É verdade que António Guterres governou com acordos pontuais à esquerda e à direita. Mas era o tempo das vacas gordas. Havia dinheiro e não havia crise. Todas as opções eram mais fáceis, todas as bocas, as com fome e as gulosas, se podiam alimentar. Agora, com a crise, as escolhas são mais apertadas. E têm de ser claras. É por isso irrealista pensar que Sócrates pode governar com o CDS em matérias económicas e fiscais e com o Bloco e o PCP em questão sociais. Por isso, antes de começarmos a falar das responsabilidades dos partidos mais pequenos, temos de esperar que Sócrates decida para que lado se vira o seu governo. Não me refiro a coligações. Sócrates deve governar em minoria e o poder estará inevitavelmente no Parlamento. Refiro-me a políticas. Tirará o PS lições dos mais de duzentos mil votos que perdeu para a sua esquerda? Seria, depois deste aviso, um suicídio governar apoiado em Paulo Portas.
Dito isto, é a vez da esquerda à esquerda do PS decidir se quer fazer alguma coisa com o milhão de votos que recebeu. Há duas possibilidades: ou Bloco e PCP se ficam a vigiar mutuamente na sua pureza extraordinária (e sem paralelo na Europa) e entregam a faca e o queijo à direita populista ou se entendem os dois para fazer dos seus 31 deputados alguma coisa. Basta que o BE e o PCP se sentem a uma mesa para decidir aquilo que realisticamente podem conquistar no Parlamento para a esquerda ter garantidas algumas vitórias importantes. O risco de não o fazerem é cada um ir anulando o que o outro tenta e os dois acabarem com coisa nenhuma.
Acredito que no PCP e no BE haverá muita gente que respirou de alívio: se nenhum deles faz maioria com o PS nenhum deles poderá ser responsabilizado por nada. Erro. Mesmo que, daqui a uns anos, o seu eleitorado esteja ainda mais zangado, não deixará de os responsabilizar pela inutilidade em que transformaram o seu voto. Na campanha, os dois partidos prometeram que fariam a diferença no Parlamento. Farão?
Um mau policial
Não vou aqui gastar muita tinta com o conteúdo da intervenção de Cavaco Silva. Quem ouviu ter-se-á apercebido do absurdo de tudo aquilo: lapsos de causalidade que explicam desabafos de colaboradores com acontecimentos que lhe são posteriores, desmentidos com rabo de fora, demissões de assessores que nem chegaram a acontecer, desconfianças a roçar a paranóia, consultas a peritos feitas umas horas antes da declaração, suspeitas atiradas para o ar sem fundamentos claros, ligeireza nas acusações aos seus parceiros institucionais. O discurso desconcertante do Presidente obriga-nos a recordar o que tínhamos esquecido pelo menos desde Afonso VI: também a política está dependente da irracionalidade humana.
Como se explica que, em tempo de crise e quando lhe espera a gestão de relações com um governo minoritário, o Chefe de Estado decida arrastar o país para este rocambolesco policial de segunda? Aquilo que ouvimos na terça-feira não deixa espaço para uma resposta no domínio da racionalidade política: o Presidente foi apanhado num golpe de manipulação da opinião pública em vésperas de eleições e, tendo perdido o controlo da situação, é agora comandado pelo seu desespero. Não me parece que as sequelas deste episódio tenham cura possível. E só daqui a um ano e meio se poderá resolver este novo e inesperado problema.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009