Recebi um e-mail, pungente, reencaminhado por um antigo colega. Vinha não sei de onde. Levantava uma dúvida metódica orçamental, premente, a pedir muito juízo de valor: "O que valem os Professores?". Depois implorava, entre parêntesis, como que em surdina, "manda a quem conheces". E chamava a atenção para "a difícil e complexa profissão docente!" E, não fosse o leitor não insistir e hesitar: "vê e, se concordares, envia a todos os teus contactos, professores ou não!"
Fui ver. Esperançado numa coisita com humor - das raras que circulam até à exaustão pelo éter - na casmurra missão de tentar fazer as pessoas bem-aventuradas por uns segundos. Mas não. Era uma apresentação em 'power point' primária, com uns bonecos do Pleistoceno pouco animados, vertendo letrinhas a conta-gotas. E era à séria.
Título bem épico: "Ser professor em Portugal - Missão Quase impossível". A apresentação, um pouco 'demodée', lá desfiava o rosário de contas para intercessão do Sumo Pontífice num processo de beatificação de alminhas santas. Vale a pena lançar os olhos.
Que é uma "profissão em que se trabalha em casa (de graça, entenda-se) aos sábados, domingos e feriados, madrugada adentro, e muitas vezes até nas férias". Que é a única "profissão em que se tem falta por chegar 5 minutos atrasado". "É uma profissão que exclui devaneios do tipo 'hoje tenho de sair meia hora mais cedo' ou o corriqueiro 'volto já' justificando a porta fechada em horas de expediente". "É uma profissão de enorme desgaste (ainda há bem pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava em 2º lugar a seguir aos mineiros)". "É um profissão que deixou de ser acarinhada ou considerada humana e socialmente". "É uma profissão cujos agentes têm de estar permanentemente a 100%. Não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias, problemas pessoais". "É uma profissão em que é preciso ter sempre energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir programas, zelar para que haja materiais de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção."
Uma alminha bem intencionada, que não veja a vida cá fora apenas através das grades do portão de um escola, poderá perguntar: será que os autores desta peça andam por aqui neste mundo? Conhecem as agruras de centenas de actividades profissionais infinitamente mais trabalhosas e feitas em condições aviltantes?
Quando afirmam, sem pontinha de modéstia, que os professores batem "aos pontos as competências exigidas a qualquer dos nossos milionários bancários (sic), dos inefáveis empresários, dos intocáveis ministros", ficamos esclarecidos, independentemente da justeza de algumas apreciações.Quem confunde "bancário" com banqueiro, quem desencanta qualificativos como "inefáveis" e "intocáveis", esquecendo que os há em todas as profissões e naturalmente também na docência, ou ainda não chegou a este mundo ou anda confundido.
Estas apresentações ajudam a baralhar, ainda mais, a opinião pública. E têm um efeito contraproducente relativamente ao objectivo pretendido e, sem dúvida, merecido: "Acarinhe os professores!!! Eles precisam do seu apoio!!!". Até porque, mais do que os professores precisarem do apoio da sociedade, é esta que necessita de professores motivados, qualificados e empenhados, e que o são na sua esmagadora maioria.
Os professores não são coitadinhos, nem vítimas, nem mártires. Precisam é de saber esclarecer a natureza específica do seu mister e do que compete aos encarregados de educação antes de os alunos chegarem à escola. Mas para esclarecer é necessário andar esclarecido. E, já agora, um pouco menos decomposto do que pelas 25 ou 26 organizações profissionais que os representam.