Infelizmente o assunto desta crónica não é uma história da carochinha. Nos últimos dias dois grandes negócios merecem destaque. A OPA sobre a Cimpor e a entrada de Isabel dos Santos, a filha do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, (que ao que parece também é empresária), na Zon.
Primeiro os brasileiros. A Cimpor é uma companhia portuguesa que cresceu até se tornar o 5º maior grupo cimenteiro mundial. Cresceu primeiro no mercado interno à custa da política do betão, ou seja, à custa dos meus e dos seus impostos. A estratégia internacional levou a empresa a constituir um império que agora os brasileiros legitimamente querem. Dizem muitas vozes que isto nada tem de mal. Erro. Portugal está à beira de perder uma referência internacional e um centro de conhecimento importante. A Cimpor paga impostos aqui, a Cimpor ajuda a nossa balança comercial e de pagamentos, a Cimpor exporta ainda conhecimento e mão-de-obra qualificada. Agora pouco há a fazer até porque a defesa artificial de centros de decisão nacional não faz sentido. O que deveria ter sido feito era garantir que empresas como a Cimpor compram em vez de serem compradas. Aqui o Estado deveria ter tido um papel importante ao apoiar estas empresas, como fazem outros países europeus, tornando-as mais fortes, mais competentes, mais bem geridas, ou seja, muito mais difíceis de comprar. Em vez disso, o grupo envolveu-se numa querela accionista que vem deste a guerra pelo poder no BCP. Eis o resultado: a Cimpor vai sambar e o Governo acompanhar.
Isabel dos Santos deve ser a líder no investimento directo estrangeiro em Portugal. Os interesses do próprio Presidente angolano parecem só ter um critério: se quiserem entrar em Angola têm de nos abrir o capital das vossas empresas. E a bem de algo que julgamos de interesse maior corrompemos valores e aceitamos as regras do jogo.
Este negócio é a todos os níveis estranho. A Zon andou a recomprar acções próprias para diminuir o capital da empresa (o que chamam na gíria share buy back) e agora vende essas acções a um único investidor? E a Caixa, que comprou acções da Zon a 12 euros, vai vender uma parte dessas acções a 5,20? E tudo para terem 30% de um negócio liderado em Angola por Isabel dos Santos? E a CGD ainda financia a operação toda?
Claro que isto tudo não se fez sem o consentimento do Governo. Que andávamos desgovernados já sabíamos, mas que estão todos a ficar doidos é novidade. Pode ser que o lobo mau seja bonzinho, até pode ser...
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009