Nos anos 80 o Ministério da Educação inventou os testes psicotécnicos. Turmas inteiras de miúdos preenchiam uns papéis que cientificamente (nunca acreditei nesta parte) definiam, estilo decreto, aquilo que iriam ser no futuro. E quase como uma ordem, ficavam presos aos famosos testes psicotécnicos e a uma carreira.
É claro que nem tudo era negativo nestes testes, se acreditarmos que estamos predestinados a ser médicos, engenheiros, economistas ou cientistas. Vem isto a propósito do rumo da economia portuguesa. Desde o famoso Porter, e dos seus estudos não menos famosos, que a economia portuguesa anda à deriva. Estes estudos pouca utilidade tiveram face à quantidade de críticas que foram alvo por parte de uns quantos políticos menos inteligentes (devem ter chumbado nos testes psicotécnicos). É óbvio que se todos soubermos para onde vamos, é fácil traçar o trilho para lá chegar.
Nos últimos tempos o nosso objectivo enquanto economia tem sido conter a despesa pública, diminuir o défice, aumentar a eficiência fiscal e tentar a convergência com a Europa. O discurso dos membros do Governo e oposição tem girado em torno destes conceitos com resultados desastrosos.
Perante tais objectivos é de admirar como temos conseguido crescer alguma coisa. A despesa e o défice não são um fim em si, mas um caminho para algo mais. Mas o quê? Alguém se importa de me explicar para onde queremos ir? Não é preciso dizerem como vamos lá chegar, mas apontem onde queremos chegar para que as empresas e a economia como um todo se possam mover de acordo com esse objectivo.
Justiça seja feita a Manuel Pinho. Foi único que apontou onde queríamos estar em termos de energias renováveis e criou as condições para tal. As empresas e as instituições assumiram essa estratégia e adequaram a sua oferta com resultados visíveis. Só este facto merecia que o episódio dos corninhos fosse esquecido.
Talvez fosse necessário recuperar a moda dos testes psicotécnicos e realizar um teste geral para o país. Temos excelentes exemplos de empresas que conseguem vingar em mercados extremamente difíceis, e se calhar podemos criar em torno delas ondas de crescimento.
Mas para isso é preciso que este Governo, pouco hábil a fixar objectivos que vão para além da mera sobrevivência, diga para onde acha que nos devemos mover e depois crie no Estado condições para isso. Depois basta ficar sentado à espera, porque as empresas portuguesas tratam do resto. A isto se chama planear, o contrário do que temos feito nos últimos dez anos. Já chega, não?
João Vieira Pereira
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009