Os jornalistas são muitas vezes criticados por só darem relevo às más notícias. Ao que parece somos o espelho de uma espécie de fatalismo luso que nos leva a evidenciar tudo o que está mal e a esquecer os bons exemplos. Esta análise tem um único problema. Os jornais são o espelho do país, deste país que é o nosso, e, às vezes, por muito que os jornais se esforcem não é possível fazer melhor do que contar histórias individuais de sucesso. Quando olhamos para o panorama global português é inevitável esbarrar numa qualquer fatalidade que nos julga e condena à mediocridade. Às vezes, acreditem, os jornalistas esforçam-se, acreditam no Portugal positivo mas depois a verdade dos factos vem estragar as boas histórias.
Ora vejam: Portugal foi o país que melhor aproveitou os fundos comunitários em termos de impacto no produto interno bruto (PIB). Entre 2000 e 2006 recebemos 22,5 mil milhões de euros, que transformámos em 70 mil milhões. Fomos também o país que mais dinheiro (em termos relativos) recebeu. Finalmente alguma coisa, positiva, em que lideramos na Europa.
Mas: É preciso recuar aos tempos da Primeira República para encontrar uma década de crescimento pior do que aquela onde nos encontramos. Entre 2000 e 2010 vamos crescer em média 0,47% por ano, entre 1910-1920 o PIB caiu por ano 0,87%, mas nessa altura tivemos, além da desastrosa República, a primeira guerra mundial e a gripe espanhola.
Sabemos então que nos fartámos de receber dinheiro da União Europeia, que fomos os mais eficientes a aplicá-lo, mas que mesmo assim tivemos a pior década dos últimos 90 anos.
Este desempenho coloca a nu todos os erros de política económica que foram sucessivamente cometidos pelos vários governos. E é difícil escolher o pior. Se metermos todos no mesmo cesto, mexemos bem e tiramos um, podemos cientificamente dizer, foi esse o pior.
E apesar desta evidência a política económica que hoje está a ser cozinhada tem os mesmos ingredientes das políticas que levaram a esta situação. Com a agravante de que ainda queremos colocar mais Estado na economia, fomentado a dependência, a irracionalidade económica, os abusos dos privados na gestão da coisa pública e a manutenção artificial de empresas e de postos de trabalho. E no fim há quem fique satisfeito com este cenário desde que lhe 'toque o seu'. E depois querem que os jornais digam bem...
P.S. - A introdução de portagens em algumas SCUT irá em breve ser discutida no Parlamento. Vai ser curioso ver quem irá votar a favor ao lado do PS, ou mesmo se o PS vota a favor.
João Vieira Pereira
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009