Quando morava na Holanda, nos anos oitenta, lembro-me que Amesterdão tinha a divisa - "Amesterdam heeft het!" (o que quer dizer - "Amesterdão tem-no/a!"). Que a cidade tinha e tem qualquer coisa... percebemos nós todos, embora o enigmático pronome deixasse no ar infinitas suposições. É evidente que, dentro da língua holandesa e navegando no aquário desse tempo, qualquer mortal percebia de imediato a mensagem, ou seja: 'a cidade tem um espírito raro' ou 'tem algo de único, mágico ou singularíssimo'. E, no entanto, para além destas traduções forçadas, a verdade é que o simples pronome falava - e ainda fala - bem mais alto, como metáfora económica e extremamente eficaz que é.
A conhecida divisa de Obama "Yes, we can!", tendo embora o mesmo espírito elíptico do holandês - "Amesterdam heeft het!"/ Amesterdão tem-no/a!" -, acaba por não ser descodificada com a mesma simplicidade. De facto, quando nos perguntamos - "Podemos o quê?"-, o pasmo adensa-se e a ideia de uma metáfora económica e eficaz, como a de Amesterdão, dilui-se completamente. Tudo porque as promessas de oratória, muitas baseadas no peso da palavra, estão hoje a transformar o milagre de Obama na imagem de um denso nevoeiro. Um pouco ao invés do nosso sebastianismo: primeiro a chegada do rei, depois a manhã nevoeiro que parece não ter fim.
Em Portugal, o desejo de névoa faz parte intrínseca da história e do mito. Manuel Alegre, em Portimão, no dia em que anunciou a sua candidatura presidencial focou bem este aspecto. Leiam-se as suas palavras: "...as pessoas precisam do direito à esperança, do direito ao sonho e do direito à beleza". Mas o candidato foi mais longe, ao reafirmar "que Portugal vale a pena", sendo vital "proclamar aos jovens" ... "que têm direito a outra forma de realismo: exigir o impossível". O Maio de 68 tê-lo-á dito de modo mais eficaz e económico, é um facto, mas Alegre não deslustrou e bem podia ter sintetizado o seu discurso com a leveza do "Alegre heeft het!" / "Alegre tem-no!" ou com o repetitivo e oco - "Yes, we can!".
Sabe-se que o primeiro aniversário da investidura de Obama serviu para desconsolar puristas e anjinhos. A realidade acabou por obrigar o promissor presidente a colocar as mãos na massa, passando muitas vezes ao lado das convidativas correcções da realpolitik. Em 2012, se Alegre viesse a comemorar um ano em Belém, de certeza que a beleza, o sonho, a esperança e o impossível se converteriam, não em névoa a murmurar no Tejo, mas no fio do abismo chamado realidade. As pessoas sabem que assim é, mas só gostam de o reconhecer no momento. Quando dói. Em geral, preferem a exaltação, a espuma e o langor da sedução. Talvez tenham razão. E Alegre, como qualquer marca que cuida bem do seu core, conhece como poucos essa razão profunda.
Enquanto Cavaco reflecte o tempo da pasta medicinal Couto, Alegre reflecte a poética da Lavazza. É neste contraste que a campanha presidencial vai ser vivida nos próximos meses. Entre produtos opacos de carne e osso e metáforas económicas, fluidas mas cristalinamente eficazes.