Noutros tempos, as donzelas sofriam de ansiedade, suspiravam profundamente e padeciam amarguras às páginas dos ultra-românticos, derramando nelas lágrimas de sangue.
Com a rádio um século mais tarde, as suas netas ainda donzelas, sofreram com as desventuras da "Maria" numa novela que passou na rádio da minha infância. Hoje, só com a novela da TV se humedecem os olhos porque nem com o noticiário já se tocam corações... A leitura ficou para coisas formais, instruções, regras, gravações na pedra, não no coração...
Em 2007 fiz parte de um júri que anualmente premeia as relações entre as empresas e o mercado. Nesse ano criou-se o prémio para o Melhor Relatório de Gestão, Contas e Informação sobre Governance entre as Empresas do Sector Empresarial do Estado. De entre as concorrentes destacou-se uma que identificava, para cada administrador, a componente da remuneração em dinheiro e em espécie. Soube-se quanto tinha recebido cada administrador em salários, em prémios variáveis, combustíveis, cartões de crédito, seguro de saúde, etc., etc., etc.
Terão aqueles administradores lido o Livro Branco sobre Corporate Governance em Portugal e, tomados por um arrebatado impulso de um romantismo caduco, tentado implementar as recomendações que aí se plasmavam? É que eu nunca tinha visto nada semelhante àquilo!
Era tão enternecedor aquele quadro, quase me vieram as lágrimas aos olhos. Qual donzela abalada depois de ter lido "O Noivado do Sepulcro" do Soares de Passos. Cedo se aperceberam aquelas doces almas inocentes dos problemas em que se meteram ao serem confrontados com a auditoria do Tribunal de Contas acabando por retirar o famoso quadro de retribuições.
Os administradores dessa empresa do Estado estavam convencidos de que a sua responsabilidade na divulgação das contas é maior do que nas empresas cotadas, porque em Portugal têm dez milhões de accionistas.
Poderíamos pensar que uma empresa pública, um instituto ou organismo público deveriam ter uma preocupação e um incentivo para uma divulgação mais profunda e detalhada da informação, especialmente quando comparada às das empresas de capitais públicos, as que os anglo-saxónicos baptizaram de public, uma vez que é à sociedade a quem os seus dirigentes prestam contas. Parece que não.
João Duque
, Professor Catedrático do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009