acabar e ainda não arranjei emprego. (pausa) É psicologicamente complicado. Não sei mais o que fazer. As empresas que me chamam através do Centro de Emprego roem a corda na hora de renovarem o contrato..."João Hermenegildo Santos faz parte dos mais de meio milhão de portugueses que estão actualmente no desemprego.
Os dados de Novembro do Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) revelaram 61 mil novos desempregados inscritos nos centros de emprego, em relação a Outubro, segundo dados publicados pela Eurostat. Quer dizer que um total de 523,7 mil pessoas (10,3%) estão sem um posto de trabalho em Portugal. É a taxa mais elevada desde 1983, data em que começaram a existir estatísticas.
Os maiores gastos da família Santos vão para a filha Sofia. A frequentar o primeiro ano do curso de Naturopatia do Instituto de Medicina Tradicional (IMT), no Campo Grande, precisa de cerca de 250 euros mensais para as propinas, mais uma centena de euros para o passe do autocarro que a transporta todos os dias das Caldas a Lisboa."Sei bem as dificuldades que os meus pais estão a passar para que eu possa frequentar este curso. Privam-se de muita coisa para me proporcionarem um bom futuro. E já recorrem às poupanças que têm guardado. Por isso, mudei muito nos últimos tempos. Já não gasto dinheiro em ninharias. Ao contrário da maioria das raparigas da minha idade, não saio à noite, não tenho carta, nem carro, não vou a cafés, não frequento restaurantes, não compro roupa, nem jóias ou CD. Estou a tornar-me noutra pessoa. Mais simples", conta Sofia, que já trabalhou em call centers, balcões de loja e até na apanha da fruta, para ajudar ao orçamento da casa.
Ao seu lado, Filipa revela um sorriso metálico desconcertante antes de partilhar os seus passatempos (económicos) preferidos: "Comprar algo no supermercado e lanchar com amigos num jardim ou ver um filme em casa de alguém." Apesar de estar a atravessar a adolescência, lida bem com o facto de ser das poucas do seu grupo que não tem dinheiro para comprar roupas novas ou para sair à noite. "Calhou que a maioria dos meus amigos tenha bastante mais do que eu. Mas não me sinto inferiorizada. Cada um gasta o que pode. E eu sei de colegas que soltam cerca de 100 euros para tomarem uns copos numa qualquer discoteca, em Lisboa. Dá para acreditar? Acho ridículo miúdos da minha idade fazerem gastos tão grandes. Os seus pais não lhes ensinam a valorizar o dinheiro? Olhem, nós passámos a ser especialistas na arte da gestão!"Dito isto volta a escancarar um sorriso feito de braquetes. As irmãs recordam os tempos em que passavam os Verões fora da cidade. "Era tão bom sentir o ar das férias. Tínhamos o hábito de passar uns 15 dias no Algarve ou no Sul de Espanha. Agora, passamos os Verões inteiros aqui entre a vila de A dos Negros e as Caldas. Não temos outro remédio. É desolador", contam entre dentes. Ao contrário da irmã, Sofia confessa que a maior parte dos seus amigos são filhos de pais desempregados. "Dou-me com pessoas de um baixo estrato social. Todos andamos tesos e ajudamo-nos mutuamente. Trocamos ideias de poupança e chega a ser divertido", esclarece. Na idade de todos os sonhos, Sofia ambiciona gerir uma empresa de naturopatia em nome próprio. Já para a irmã Filipa, o futuro ainda é uma terra distante. Importa é viver o hoje e o agora. "Talvez vá estudar para fora, experimentar trabalhar por lá. Logo se vê..."
Maura, a determinada
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| Maura, 14 anos. O desemprego da mãe fê-la ir viver para casa dos avós, onde partilha a cama com a progenitora. Tem pouca roupa e não pode ir a festas de aniversário porque não tem dinheiro para dar prendas |
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"A maior mudança que aconteceu até agora na minha vida foi ter deixado a minha casa. Antes, eu tinha um quarto só para mim, onde lia, ouvia música, dançava. Até tinha uma secretária com um computador onde estudava, desenhava, escrevia. Mas há três anos a minha mãe ficou desempregada e, como está divorciada do meu pai, tivemos que abandonar a nossa morada e mudar-nos para aqui, para o apartamento dos meus avós. Agora divido uma cama com ela num quarto comunitário. Mas não dá para ficar triste para sempre! Aqui também posso ser feliz!"
