Quando em 1975 Henri Cartier-Bresson deixou de fotografar desabafou para a revista Photo:" ainda bem, pois hoje para fotografarmos na rua em Paris temos de andar com o advogado às costas!". Passados estes anos assistimos em Portugal a uma mentalidade burocrática latente em seguranças privados, polícias e agentes de várias ordens, sempre aptos a dificultarem o trabalho dos fotógrafos.
Num tempo em que qualquer internauta vai ao Google e pode ver o quintal do vizinho, o quartel mais bem guardado do país, ou até imprimir em alta resolução toda essa vasta informação, ainda há entidades que consideram ilegal o uso de uma máquina fotográfica.
A tentação da censura e do controle sobre as imagens vem desde o tempo em que se inventou a fotografia. Começou na Guerra da Crimeia, quando as primeiras fotografias de guerra alguma vez feitas revelavam os soldados em cenas de descanso, convívio, mas nunca no inferno das trincheiras ou no horror dos corpos mortos amontoados como lixo.
O que tem vindo a aumentar é a pressão sobre quem anda na rua e tem de utilizar a fotografia como meio de informação, documento ou divulgação. A Câmara de Lisboa passou a ordenar aos polícias para identificarem quem fotografa ou filma com tripé. A cena caricata de duas equipas de televisão terem sido multadas por estarem a filmar no Terreiro do Paço um vivo, já não faz parte de uma norma camarária, atinge o direito de informar. O tripé é uma ferramenta como um holofote, um micro ou uma câmera. Estar a fazer uma reportagem não é o mesmo que estar a rodar uma novela ou um filme que implica corte de trânsito e alteração da via pública. Portanto esse argumento de que se tem de alugar o espaço para pôr um tripé é completamente caricato, mesquinho e burocrático. Ainda por cima um metro quadrado para colocar um tripé é muito mais caro do que as rendas de certas habitações alugadas pela câmara a inquilinos duvidosos.
Basta usar-se uma máquina fotográfica profissional, ou utilizar-se uma teleobjectiva das mais potentes, para logo se ter à perna um maçador a impedir fotografar.
Um fotógrafo de surf a fotografar há tempos de monopé, na Praia da Ericeira, foi identificado por uma brigada da GNR que o questionou sobre o que estava a fotografar. Quando o fotógrafo disse que estava a fotografar o primo, e não a trabalhar, então os guardas deixaram-no em paz. Outro fotógrafo que é director de uma revista de fotografia, por acaso colaborador do Expresso, foi proibido de fotografar em Seteais, enquanto ao seu lado uns turistas japoneses usando máquinas iguais à sua, fotografavam sem serem impedidos.
Há tempos um segurança histérico queria impedir-me de fotografar a fachada de um banco, como se fosse ele a ditar a lei, como se a lei não dissesse expressamente que tudo se pode fotografar, desde que não sejam instalações militares, ou interiores de propriedades privadas (como é óbvio e manda o bom senso) ou caso se atente ao direito da imagem de um cidadão.
Sempre agi como se a cada proibição eu pudesse acrescentar uma foto feita por mim. Lembro-me em Huambo, em 1990, estava eu com o Henrique Monteiro em reportagem para o Expresso, e os controleiros do MPLA não me deixavam fotografar praticamente nada. Eu desci do avião e entre a escada e o hangar do aeroporto fui sempre a fotografar sem olhar pelo visor. Algumas dessas fotos foram usadas várias vezes para ilustrarem o tema de Angola.O controle das imagens passou a ser feito de uma forma exemplar depois da primeira Guerra do Golfo, como se sabe. E esta norma do exército americano veio contribuir para uma imagem muito mais pacífica do "fogo amigo". Sabe-se como a fotografia influenciou a opinião pública americana contra a Guerra do Vietname. Os militares aprenderam a lição.
A proibição de fotografar é uma tentação de qualquer tiranete de algibeira. Isso faz parte do exercício do pequeno poder. Lembro-me de um jornalista de televisão, com credibilidade, que decidiu um dia assessorar um presidente de um clube de futebol. Quando esse presidente foi um dia a tribunal, o ex-jornalista vira-se para mim, mete a mão à frente e não queria deixar fotografar o seu presidente, num espaço público. Claro que a minha pesada Canon tratou de lhe retirar a mão importuna.
A lei é justa e define os limites em que se pode fotografar. Deverá haver em todo o fotojornalista uma conduta ética exemplar. Mas nunca, por nada deste mundo, abdicar do direito a testemunhar, a informar.De uma forma simples costumo questionar-me sobre o direito ou não de fazer uma fotografia. Se quem está a ser fotografado, vir a foto e não se sentir prejudicado, então a minha consciência pode ficar tranquila.
Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso