13/02/2012 atualizado às 12:29
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Queixa contra INEM por morte em casa

Viúva diz que foi ignorada por operadores do 112.

Ricardo Marques (www.expresso.pt)
22:23 Terça feira, 16 de março de 2010
Ana Sofia Caeiro avançou com queixa
Ana Sofia Caeiro avançou com queixa
António Pedro Ferreira

Ana tinha de o fazer, mas não sabia como. Ainda há pouco dormia, tranquila, e duas horas depois a família estava desfeita. O marido morto no quarto, médicos e polícias no corredor de casa, e os dois filhos mais novos ainda deitados e sem saberem. Tinha de lhes contar. Mas como?

Sentou-se na cama, à beira da mais nova, e falou do que lera num livro. "Às vezes as pessoas adormecem e ficam a dormir para sempre e transformam-se em estrelas e ficam no céu a olhar por nós. E o papá agora é uma dessas estrelas". A miúda olhou para ela e, às nove e cinco da manhã, perguntou à mãe: "O papá morreu?"

Passaram três meses e Ana Sofia Caeiro, 40 anos, está à mesa, com um café à frente a falar do que ficou para trás. "A nossa família foi destruída e não me conformo. A única coisa que posso fazer é levar esta luta até ao fim."

Caso em processo de averiguações


A luta começou por ser para salvar a vida do marido, Jacinto. Agora é contra o INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) e foi nesse sentido a queixa que entregou no MP de Cascais, por homicídio por negligência. O caso está também a ser alvo de um processo de averiguações pela Delegação Regional de Lisboa do INEM.

Ana diz que naquela manhã, 12 de Dezembro de 2009, fez dois telefonemas para o 112 e ninguém lhe ligou. "Errei ao ter confiado no que me diziam. Mas não tinha motivo para não o fazer". Mais tarde há-de dizer que encara a vida como uma estrada. "É um caminho. Às vezes encontramos pessoas boas e temos sorte. Outras temos azar e encontramos pessoas que não são boas."

Jacinto, professor de Matemática, tinha 41 anos, três filhos e morava em Oeiras. No dia 12, sexta-feira, acordou aos gritos às sete da manhã com dores intensas no peito, nos braços e nos pulsos. Nunca tivera qualquer doença grave, não sofria do coração e terminara há pouco um tratamento com antibiótico, por causa de uma infecção respiratória. "Tinha o colesterol ligeiramente elevado, mas era saudável", conta Ana.

A mulher fez o primeiro telefonema para o INEM a pedir uma ambulância às 7h22m52, já depois de ter dado paracetamol ao marido. A operadora estava no fim do turno de oito horas e após várias perguntas recomendou-lhe que desse um Ben-u-ron e que, se os sintomas se mantivessem, devia dirigir-se ao centro de saúde. A ambulância não chegou.

Às 8h13m, Ana Sofia pede ao filho mais velho, 19 anos, que ligue de novo para o INEM. Jacinto, recorda, estava deitado na cama, olhos fechados, inconsciente e não respondia. "Quem atendeu revelou uma elevada falta de sensibilidade associada a uma extrema arrogância, prepotência, superioridade e hostilidade", conta Ana, em jeito de resumo do telefonema de 6 minutos e 16 segundos. Este operador do INEM tinha acabado de entrar ao serviço.

Reanimação com desfibrilhador


A central do INEM em Lisboa recebe, em média, cerca de 1700 chamadas por dia (são 20 mil em todo o país). A 11 de Fevereiro, dia Europeu do Número de Emergência, o instituto revelou que cerca de 70% dos pedidos são falsos ou exagerados nos sintomas. Uma semana antes, num inquérito, 80% dos portugueses responderam "sim" à pergunta: "Recomendaria o INEM a familiares e amigos?". "E os outros? Que histórias têm?", pergunta Ana, cuja preocupação é agora ter acesso às gravações das chamadas e ao resultado da autópsia do marido.

Raquel Leal, porta-voz do INEM, responde ao Expresso que, devido ao processo de averiguações, não há comentários. "O INEM não deve pronunciar-se sobre a actuação dos funcionários sem antes os confrontar com os factos e obter uma explicação".

Catorze minutos e 9 segundos depois da última chamada para o INEM, Ana liga para os bombeiros de Paço de Arcos. O telefonema (55 segundos) é interrompido pela chegada de dois bombeiros de Barcarena, que começam a fazer reanimação a Jacinto. Um pede a presença da PSP. Dez minutos depois, já com a polícia em casa, chega a equipa do INEM, que tenta a reanimação com auxílio de um desfibrilhador. Às 9h05, duas horas depois de ter acordado, Ana Sofia estava viúva. E precisava de contar aos dois filhos mais novos que o pai acabara de morrer. Mas não sabia como.


O que conta Ana Sofia

07h22m52
2 minutos e 53 segundos

Ana pediu a uma técnica do INEM que enviasse uma ambulância para socorrer o marido. Disse que o marido estava muito agitado e com dores. Precisou que as dores afectavam o peito, os braços e os pulsos. A técnica fez-lhe perguntas. Idade do marido? Tinha doenças anteriores ou de coração? Tinha febre? Não sabia, o termómetro estava partido, mas tinha suores frios, estava frio e a transpirar. Tinha dificuldades em respirar? A respiração era normal. A técnica disse que não se justificava a ida de uma ambulância, Recomendou um Ben-u-ron.

08h13m
6 minutos e 16 segundos
O filho mais velho do casal disse que o pai "se tinha ficado, não se mexia, não estava a respirar" e pediu uma ambulância, rápido. O operador respondeu que "se voltasse a pedir rápido lhe desligava o telefone". Ana pegou no telefone e pediu uma ambulância, porque o marido tinha os olhos fechados, não respirava e não respondia. O técnico perguntou a idade e se tinha tido alguma doença anterior. Disse que não havia necessidade de estar naquela aflição. Ana pediu-lhe o nome. Ele não o deu e disse-lhe para virar o marido para a esquerda e esperar.


Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010
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UM PAÍS AOS PEDAÇOS
santo e peca (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 8:40 | Quarta feira, 17 de março de 2010
A emergência pré-hospitalar e mesmo a hospitalar, está um caos e ninguém parece querer saber de nada. O ex-ministro Correia de Campos e o ainda 1º ministro, deveriam estar a prestar contas à justiça pelo descalabro em que o SNS está e em particular esta questão das emergências e das maternidades. Estão a morrer pessoas todos os dias por falta de assistência, por má organização das urgências e ninguém liga. Isto não é o destino a dizer que sempre foi assim e assim tem de ser. Esta Senhora deveria desde já colocar uma acção contra o INEM no âmbito da Lei 67/2007 bem como todo e qualquer cidadão que se sinta lesado num qualquer serviço público o deve fazer. Pelo menos fica a saber que nos responsabiliza a todos e quando todos tivermos a noção que são os nossos impostos que estão a pagar as indemnizações por más opções políticas, então estará chegada a hora de responsabilizar os políticos.
 
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INEM
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos , 17:42 | Quarta feira, 17 de março de 2010
Tem pessoas mal preparadas, e já aconteçeu comigo.
Chamei o inem porque uma vizinha se encontrava muito mal, tremia muito e nem falava, o diagnóstico deles nem digo, solicito o transporte para o hospital, senão apresento queixa ás autoridades, passadas umas horas transferênçia com urgênçia para Coimbra 3 aneurismas???
 
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Cara Ana
Mr. Jolie (seguir utilizador), 1 ponto , 0:48 | Quarta feira, 17 de março de 2010
"Homicídio por negligência?"
Esperou 3 MESES para fazer a queixa? A que propósito!?
Se estava assim tão preocupada, com o intervalo de quase uma hora entre as chamadas, não teria tido tempo de sentar o rabiosque no carro e levar o seu marido às urgências? Provavelmente porque teve a mesma atitude que a operadora do INEM, que sendo ou não uma besta, fez o seu trabalho. Por telefone costuma ser difícil diagnosticar um doente.
É lamentável a sua morte, mas sinceramente esta historia parece-me muito mal contada. E que fundamentos absurdos para uma acusação tão grave!
Demasiado drama e exposição. Há de lhe servir de muito...
 
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    Re: Cara Ana    Ver comentário
oexilado (seguir utilizador), 1 ponto , 1:48 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
userEX50677 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:22 | Quinta feira, 18 de março de 2010
    Há que ter em conta que, três meses    Ver comentário
LisQue2 (seguir utilizador), 1 ponto , 2:56 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
olimanuel (seguir utilizador), 1 ponto , 8:38 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
igrejar (seguir utilizador), 1 ponto , 8:46 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
franz74 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:53 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
Yamamoto Kansuke (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Quarta feira, 17 de março de 2010
    Re: Cara Ana    Ver comentário
injazz (seguir utilizador), 1 ponto , 15:22 | Quarta feira, 17 de março de 2010
É comum situações deste tipo
nao tento (seguir utilizador), 1 ponto , 10:39 | Quarta feira, 17 de março de 2010
Infelizmente já tive que recorrer ao inem por algumas vezes. Acredito que recebam chamadas falsas, mas uma vida é uma vida, e como é possivel fazer um diagnóstico pelo telefone? Uma pessoa com um doente está sempre sobre uma pressão enorme, estará em condições de responder a todas as perguntas e a ver que a assistencia demora? Segundo sei, quem atende as chamadas tem noções basicas de saúde. Na ultima assistencia que pedi para o inem, após varios minutos de conversa telefónica, enviaram uma equipa, suponho constituida por um médico e um enfermeiro. Ao chegarem e após observarem o doente perguntaram por os tinha chamado? Respondi educadamente, chamei-os pelo caso que está á vossa frente. Após mais alguns momentos telefonaram para a central e decidiram transportar o doente ao hospital. Termino, dizendo que o doente esteve internado 15 dias, por se encontrar desidratado, anémino, e com liquido no pulmão, quero também dizer que o doente em causa tem 93 anos. Ponderei muito em fazer participação, mas pensei que há dias em que não nos encontramos em perfeitas condições, por diversos motivos da vida. Não fiz qualquer participação pois pensei que a equipa possivelmente estaria num desses dias menos bons.
 
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