Vasco Pulido Valente escreveu - há duas semanas, no Público - que o problema era afinal Sócrates. No fundo, nada nem ninguém suportaria a incapacidade de o PM não ser senão capaz de governar em maioria absoluta. Sem grandes tensões. Sem ter que passar pela discussão ininterrupta de tudo e de nada. Qualquer disfarce destoaria sempre tanto como pelo menos a Veneza construída em Macau, entre casinos e simulacros de pastéis de Belém.
A irritação e a crispação tomaram conta da Assembleia da República e este novo Sócrates - perfil 'Veneza em Macau' - está prestes a dar origem à maior e mais impensada coligação de que há memória em Portugal: nem mais nem menos do que do PP ao BE. Delírio ou contingência, vertigem ou manigância, a verdade é que o "suicídio", a que recentemente Balsemão se referiu, poderá não abarcar apenas baleias alaranjadas; o estigma do "desaparecimento" do próprio país atravessou, há dias, a cordata linguagem - subitamente apocalíptica - de António Barreto (em longa entrevista ao diário i). Sintoma de que algo de muito errado se está a passar na nossa terra.
Na arena política, a oposição passou a reclamar vingança e, o que é pior, está disposta a praticá-la até aos limites. Unida como rocha na gruta. Nem o inefável Poirot ousaria descobrir o móbil do grande crime que acossa o governo diante do novo e destemido oceano. Repare-se: a vingança começou pelo orçamento, perseguiu a já rodada rota das escutas e prepara-se agora para avaliar o teor da real circum-navegação do Magalhães. Nada de vingança fria; quente e destemperada. Exposta à luz do dia e sem qualquer vergonha. A política como Carnaval e o Carnaval como limbo que distribui maldições entre as névoas da justiça e as popotas que se agitam no dia-a-dia dos media. Tudo isto, para mais, numa pequena praia onde toda a gente se conhece.
É claro que a insónia irá tomar conta de S. Bento e nem o flirt de caixão à cova da nova ministra da educação com os sindicatos vai ser capaz de alterar o ciclo de inusitada fervura que tem evoluído entre nós, neste Outono-Inverno, ao jeito de um buraco negro, cujo vórtice parece começar a inscrever-se no horizonte. Porventura, Sócrates cairá no ano de dez. E com ele, cairão vários plintos que pensávamos bem edificados e já implantados. Talvez nos espere o suave destino que a Itália viveu no início dos anos noventa: refundação de todo o espectro político e advento de sidonismos democráticos com juízes e reis ainda mais inflamados do que aqueles que socraticamente hoje conhecemos.
Nada melhor do que caminharmos de vez, sem apelo nem agrado, para o lado mais macaense do Venetto: o universo popota. Haja esperança!
Luís Carmelo
Professor universitário e autor