Face ao que é a percepção do cidadão médio em Portugal, parece que o título desta crónica inverte a posição dos países... No entanto, olhando para o outro lado do espelho verifica-se que Angola tem um especial carinho por Portugal. Ainda bem que o princípio dos vasos comunicantes foi descoberto. Nem Pascal há mais de três séculos imaginava tal aplicação prática na vida dos países. E muito menos Arquimedes há dois mil anos sonhava que Portugal e Angola, em solidariedade e aplicando os seus conhecimentos, deixassem que algum se afundasse! Mas Angola tem um destino, um karma! Será primeiro uma potência regional, depois continental e mais tarde internacional. Mas começar por onde? Naturalmente por uma plataforma de grande dinâmica e com grande futuro à frente! Quem? Portugal, só podia ser Portugal, a terra dos sonhos e das oportunidades. E de repente ele é Galp, ele é BCP, e se não é cá é lá, ele é BPI, ele é BES, ele é PT, ele será EDP, ele virá TAP, até mesmo quem sabe Sonae, e até o meu Belenenses que, ao que se diz, foi tomado em 9% pelo dono do clube Kabuscoorp de Luanda!
Depois da vaga inicial de tomada de posições em Portugal e em empresas portuguesas em Angola, assistiu-se a uma pausa. Possivelmente a crise internacional assustou muita gente lá. O país parou mas agora recomeçou. O BESA, do grupo BES, fala em abrir mais participação a angolanos, do BNI soou qualquer coisa a meio do mês passado, recentemente é a possibilidade da privatização do BPN a um grupo financeiro angolano, a Mota-Engil alia-se estrategicamente à Sonangol, a Qimonda não se percebe bem mas também não interessa. O curioso é que quando começou esse movimento de expansão e as reticências surgiram em Portugal, de Angola choveram as críticas sobre "e então a reciprocidade? Vêm cá e nós não vamos lá?". O que não deixa de ter sentido. Mas de há uns tempos para cá, em Luanda, começam a sobrar as opiniões do tipo: "e porque raio vamos investir lá? Que benefícios até agora tirámos?". O caso da Sonangol no BCP é um dos mais badalados. Mas não só. O caso Banif lança mais achas para a fogueira. Há alguma incomodidade junto da opinião pública. Num artigo do "Novo Jornal" de 23 de Outubro lia-se: "Angola deveria definir melhor o seu relacionamento com esses países, não apenas nos aspectos político e diplomático, mas também no económico face às potenciais oportunidades de expansão de muitos negócios, muitas vezes mal direccionados para outras paragens e de retorno duvidoso".
É evidente que tudo isto tem de ser seriamente analisado, mas é bom que por Lisboa se tenha a consciência de que só se não puder é que Angola não fará a internacionalização pelo trampolim português. Não é que daí venha mal ao mundo, mas depois de Angola ter servido de bóia de salvação conjuntural a Portugal, o 'Eldorado' português para os angolanos durará mais uns tempos. Depois..., depois a única coisa que salvará esta relação é fazer como fez Monteiro Kapunga: abrir uma fábrica de azeite no Alentejo, a Oleoga, Lda, exportar o azeite 'Maji Yeto' e contar com a bênção do bispo D. Afonso Nunes, líder da Igreja Espiritual Simão Toco, presente ao acto.
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009