Os assessores do presidente da república queixavam-se de escutas. O director de um matutino sugeria, numa bela manhã de verão, que a secreta saltitava entre os mails internos da sua redacção. A palavra Caso ia tratando por tu as sessões solenes da democracia: Freeport antes das eleições, Face Oculta depois delas. Sem esquecer o Caso BPN, uma espécie despertador a tilintar à hora que o gongue subprime soava em todo o planeta. Sem esquecer as escutas, a TVI, a PT, o FCP e tantas outras siglas respeitosas e musicais. Sem esquecer, claro está, o cenário de fundo de toda esta mitologia do século XXI: o Caso Casa Pia.
O novo século, agora já no termo da sua primeira década, é, sem dúvida nenhuma, o século dos Casos. E ainda dizia José Gil que os portugueses "não inscreviam". Basta olhar para o rasgo do olhar de Penedos Jr. para perceber que vivemos num país de heróis e talentos que "inscrevem" e afirmam as suas marcas na história. E nos Casos.
Pina Moura dedicou unção e baptismo a esta pioneira década do século. Dizia o economista (com suma inspiração) que, na República, a ética era a lei. A frase é provavelmente a que melhor metaforiza os primeiros anos do Milénio. Ainda que o labirinto dos Casos e a espuma do 'diz que disse' (que inunda a santa deontologia dos media e a cerviz incerta da maior parte dos políticos) se assemelhe a um campo de lava.
Uma lava viva e errante, capaz de queimar seja o que for que lhe apareça pela frente. Até o próprio 'boomerang' interpretativo de factos e normas que, em jeito de carrossel, desliza ao longo da sereníssima cadeia da justiça. Capaz de queimar, sobretudo, a confiança mínima que cada um de nós tem no sistema. Ou no regime. Ou na quadratura da lava onde ironicamente ardemos "com aquele fogo que arde sem se ver".
O Portugal pós-Expo é o espelho quase preciso do Portugal pré-CEE. A imagem de ambos tem, no entanto, uma diferença sensível. No primeiro, o rato mickey vê gatos por todo o lado e um pequeno queijo no horizonte; no segundo, o rato mickey convenceu-se de que não há gatos no sistema solar e passou a entender a abundância de queijo como uma normalíssima dádiva dos deuses. A governança dos Casos só se tornou possível neste novo aliciante mundo da ilusão.
A ilusão da abastança tornou o país numa perversa cena de prestidigitação. O ilusionismo em estado quase puro - 'tira aqui, põe ali, 'escuta aqui, confessa ali', 'mente aqui, acossa ali' - só tem futuro, quando actores e espectadores passam a confundir regime com ética à Pina Moura e "inscrição" com cerviz de lava. Em 2010, vão-nos inflamar e metralhar com a "República". Os catecismos já se abriram, os santinhos já se encenam e as pratas já se areiam. Ao fim e ao cabo, sabe bem ouvir os contadores de histórias, enquanto os Casos rufam tambores e cortam cabeças tal como Méliès, na longínqua infância do cinema, adorava fazer.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor