O "5 para a meia-noite", programa da RTP2 apresentado todas as quartas-feiras por Nilton, brinda-nos com uma rúbrica que tem tanto de humorística como de despoletadora de reflexão. A rúbrica, denominada "Andam os meus pais a pagar um curso para isto", consiste em ir para a frente de escolas fazer perguntas de cultura geral a estudantes.
Desengane-se quem pensar que as perguntas incidem sobre literatura estrangeira, história da economia mundial ou mitologia nórdica. As perguntas são tão simples como "O casamento homossexual diz respeito a homens ou a mulheres?", "Quem é o actual Presidente da República?" ou "Quem é o actual líder do PSD?". Pronto, admito que esta última ainda ninguém tenha percebido bem...
E os alunos erram, erram sistematicamente, questão após questão.
Presumo que um bom economista não tenha de saber quem foi D. Afonso Henriques ou que um engenheiro não tenha de saber quem escreveu "Os Lusíadas". Mas esgotar-se-á a função da escola na simples formação de profissionais? Bastará como indicador de sucesso que um arquitecto elabore projectos imaculados? Terá a escola cumprido o seu papel se um farmacêutico tiver decorado a farmacopeia?
A resposta, para mim, é bem clara, e é não. A escola tem como papel crucial formar cidadãos, cidadãos informados e com espírito crítico.
Como pode um jovem desdenhar da classe política, se não sabe sequer quem é o chefe do seu Governo? Como pode alguém orgulhar-se de ser português se pensa que Afonso Henriques escreveu a "Mensagem" e que Pedro Nunes descobriu o caminho marítimo para a Índia?
Alguma coisa anda a falhar no nosso sistema de educação mas, acima de tudo, muito anda a falhar na nossa sociedade. Numa sociedade em que os jovens não dão importância à cultura nem sequer à vida política e cívica que os rodeia. Numa sociedade em que se valoriza alguém que acabe uma licenciatura com média de 16, mas que não sabe quantos Cantos têm "Os Lusíadas", e isto se souber o que são "Os Lusíadas".
Está na altura de fazer ver a estes jovens que, mais do que futuros profissionais, são cidadãos, não só no futuro, mas agora mesmo.
Ao ouvir as barbaridades que este programa nos dá a conhecer, não consigo deixar de ficar apreensivo quanto ao futuro da minha geração e das que se seguem. Mas para estes jovens, é perfeitamente normal, e amanhã voltariam a errar. Talvez tenhamos mesmo o que merecemos, talvez estejamos condenados a viver num país em declínio, porque nós mesmos nos condenámos à ignorância.
Finalizo só com uma nota aos profissionais das áreas supra-citadas: tenho noção de que a um arquitecto não basta fazer projectos imaculados, nem a um farmacêutico saber a farmacopeia de trás para a frente, apenas usei estas comparações para elucidar o meu ponto de vista.
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* Vogal Responsável pelo Ensino Superior na CPS da JSD Pombal
Presidente da Direcção da Associação de Estudantes Pombalenses do Ensino Superior