Mais que no milhão de portáteis comprados pela Venezuela, está patente no brilho do olhar dispensado por quem passa por ele na FNAC o sucesso público do Magalhães.
Fiquei surpreso. Indiferentes às "críticas" estéreis acerca do "marketing político" e da origem geográfica dos seus componentes, o público dispensa ao portátil o olhar que merece um computador:
- barato
- leve
- potente
- agradavelmente transportável
- versátil
- pedagógico
- estimulante
- fracturante
Mal me conseguia abeirar da vitrina, sempre rodeada de gente. Todo o tipo de gente. A família modesta, com os olhos da miúda a brilharem e o pai de calções a deixar o interesse sobrepôr-se à timidez. O par jovem, ambos estudantes, ambos interessados nas características. O casal bem na vida, um olho no preço outro na capacidade.
Nunca vi, na informática de consumo, tão grande interesse num computador.
Em quase 30 anos a seguir a micro-informática, é a segunda vez que vejo um aparelho com potencial para estimular a criatividade informática. Portugal teve um hiato de uma geração condenada a usar as ferramentas impostas, sem forma de criar as suas ferramentas, de dar vazão à curiosidade.
Não estou a dizer que o aparelho vai mudar isto. Nada muda isto, excepto a vontade colectiva através do tempo. Há lacunas na distribuição pelas escolas. Há escolas sem condições básicas onde o Magalhães será alienígena. Há professores que nunca usaram um computador, que outra coisa poderão fazer além de proibir o seu uso, ou desconfiar dele? Um aluno de barriga vazia, que poderá fazer com o Magalhães?
Com tão poucos professores capazes de elaborar materiais digitais, uma boa parte do capital do aparelho desaparece na menor valia dos jogos. Não nos faltam críticas para fazer, evidentemente.
Mas o aparelho abre portas que estavam fechadas. Quebra barreiras. Aproxima as pessoas do novo paradigma da sociedade da comunicação: aparelhos diversos e baratos com acesso global às ferramentas e à informação disponíveis numa rede ubíqua.
Há quem insista em não ver que a era dos computadores pesados, carregados de violentíssimo hardware, terminou. Já só são necessários para servidores. Porque para ler, escrever, até mesmo jogar, ver o mail, preencher o formulário do IRS, editar o blogue, ver o Youtube, descarregar as imagens e os filmes das câmaras para a net, não é preciso um computador de última geração com 4 GB de RAM, placa gráfica de 250 euro - e as caríssimas licenças de pilhas de software anacrónico e inútil que os lojistas nos impingem como "essenciais" e "fazendo parte", tratando-nos arrogantemente (porque têm prémios para vender esses salvados da indústria informática). Ter o Microsoft Word de origem é como comprar um Renault com jantes de crómio especiais de marca - não precisamos delas para andar, mas para outra função qualquer.
Na informática, andamos a comprar "carros" ultra-kitados como se fossem modelos normais - e não nos queixamos. O Magalhães poderá ajudar a perceber a diferença entre o essencial e o acessório.
O Magalhães é da nova era - a dos aparelhos versáteis, pequenos, económicos, que se levam para todo o lado e permitem aceder a tudo o que necessitamos no trabalho (e nalgum lazer): o mail, os ficheiros, a web.
O Magalhães encerra dentro de si a semente do hacker - o miúdo curioso que gosta de saber "como funcionar por dentro" o aparelho que usa, antigamente eram os rádios e as televisões, agora é a informação, a programação.
O Magalhães faz-me lembrar aquelas canetas gordas, com 4 cores diferentes: quando surgiram, houve professores que as achavam o fim do mundo, a sociedade de consumo a entrar pela sala de aula, um elemento perturbador da ordem. Outros viram apenas uma caneta que os miúdos usavam com maior prazer - e estimularam-nos a usá-la de formas criativas.
Para os professores que sabem converter o desconhecido num aliado da educação, estimulando a curiosidade ao aluno e instilando-lhe alguma disciplina e segurança, o Magalhães é um must. Para os outros, não é nada. Como uma caneta de quatro cores.
O Magalhães é o primeiro produto informacional (ou relacionado) do Estado português que é livre - e só por isso já devia ser saudado. Com o Magalhães, as nossas crianças não são obrigadas pelo Estado a usar o software de um só fabricante. Podem escolher. Gostava de ter visto os habituais críticos do Estado realçarem este ponto, que é um ponto a favor do cidadão, um ponto a favor da transparência de processos. Não é um ponto pequeno: toda a relação informacional do Estado com o cidadão devia garantir a livre escolha, o que não sucede.
Ao concentrarem os esforços na perseguição política ao governo pelo uso de soundbytes sobre o Magalhães, os adversários fizeram-lhe o grande favor de elevar a fasquia da expectativa pública. Mas sairam mal na fotografia. Perderam. Desta vez, perderam. A iniciativa deu certo.
O Magalhães tem um potencial tal que quando chega às mãos (ou olhos) do público, toda a expectativa se cumpre. O Magalhães está muito para além de uma boa acção de comunicação do Governo. Com ele nas mãos, ninguém vai querer saber se foi montado em Famalicão ou Taiwan, e se alguém se lembrar que o governo aproveitou para aparecer nas fotografias, encolherá os ombros e dirá, "pois fez muito bem".
O Magalhães é um sucesso público. E isso é encorajador para a sociedade portuguesa. Nenhuma pessoa de boa vontade espera que seja perfeito no lançamento, ou que venha resolver todos os problemas estruturais e endémicos da educação, do país. Mas é um passo em frente no trajecto. E um passo largo.
O mercado reagiu tão bem ao Magalhães que antecipou a sua saída com produtos concorrentes, uns melhores, outros não. Ou seja, há um novo mercado aberto e estão cimentadas as condições de mudança, nomeadamente para completar a massificação da banda larga e da informática no país.
O Magalhães é, também, para já, um sucesso industrial, caso raro no país. Mas fica para outra altura.
Paulo Querido
, jornalista