O Sector 34 do túnel circular do LHC - o novo acelerador de partículas da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) -, onde se registou uma avaria que o manterá parado até 1 de Maio de 2009, não foi totalmente testado antes do arranque a 10 de Setembro "por falta de tempo", afirmou ao Expresso uma fonte ligada ao processo.
Numa reunião de esclarecimento sobre a avaria do LHC realizada recentemente em Genebra com cientistas do CERN, Lyn Evans, director do projecto, explicou que "sete dos oito sectores tinham sido totalmente testados para operarem a 5 TeV" (teraelectrões-volt ou biliões de electrões-volt, sendo o electrão-volt uma unidade de medida de energia), mas que o Sector 34 foi testado apenas "acima de 1 TeV".
Ora foi precisamente este sector que falhou a 19 de Setembro, quando foi finalmente testado à corrente máxima de 5 TeV, já que a 10 de Setembro o LHC arrancara a baixa energia (menos de 1 TeV), como estava previsto.
Outra fonte envolvida no projecto adianta que "seria criado um problema político para os 20 Estados-membros (onde se inclui Portugal) se houvesse mais um adiamento na entrada em funcionamento do LHC, porque em duas décadas houve atrasos sucessivos e estava em risco a credibilidade do CERN e da própria ciência europeia". Por outro lado, "poderiam ficar ameaçadas futuras decisões de investimento dos Estados-membros noutros projectos".
Ao mesmo tempo, um outro factor poderá ter influenciado o calendário do arranque dos primeiros feixes de partículas da maior máquina do mundo: o mandato do director-geral do CERN, Robert Aymar, termina a 31 de Dezembro e "seria legítimo que ele quisesse deixar a liderança da organização com o seu projecto mais importante concluído".
Um cientista português que trabalha em Genebra salienta que "nestas situações há habitualmente uma tensão entre os que gerem e os que executam, e estes últimos acham sempre que o tempo é pouco para fazerem todos os testes".
No entanto, Gaspar Barreira, presidente do LIP, laboratório português de Física de Partículas que faz a ligação de Portugal com o CERN, afirma peremptoriamente que "a avaria do LHC não tem nada que ver com a falta de cuidado nos testes, que foram feitos à superfície e depois no túnel". Gaspar Barreira acompanha o projecto desde há 13 anos e integra organismos importantes do CERN como representante de Portugal: é membro do Conselho da organização, do LHC Resource Review Board e da Comissão Europeia para os Futuros Aceleradores.
"Em 13 anos assisti a muitos boatos e especulações, em especial quando se aproximou a data do arranque do LHC", afirma o presidente do LIP, admitindo que "pode ter havido uma certa tensão psicológica porque Robert Aymar termina o mandato em Dezembro, mas não acredito em pressões políticas".
O cientista diz que os sucessivos adiamentos estiveram relacionados com dois factores: "Há cinco anos, o CERN chegou à conclusão que o orçamento do LHC estava subestimado em 5% a 10% e, por isso, teve de reforçá-lo, uma decisão política que demora tempo a concretizar. Depois, houve empresas que não cumpriram os calendários de fornecimentos e uma delas abriu mesmo falência".
Entretanto, o CERN apresentou na quinta-feira à tarde o relatório preliminar da avaria no LHC, onde se confirma que "a causa do incidente foi a falha numa conexão eléctrica entre dois ímanes do acelerador, que resultaram numa avaria mecânica e na libertação de seis toneladas de hélio líquido do sistema de arrefecimento no túnel".
O documento assegura que "existem peças sobressalentes suficientes para o LHC voltar a funcionar em 2009", e que estão a ser tomadas "medidas para prevenir incidentes semelhantes no futuro". Gaspar Barreira não tem dúvidas: "Havia sistemas subdimensionados para situações de emergência como esta, mas o que se passou não pode voltar a acontecer, porque se trata de um incidente trivial".
Inauguração oficial
- A inauguração oficial do LHC será feita no dia 21 de Outubro
- O ministro Mariano Gago chefia a delegação portuguesa, em representação do primeiro-ministro
- Vão estar presentes 25 a 30 ministros da Ciência e Tecnologia dos Estados-membros e de países observadores, segundo o CERN
- Por razões de segurança, só serão conhecidas em cima da hora as presenças de chefes de Estado e de governo
- As cerimónias incluem discursos; um almoço de 'cozinha molecular' do "chef" italiano Ettore Bocchia; o espectáculo 'Origens', adaptado da produção multimédia 'Vida: Uma Jornada através do Tempo', com música de Philip Glass; e a inauguração de duas exposições, uma sobre o LHC e outra sobre os prémios Nobel mais ligados ao CERN, com fotos inéditas e desenhos dos próprios laureados
Clique no link em baixo para visualizar infografia animada no fim do texto
Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Outubro de 2008