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Quer factura?

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 26 de fevereiro de 2010

Um paralelo corta a Europa algures entre Poitiers, onde Carlos Martel venceu os mouros em 732, e Amesterdão, onde no século XVI foram acolhidos os pais judeus do filósofo Espinoza, expulsos de Portugal. Esse paralelo estabelece a fronteira entre duas Europas, muito diferentes uma da outra. Em lugares acima dele a autoridade que vigore é sentida como legítima e ninguém, em princípio, desconfia do que lhe diga um estranho. Em lugares abaixo dele a autoridade (do governo, da câmara, da freguesia, do tribunal, do pároco) é sentida como ilegítima e toda a gente desconfia do que lhe diga um estranho - só se acredita, à cabeça, em parentes e amigos.

As duas metades sobreviveram à II Guerra Mundial e fundaram o que é hoje a União Europeia, a metade Sul graças a três quartos da Itália e ao sul da França e a metade Norte graças ao norte da França, ao Luxemburgo, à Holanda e à Alemanha Ocidental (a Bélgica é mistura incómoda de norte e de sul). Teceram a manta europeia em tempo de vacas gordas, que predispõe ao optimismo e à paz social: se eu puder trocar o meu Toyota de três em três anos que mal tem que o meu patrão troque o BMW dele? E se outros quiserem vir sentar-se à nossa mesa põem-se mais talheres. Ao trote do projecto europeu criou-se o euro que desde o começo fez franzir sobrolhos: moeda única europeia sem governo económico da Europa? Como é que vai ser? Até agora tem sido e continuará a ser. Na mira de prevenir crises futuras, tenta-se um pouco mais de coordenação mas regimes fiscais idênticos na União, por exemplo, não se imaginam facilmente por enquanto, pese aos born again da Europa.

Entretanto, para salvar o euro, a União precisa de salvar a Grécia (embora a baixa do euro por causa da Grécia tenha sido estímulo bem-vindo às economias da zona). O salvamento é empreendido sem boa vontade. Depois de meio século a pagarem para expiação da culpa da guerra os contribuintes alemães não estão mais dispostos a sustentar vícios alheios e mandaram a União dizer à Grécia: "Ajuda-te que ninguém te ajudará". Na dúvida - pode alguma ajuda acabar por vir - os especuladores internacionais acalmaram. Os sindicatos gregos terão de acalmar também.

O caso das contas públicas gregas, aldrabadas provavelmente já para entrada no euro e depois para esconder o tamanho dos défices, mostra o Sul no seu esplendor mais pejorativo. Digo o Sul porque males parecidos medram noutros países destas latitudes. (Males? Nein! Costumes). Roubar o fisco (isto é, os outros) e não cumprir regulamentos que protejam o bem comum são passatempos que roem a economia nacional e a moral de cada um. Há anos, em "Visitas ao Poder", Filomena Mónica contou admiravelmente quão insólito era fazer obras em casa respeitando leis e portarias. Quando digo a fornecedores ou condóminos que quero facturas (isto é, que quero pagar IVA) lançam-me o olhar furtivo que se destina a maluquinhos mansos. Mesmo com contas públicas limpas um dia destes vamos ver-nos gregos.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010

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