O discurso fluente e irónico de Maura Leandro é desarmante. Os seus 14 anos já têm muita história para contar. E nem o facto de estar pela primeira vez frente a dois jornalistas a inibe de explicar as voltas que a sua vida tem dado desde que a sua progenitora ficou sem qualquer fonte de rendimento. As suas mãos não param quietas. As ideias disparam da sua boca ao ritmo de balas. "É chato não poder trazer os meus amigos cá a casa, não ter mesada, não poder ir às festas de aniversário dos meus amigos porque não tenho dinheiro para lhes dar uma prenda nem para pagar uma refeição num restaurante. Tenho pouca roupa. Apenas um par de ténis e um par de calças e nem há dinheiro para comprar uns chinelos de quarto. Mas há quem esteja pior do que nós. Não me devo queixar. Também sei que há quem tenha os pais desempregados, mas continua a ostentar roupas de marca. Felizmente não sou assim." Sorri. E logo depois esconde a cara entre as mãos num acesso momentâneo de vergonha e pudor.
A mãe, Dina Maria Inácio da Costa, 45 anos, devolve-lhe um olhar cúmplice. Farta dos empregos mal pagos, e após um período a subsistir com o subsídio de desemprego, Dina tentou a sua sorte como empresária ao abrir uma "loja de pequenos presentes", na zona de Castelo Branco. Para isso socorreu-se de um empréstimo que pediu ao Banco. Mas a crise foi demolidora para o negócio, obrigando-a a fechar as portas. Hoje depende inteiramente da ajuda dos seus pais. Passa os dias à espera que o seu telefone toque com uma resposta do IEFP, através do qual completou um Curso de Técnicas de Apoio à Gestão.
Maura acredita no valor da mãe e desdramatiza a situação. "O meu caso não é grave porque tenho o suporte dos avós e na escola almoço gratuitamente na cantina por estar no escalão A do Subsídio de Acção Escolar (SAS). Quanto à minha mãe está a fazer o que é preciso. A formação valorizou-a profissionalmente e assim passou a poder candidatar-se a mais e melhores empregos." No futuro, Maura imagina-se a ingressar na universidade onde quer seguir a via política ou de assistência social. "Quero fazer algo por Portugal." O que faria se estivesse no poder? "Investia em obras públicas. Quando um país está em crise o Estado tem que investir dinheiro em obras públicas que criem novos postos de trabalho. O TGV é bom, criará empregos, mas é preciso muitos mais."
Sara, vítima de bullying
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| Sara, 14 anos. Evita pedir dinheiro para ir às visitas de estudo, sonha com uns ténis novos, um mp4, aulas de dança e uma playstation como a dos colegas |
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Foi em Junho passado que Ana Maria Supico foi parar ao desemprego, junto de mais 170 operárias, com o encerramento da fábrica de confecção Mateus & Mateus. Meses depois, logo a partir do início deste ano escolar, os dias da sua filha Sara, de 14 anos, começaram a tornar-se cada vez mais difíceis. Nem tanto pelo facto de não ter o MP4 que tanto deseja, ou por não frequentar as aulas de dança que há muito os pais lhe prometeram pelas boas notas, mas porque passou a ser vítima de
bullying por parte de alguns colegas da escola que frequenta em Castelo Branco. "Gozam-me. Chamam-me feia, gorda e pobre. E dizem a toda a gente que não tenho casa, nem carro." Com um ar inocente de "lolita", sublinhado pelos óculos e tranças, assume que já fingiu ter uma
playstation 3 e outros
gadgets só para se sentir mais integrada na escola. "Sinto-me muitas vezes de parte por não ter o que os outros têm. É bom estar com a minha mãe em casa, mas tenho medo que o pai e a mãe deixem de conseguir sustentar-me a mim e ao meu pequenino irmão de oito meses."
Teresa, a cinéfila
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| Teresa, 7 anos. Tem poucos brinquedos e anda há muito a pedir à mãe para a levar ao cinema para ver o filme «Alvin e os esquilos» |
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"Ó mãe porque é que não trabalhas como as outras mães?" Esta é uma pergunta recorrente que a pequena Teresa, de 7 anos, faz a Cláudia Ferreira por a ver diariamente desalentada pelos cantos do apartamento vazio, em Alcochete. E, embora Cláudia responda à filha que está à procura e que em breve vai trabalhar, a verdade é que está cada vez menos confiante. "Estou com uma idade crítica para arranjar emprego. Tenho 36 anos e normalmente os anúncios pedem pessoas até aos 35 anos. Preferencialmente sem filhos ou com horário flexível. Ora com uma filha de 7 anos e outro de 2, como vou conseguir corresponder a isso?" Apesar de ter experiência como recepcionista e escriturária, como lhe falta só mais um ano para usufruir dos 420 euros de rendimento social, já se prepara para se candidatar a serviços de limpeza. "Estou determinada em arranjar emprego." Talvez a partir daí Teresa passe a ir mais do que uma vez por ano ao lugar que mais gosta: o cinema.
Publicado na Revista Única do Expresso de 30 de Janeiro de 2010