Para um homem que arriscou tantas vezes ser feliz, esta é uma morte que chega antes do tempo
O Solnado era homem para ter resposta para tudo, menos para dizer como gostaria de ser recordado. Fazíamos contas à vida nesse último Dezembro solarengo e fora do sítio, à mesa, celebrando 'au bacalhau' o centenário do seu 'sketch' mais famoso, 'A Guerra de 1908', com a cúpula da Mesquita de Lisboa a esticar o crescente, a ver se ficava mais alta que a casa dele. Tratávamos de rir das coisas certas, porque ele insistia em citar o velho dito brasileiro que ainda reza "quem não ri do que deve ser rido, morre com a boca cheia de formigas".
Andava agastado por ter chegado à idade em que se assiste a mais funerais que baptizados (faria 80 anos em Outubro) e chegara à conclusão de que os humoristas nunca são divertidos. Ele próprio "tinha dias", ao que confessava, com aquela alegria que não era riso e estava acima do sorriso. Era uma espécie de sorrir à gargalhada.
"Pessoalmente tenho muita sorte, porque estou quase a terminar a minha carreira", dizia-me entre garfadas. Dificilmente podia ter viajado mais e ter melhores amigos, que para o Solnado ser um 'homem bom' chegava à justa como epitáfio. Nos últimos tempos parecia flutuar entre risadas de gargarejo ou afundado em sombras, desconfiado de que a saúde lhe reservava em sorte juntar-se aos amigos que a morte ia levando, deixando ao Raul o recado de que já não os devolveria.
É grande o legado que deixa, mais nas memórias de quem teve por maior fortuna conhecê-lo do que no 'esplendor' dos arquivos. Saído nos finais de 2008, 'O Irresistível Raul Solnado' é um CD que junta dez monólogos e duas canções.
A RTP Memória arrepia caminho e vai mostrando o que dele nos sobrou, entre séries e peças de teatro. O cinema, de 'Dom Roberto' a 'A Balada da Praia dos Cães', lá o fixa em DVD. Do 'Zip Zip' sobrou o suficiente para fazer um único programa. 'A Visita da Cornélia' perdeu-se na incúria poeirenta dos tempos. Felizmente, Solnado achava que o principal estava feito e só se lamuriava de ver na nova geração de cómicos o recurso insistente aos palavrões, sistema a que ele chamava o 'sub-riso'.
Para um homem que arriscou tantas vezes ser feliz, esta é uma morte que chega antes do tempo. Certo e sabido, ninguém se espantará se o Solnado continuar a pairar sobre Lisboa. Nada de saudades. "Só ciúmes", como ele dizia da cidade que o levou pelo colo durante quase oito décadas e fez do puto malandro do Pátio do Sarmento o último dos cómicos para quem a principal de todas as regras é agradar e emocionar.
E assim, português e malmequer, ele regressa à terra em que foi semeado.