Ana tinha de o fazer, mas não sabia como. Ainda há pouco dormia, tranquila, e duas horas depois a família estava desfeita. O marido morto no quarto, médicos e polícias no corredor de casa, e os dois filhos mais novos ainda deitados e sem saberem. Tinha de lhes contar. Mas como?
Sentou-se na cama, à beira da mais nova, e falou do que lera num livro. "Às vezes as pessoas adormecem e ficam a dormir para sempre e transformam-se em estrelas e ficam no céu a olhar por nós. E o papá agora é uma dessas estrelas". A miúda olhou para ela e, às nove e cinco da manhã, perguntou à mãe: "O papá morreu?"
Passaram três meses e Ana Sofia Caeiro, 40 anos, está à mesa, com um café à frente a falar do que ficou para trás. "A nossa família foi destruída e não me conformo. A única coisa que posso fazer é levar esta luta até ao fim."
Caso em processo de averiguações
A luta começou por ser para salvar a vida do marido, Jacinto. Agora é contra o INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) e foi nesse sentido a queixa que entregou no MP de Cascais, por homicídio por negligência. O caso está também a ser alvo de um processo de averiguações pela Delegação Regional de Lisboa do INEM.
Ana diz que naquela manhã, 12 de Dezembro de 2009, fez dois telefonemas para o 112 e ninguém lhe ligou. "Errei ao ter confiado no que me diziam. Mas não tinha motivo para não o fazer". Mais tarde há-de dizer que encara a vida como uma estrada. "É um caminho. Às vezes encontramos pessoas boas e temos sorte. Outras temos azar e encontramos pessoas que não são boas."
Jacinto, professor de Matemática, tinha 41 anos, três filhos e morava em Oeiras. No dia 12, sexta-feira, acordou aos gritos às sete da manhã com dores intensas no peito, nos braços e nos pulsos. Nunca tivera qualquer doença grave, não sofria do coração e terminara há pouco um tratamento com antibiótico, por causa de uma infecção respiratória. "Tinha o colesterol ligeiramente elevado, mas era saudável", conta Ana.
A mulher fez o primeiro telefonema para o INEM a pedir uma ambulância às 7h22m52, já depois de ter dado paracetamol ao marido. A operadora estava no fim do turno de oito horas e após várias perguntas recomendou-lhe que desse um Ben-u-ron e que, se os sintomas se mantivessem, devia dirigir-se ao centro de saúde. A ambulância não chegou.
Às 8h13m, Ana Sofia pede ao filho mais velho, 19 anos, que ligue de novo para o INEM. Jacinto, recorda, estava deitado na cama, olhos fechados, inconsciente e não respondia. "Quem atendeu revelou uma elevada falta de sensibilidade associada a uma extrema arrogância, prepotência, superioridade e hostilidade", conta Ana, em jeito de resumo do telefonema de 6 minutos e 16 segundos. Este operador do INEM tinha acabado de entrar ao serviço.
Reanimação com desfibrilhador
A central do INEM em Lisboa recebe, em média, cerca de 1700 chamadas por dia (são 20 mil em todo o país). A 11 de Fevereiro, dia Europeu do Número de Emergência, o instituto revelou que cerca de 70% dos pedidos são falsos ou exagerados nos sintomas. Uma semana antes, num inquérito, 80% dos portugueses responderam "sim" à pergunta: "Recomendaria o INEM a familiares e amigos?". "E os outros? Que histórias têm?", pergunta Ana, cuja preocupação é agora ter acesso às gravações das chamadas e ao resultado da autópsia do marido.
Raquel Leal, porta-voz do INEM, responde ao Expresso que, devido ao processo de averiguações, não há comentários. "O INEM não deve pronunciar-se sobre a actuação dos funcionários sem antes os confrontar com os factos e obter uma explicação".
Catorze minutos e 9 segundos depois da última chamada para o INEM, Ana liga para os bombeiros de Paço de Arcos. O telefonema (55 segundos) é interrompido pela chegada de dois bombeiros de Barcarena, que começam a fazer reanimação a Jacinto. Um pede a presença da PSP. Dez minutos depois, já com a polícia em casa, chega a equipa do INEM, que tenta a reanimação com auxílio de um desfibrilhador. Às 9h05, duas horas depois de ter acordado, Ana Sofia estava viúva. E precisava de contar aos dois filhos mais novos que o pai acabara de morrer. Mas não sabia como.
O que conta Ana Sofia
07h22m52
2 minutos e 53 segundos
Ana pediu a uma técnica do INEM que enviasse uma ambulância para socorrer o marido. Disse que o marido estava muito agitado e com dores. Precisou que as dores afectavam o peito, os braços e os pulsos. A técnica fez-lhe perguntas. Idade do marido? Tinha doenças anteriores ou de coração? Tinha febre? Não sabia, o termómetro estava partido, mas tinha suores frios, estava frio e a transpirar. Tinha dificuldades em respirar? A respiração era normal. A técnica disse que não se justificava a ida de uma ambulância, Recomendou um Ben-u-ron.
08h13m
6 minutos e 16 segundos
O filho mais velho do casal disse que o pai "se tinha ficado, não se mexia, não estava a respirar" e pediu uma ambulância, rápido. O operador respondeu que "se voltasse a pedir rápido lhe desligava o telefone". Ana pegou no telefone e pediu uma ambulância, porque o marido tinha os olhos fechados, não respirava e não respondia. O técnico perguntou a idade e se tinha tido alguma doença anterior. Disse que não havia necessidade de estar naquela aflição. Ana pediu-lhe o nome. Ele não o deu e disse-lhe para virar o marido para a esquerda e esperar.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010