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Portugal, Brasil e Angola

António de Almeida (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 30 de janeiro de 2010

As imagens que a comunicação social nos tem dado sobre o drama que o povo do Haiti está a viver tiram interesse a qualquer tema de outra natureza. É a morte exposta cruelmente nas ruas de Port-au-Prince.

É o agravamento da miséria de quem ali vivia - se viver se pode chamar a quem dispunha de um dólar por dia. É o desespero da impotência de acudir aos gritos dos soterrados vivos. É o caos total de uma sociedade. Até a natureza é impiedosa com os mais pobres.

Comparado ao referido drama, nenhum significado têm outras notícias que nos chegam, como é o caso da falsidade dos dados sobre as finanças públicas que a Grécia forneceu à Comissão Europeia e da incapacidade desta para os detectar.

Como sucede depois das grandes tragédias, daqui a uns dias a comunicação social desinteressar-se-á do Haiti. Partirá para outra tragédia ou comédia que lhe garanta audiências.

Em Portugal, só quando for apresentado o Orçamento do Estado para 2010 e forem conhecidos os entendimentos e desentendimentos entre o Governo e a oposição, é que os croniqueiros terão matéria para cronicar. Sabiamente, mostrarão que se estivessem no Governo resolveriam todos os problemas de uma penada. Bastava implementarem as medidas adequadas.

Enquanto se aguarda pelo Orçamento, socorri-me de acontecimentos recentes. Detive-me no ataque à Cimpor. Na modalidade OPA hostil, lançada pela CSN, e a da fusão, proposta pela Camargo Corrêa. Esta operação e outras em formato diferente, levadas a cabo por empresas angolanas sobre algumas das mais importantes empresas portuguesas, trouxeram a terreiro, de forma mais suave do que aconteceu noutros casos que envolviam empresas da UE, a questão dos chamados "centros nacionais de decisão".

O Governo deu a sua opinião no sentido da preferência de que a Cimpor continue a ter um núcleo-duro que garanta o centro de decisão em Portugal. Não interferiu. E andou bem por várias razões, com destaque para duas.

A primeira, por se tratar de uma empresa cotada num mercado que tem regras. Quem investe nessas empresas fá-lo de acordo com essas regras, pelo que qualquer intromissão política que as distorça acaba por produzir danos no mercado de capitais. Os governos, respeitando essas regras, têm legitimidade para protegerem as empresas nacionais de particular significado e cuja mudança de núcleo-duro accionista possa perspectivar a transferência de poder para fora do país.

A segunda, por empresas portuguesas terem posições, mesmo maioritárias, em empresas do Brasil e de Angola. A reciprocidade é um princípio elementar de relacionamento entre os Estados. Acresce que propicia vantagens mútuas, tanto no mundo dos negócios como no campo político.

O Governo fez o seu papel. Agora cabe aos accionistas decidirem se preferem encaixar as mais-valias ou segurar a Cimpor.

Por imperiosas razões pessoais, o plebeu não vai poder acompanhar o duque durante algumas semanas, mas estará atento à evolução deste processo.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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