Famosamente (ou infamemente, dependendo das luzes de cada um e da disposição do momento) quando um dia em Bruxelas lhe explicavam o que queria dizer 'xenofobia' por causa de uma declaração que o Conselho Europeu ia fazer, Margaret Thatcher, então primeira-ministra, exclamou: "Detestar estrangeiros? Que mal é que isso tem?". Durante este ano, mais do que uma vez, Silvio Berlusconi se divertiu e divertiu o público de comícios que arengava, chamando a Barack Obama o seu amigo americano bronzeado. A senhora é cruzada de prefeito de colégio, Berlusconi de compère de circo de província, nenhum deles é, felizmente, politicamente correcto. Mas depois do que aconteceu agora na cidade calabresa de Rosarno fica-se tentado a perguntar se, nos tempos que vão correndo, um pouco de correcção política não daria jeito a tribunos europeus quando tivessem de falar de nações e de raças.
Há duas décadas que imigrantes sazonais africanos, muitos deles clandestinos, pagos a 25 euros por dia, alojados em armazéns desafectados e insalubres vinham todos os anos a Rosarno colher a fruta dos pomares de citrinos da região sem sobressalto de maior. Na quinta-feira da semana passada rapazes da cidade (brancos) alvejaram de dentro de um automóvel a tiros de pressão de ar vários trabalhadores imigrantes (pretos) e um destes ficou ferido. Os imigrantes vingaram-se indo em grupo bater em gente da terra, quebrar janelas, destruir automóveis e jardins; os citadinos mobilizaram-se e partiram numa caça ao preto que deixou muitos destes feridos. Boatos e contraboatos falsos animaram as partes: que um preto tinha sido morto; que uma branca grávida fora agredida e perdera a criança. A polícia interveio: empurrou os brancos para suas casas, arrebanhou os pretos e levou-os para centros de acolhimento a 100 quilómetros de Rosarno, de onde os que tiverem os papéis em ordem poderão depois ir para onde quiserem e os ilegais serão expulsos do país.
Não havia memória na cidade de distúrbios assim mas desta vez deu-se a conjunção explosiva do microcosmo de Rosarno, capital da Máfia local - a 'Ndrangheta - mais difícil de penetrar do que a siciliana porque ainda mais centrada na família, que controla toda a economia, desde o uso fraudulento de subsídios comunitários ao contrato de clandestinos de quem lhe conviria agora ver-se livre - e o macrocosmo da política italiana onde Berlusconi e os seus aliados de coligação da Liga do Norte falam em tom cada vez mais xenófobo e legislam a condizer, criando ambiente que tem facilitado incidentes racistas em Itália. No sábado passado, o ministro do Interior atribuiu os distúrbios de Rosarno a "tolerância a mais".
Há inquietação alhures na Europa: detestar estrangeiros está na moda e passar-se-ão maus bocados, embora sem máfia e com bom governo o risco diminua. Mais grave é que, segundo a ONU, a economia europeia precisará de 159 milhões de trabalhadores imigrantes em 2025. Por este andar não se chegará lá.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010