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Querem contar?

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 5 de outubro de 2009

É verdade que António Guterres governou com acordos pontuais à esquerda e à direita. Mas era o tempo das vacas gordas. Havia dinheiro e não havia crise. Todas as opções eram mais fáceis, todas as bocas, as com fome e as gulosas, se podiam alimentar. Agora, com a crise, as escolhas são mais apertadas. E têm de ser claras. É por isso irrealista pensar que Sócrates pode governar com o CDS em matérias económicas e fiscais e com o Bloco e o PCP em questão sociais. Por isso, antes de começarmos a falar das responsabilidades dos partidos mais pequenos, temos de esperar que Sócrates decida para que lado se vira o seu governo. Não me refiro a coligações. Sócrates deve governar em minoria e o poder estará inevitavelmente no Parlamento. Refiro-me a políticas. Tirará o PS lições dos mais de duzentos mil votos que perdeu para a sua esquerda? Seria, depois deste aviso, um suicídio governar apoiado em Paulo Portas.

Dito isto, é a vez da esquerda à esquerda do PS decidir se quer fazer alguma coisa com o milhão de votos que recebeu. Há duas possibilidades: ou Bloco e PCP se ficam a vigiar mutuamente na sua pureza extraordinária (e sem paralelo na Europa) e entregam a faca e o queijo à direita populista ou se entendem os dois para fazer dos seus 31 deputados alguma coisa. Basta que o BE e o PCP se sentem a uma mesa para decidir aquilo que realisticamente podem conquistar no Parlamento para a esquerda ter garantidas algumas vitórias importantes. O risco de não o fazerem é cada um ir anulando o que o outro tenta e os dois acabarem com coisa nenhuma.

Acredito que no PCP e no BE haverá muita gente que respirou de alívio: se nenhum deles faz maioria com o PS nenhum deles poderá ser responsabilizado por nada. Erro. Mesmo que, daqui a uns anos, o seu eleitorado esteja ainda mais zangado, não deixará de os responsabilizar pela inutilidade em que transformaram o seu voto. Na campanha, os dois partidos prometeram que fariam a diferença no Parlamento. Farão?

Um mau policial

Não vou aqui gastar muita tinta com o conteúdo da intervenção de Cavaco Silva. Quem ouviu ter-se-á apercebido do absurdo de tudo aquilo: lapsos de causalidade que explicam desabafos de colaboradores com acontecimentos que lhe são posteriores, desmentidos com rabo de fora, demissões de assessores que nem chegaram a acontecer, desconfianças a roçar a paranóia, consultas a peritos feitas umas horas antes da declaração, suspeitas atiradas para o ar sem fundamentos claros, ligeireza nas acusações aos seus parceiros institucionais. O discurso desconcertante do Presidente obriga-nos a recordar o que tínhamos esquecido pelo menos desde Afonso VI: também a política está dependente da irracionalidade humana.

Como se explica que, em tempo de crise e quando lhe espera a gestão de relações com um governo minoritário, o Chefe de Estado decida arrastar o país para este rocambolesco policial de segunda? Aquilo que ouvimos na terça-feira não deixa espaço para uma resposta no domínio da racionalidade política: o Presidente foi apanhado num golpe de manipulação da opinião pública em vésperas de eleições e, tendo perdido o controlo da situação, é agora comandado pelo seu desespero. Não me parece que as sequelas deste episódio tenham cura possível. E só daqui a um ano e meio se poderá resolver este novo e inesperado problema.

Daniel Oliveira  

Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009

 

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Querem contar?
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 15:28 | Segunda feira, 5 de outubro de 2009
Da irresponsabilidade da esquerda se está a viver o momento actual. Que importa que a esquerda em Portugal seja maioritária se isso não impede ter um Presidente de direita. O que é que a esquerda faz para que as politicas que defende mal ou bem, justas ou injustas, possiveis ou demagogicas, sejam implementadas. Em vez de se unirem e na impossibilidade de obterem o excelente que defendem consigam no mínimo o Bom ou mesmo o Satisfaz. Perante tamanho regabofe praticado há quem se ria com toda a vontade da palermice, para não lhe chamar outra coisa. É claro que a direita também não anda melhor. Acabamos de ter um governo maioritário reformador e em vez de ser apoiado principalmente pela alternativa passou o tempo a tentar deitá-lo abaixo. Rasgou ou tentou rasgar os lençóis e os cobertores e só não deitou fogo ao colchão porque não tinha fósforos. A palermice é tal e também para não chamar outra coisa, que nem sequer deixam fazer a cama para eles se deitarem. Com estas atitudes não se admirem se daqui a uns anos não venham a ser engolidos, quando ainda por cima continuam a apostar em dinossauros e mumias em vez de se renovarem. Há quem diga que sim e outros que não, mas não merecerá apesar de tudo, este povo mais do que tem, ou cada um tem o que merece. Se o arrependimento matasse já tinha morrido metade. Não fui eu que disse que um Rei fraco faz fraca a forte gente. Perante tal cenário temos diversos responsaveis na questão da ingovernabilidade. A vitima é sempre a mesma.
 
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Nessas contas, falta a prova dos 3
da Maia (seguir utilizador), 1 ponto , 22:32 | Segunda feira, 5 de outubro de 2009
O PS costuma ser um partido de esquerda aos sábados e domingos (quando não pode publicar leis, e saem os jornais de fim-de-semana). Nos restantes dias da semana, é o que der jeito...
A hipótese de um triunvirato de esquerda, é um acreditar convicto na "ameaça da direita", vendida aos eleitores, para a subida do sector... ao mesmo tempo que se dizia que o PS tinha "governado à direita". Estratégia um pouco ambivalente, não?... Qual será essa esquerda que resiste à prova dos 3? A da convergência nos pequenos diplomas, ou a da divergência nos grandes assuntos?

O cenário parece estar pintado à direita, com dois ministérios, um emprega azul e outro economiza amarelo, mas independentes, claro!

Quanto ao mau policial... em contraponto, talvez também faça falta o bom comentário. Muitos comentários, repetindo muitas vezes a mesma frivolidade, pode também resultar, não há dúvida! Já a ligação a Afonso VI, é concerteza muito culta, mas não se percebe então quem desempenha o papel de D. Luísa de Gusmão, do Conde de Castelo Melhor e de D. Pedro II... mas deve ser burrice minha, que não percebi a profundidade e o alcance da observação!
 
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