Miyoko e Eizo, de 86 e 87 anos, num restaurante em Tóquio. Os idosos japoneses permanecem activos
Daniel Ribeiro
Tomie é avó de Naoaki Kamiya (ver postal O 'Vaticano' do xintoísmo), tem cem anos e mora perto da cidade de Nagoya, onde habitam milhões de pessoas. Nagoya é uma metrópole surpreendente - dizem alguns japoneses que aí "anda mais gente debaixo de terra do que à superfície".
A cidade tem autênticas avenidas subterrâneas cheias de luz e de comércios por onde se pode aceder, a pé, a quase todo o lado. Exemplo: sai-se do Metro e o caminho mais rápido para chegar a um restaurante do centro é seguir por um desses longos túneis para peões construidos alguns metros abaixo das avenidas de alcatrão. Estas são ladeadas por grandes torres e árvores, onde circulam de facto mais automóveis do que pessoas.
Tomie vive numa vila dos arredores, numa aprazível rua estreita de casas baixas e tradicionais. O carro do filho mais novo, um Toyota automático, está estacionado junto à residência, numa pequena garagem-abrigo privada, sem porta e com acesso directo à rua, semelhante a tantas outras que se vêem nas cidades japonesas.
Na província, os japoneses têm geralmente carros muito pequenos, práticos e automáticos (modelos simples e baratos que não existem na Europa), sempre equipados com eficazes silenciadores. Quando estão em andamento, os motores quase não se ouvem.
O filho, Hideki, de 65 anos, engenheiro-técnico numa fábrica Toyota dos subúrbios, bem como a mulher, Reiko, vivem em casa dela. São eles que cuidam da mãe e sogra. Tomie bebe chá e come bolos connosco, sentada sobre os calcanhares com os joelhos dobrados numa almofada, como toda a gente à volta da mesa baixa instalada sobre o tatami (tapete tradicional), no centro de uma salita quadrada com vista para um bem tratado jardim interior de uma dezena de metros quadrados.
É uma mulher calma, alegre, e exprime-se com fluência. Reconhece sem esforço todos os familiares, mesmo os que não vê há alguns anos. O peso da idade apenas se nota quando se levanta - necessita de ajuda para caminhar.
O casal Eizo e Miyoko, respectivamente de 87 e 86 anos, participa na reunião de família. Eizo é primo direito de Tomie, que tem quatro filhos, todos ainda vivos e com mais de 65 anos.
Financeiramente desafogados, Eizo e Miyoko vivem sozinhos em Tóquio e não necessitam de ajuda para o dia-a-dia. Fazem eles próprios as compras, andam de metro, vão regularmente a restaurantes, à ópera e ao teatro. Comem de tudo, mas ele bebe agora menos do que no passado. A mulher apenas bebe chá durante as refeições. "Uma ou duas cervejas por dia chegam para mim", informa Eizo, ex-negociante no sector têxtil.
Idosos larápios
Apesar de uma taxa de suicídios elevada - nos últimos meses chegaram a verificar-se 100 por dia -, o Japão é o país industrializado onde se vive mais tempo. O país do Sol Nascente reivindica ter a maior quantidade de mulheres e homens mais idosos do planeta - diversas com cerca de 115 anos.
No total, existirão no Japão 20 mil centenários, dos quais 80% são mulheres. O número de centenários duplicou nos últimos anos, o que deixa prever uma explosão demográfica de idosos porque mais de 20% dos japoneses terão actualmente mais de 65 anos - 25 milhões numa população total de 120 milhões.
Os especialistas em gerontologia explicam este fenómeno de longevidade com a qualidade de vida dos japoneses. Entre as explicações, destaca-se o facto de os idosos continuarem activos e de viverem muito próximos da natureza - mesmo as gigantescas cidades são rodeadas por verdejantes montanhas e o mar está sempre por perto.
Os "velhos" são geralmente muito respeitados e permanecem integrados na vida social. O regime alimentar - à base de legumes frescos, peixe, arroz e molhos pouco gordurosos - também contribuirá para a longevidade.
No entanto, nos últimos anos começaram a surgir notícias que apontam para a existência de problemas com a gestão do elevado número de idosos, sobretudo dos que não vivem com familiares.
As autoridades registaram o aumento de roubos - sobretudo de comida, nos supermercados - efectuados por larápios da "terceira idade". Alguns deles justificam essas acções com a falta de dinheiro (dizem ter reformas pequenas, de 400/500 euros, e de não ter família). Um deles explicou aos jornalistas que prefere viver na prisão do que na rua ou no asilo.
"Há demasiados idosos, o que coloca dois problemas - um é financeiro, porque é preciso pagar as reformas durante muito tempo; outro é que o Governo ainda não descobriu a forma de lidar com os numerosos idosos cuja família não se pode ocupar deles, os abrigos e asilos não têm grandes condições e os velhos não gostam de lá estar porque o asilo não faz parte da nossa cultura", explica Yuko, de 40 anos, quinesiterapeuta em Tóquio.