A Grécia está à beira da bancarrota! A incapacidade de gerar receitas suficientes para fazer frente às despesas e à emissão contínua de títulos de dívida por parte do Estado está a colocar a Grécia sem dinheiro. É claro que os gregos dizem que não há problema algum, mas a sua reputação junto das entidades europeias e internacionais vale pouco mais de nada. Estamos a falar do país que aumentou o seu PIB em 25% porque resolveu incluir a economia paralela e que colocou todo o sector da defesa fora do sector público porque dava jeito ao défice. Em pouco tempo o custo do crédito naquele país disparou (e vai continuar) e a capacidade de pagar dívidas caiu a pique (e também vai piorar).
A situação grega tem para já uma grande virtude: alertar para o facto de Portugal, Espanha e Irlanda estarem a caminhar para a mesma situação.
Nós por cá, apesar dos alertas, falamos disso mas encolhemos os ombros. Basta olhar à volta para ver que grande parte das pessoas se comporta como se não estivéssemos no meio de uma das maiores crises económicas. É verdade que temos quase 600 mil desempregados e esses sim são os que mais sentem a crise. Mas mesmo assim grande parte deles tem apoio estatal. E também temos 900 mil pessoas que trabalham para o Estado. E estes são só os directos, contando com autarquias e empresas públicas. Depois há que somar as inúmeras empresas que dependem quase em exclusivo do Estado. O peso do sector público na economia é ainda superior a 50%. E ainda temos de somar os pensionistas. E todos estes têm o seu rendimento garantido, com aumentos salariais, baixas taxas de juro e uma inflação controladíssima. E como não temos moeda própria, dependemos de um euro que continua muito forte. No passado uma situação semelhante já teria levado à desvalorização do escudo o que implicaria uma redução relativa do rendimento de todos.
Teixeira dos Santos vem falar em aumentos reais da função pública de 0,4% para o próximo ano. Aumentos reais??? Por favor, o que devíamos estar a fazer era cortar salários. A Irlanda, que já foi exemplo, já o deixou de ser e arrisca-se a voltar a ser, mostrou o caminho. Brian Lenihan, ministro das Finanças, anunciou esta semana uma redução nos salários do sector público e na segurança social. Os funcionários públicos irlandeses começam o ano com cortes nos salários que variam de 5% a 10%. Na segurança social os cortes aos beneficiários são de 4,1% onde nem o equivalente ao abono de família escapa.
Por cá, bem, por cá não nos vemos gregos. Pelo menos até ao dia em que o Estado deixar de pagar. E já estivemos mais longe de tal poder acontecer.
João Vieira Pereira
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009