Warren Buffet doou mais de 80% da sua fortuna à fundação de Bill e Melinda Gates para estes a aplicarem em projectos sociais - a maior parte deles em África. Por cá, suspirou-se: não temos capitalistas como os americanos. Esta semana tivemos um exemplo de que afinal também existem empresários portugueses que estão agradecidos e devolvem ao país parte daquilo que o país lhes proporcionou. Alexandre Soares dos Santos e os seus filhos decidiram criar a Fundação Francisco Manuel dos Santos, em homenagem aquele que esteve na génese do Grupo Jerónimo Martins. Depois decidiram que essa fundação deveria realizar um conjunto de iniciativas que contribuísse para um melhor conhecimento da realidade portuguesa e para a resolução de muitos dos seus problemas. O primeiro resultado está à vista e disponível gratuitamente para todos os portugueses: uma base de dados sobre o Portugal contemporâneo, a Pordata.
É verdadeiramente um trabalho notável aquele que foi liderado por António Barreto e desenvolvido por Maria João Valente Rosa e pela sua equipa. A Pordata é, a partir de agora, um instrumento único e indispensável para todos os que precisam de ter acesso a dados e estatísticas fundamentais para interpretar a realidade e tomar decisões. Com uma base que vem desde 1960 até à actualidade, abastecida com 5500 séries estatísticas obtidas junto de 40 entidades oficiais ou com competência nas respectivas áreas, com um glossário com mais de 350 conceitos, a Pordata acaba com todas as discussões estéreis e não fundamentadas sobre a evolução da sociedade portuguesa nos últimos 50 anos. E até António Barreto, que parecia só ser feliz quando os jacarandás floresciam e ele partia de férias para Inglaterra, estava sorridente e visivelmente orgulhoso na terça-feira. Afinal, em Portugal e com portugueses também é possível concretizar projectos de enormíssima qualidade, tão bons ou melhores que os melhores. Como sublinhou, na Pordata há um conjunto de funcionalidades, em particular ao nível das correlações, que não existem, por exemplo, nas bases de dados do Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial ou OCDE.
É, insisto, um projecto único, uma espécie de Loja do Cidadão das estatísticas da sociedade portuguesa, de acesso simples e fácil, aberto a todos e completamente gratuito. Até agora, as nossas estatísticas estavam segmentadas e tinham de ser procuradas junto das instituições que as produziam. O acesso a alguns desses bancos de dados é, por vezes, difícil, outras vezes não se encontra o que se quer, outras ainda é-se obrigado a pagar para obter a informação.
Com a Pordata, todos esses problemas estão ultrapassados. O Portugal, traduzido em estatísticas, passou a estar ao alcance de todos através de um simples clique no computador. É um avanço e tanto.
Alexandre Soares dos Santos dá assim mais um exemplo do que deviam ser os empresários portugueses: pessoas empenhadas certamente em construir empresas sólidas e vencedoras, capazes de se impor nos mercados internacionais, mas que praticam uma genuína responsabilidade social para com o país onde nasceram. Se todos os empresários fossem assim (e há bastante mais, felizmente), o país e a economia portuguesa estariam bem melhor.
O exemplo de Elvira
Em Julho de 2008, a investigadora portuguesa Elvira Fortunato, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, venceu um prémio do European Research Council, no valor de €2,25 milhões. Motivo: um projecto de transformação de materiais cerâmicos para fazer transístores à temperatura ambiente. Não foi fácil. Ao concurso concorreram 2167 investigadores, 766 de Ciências da Vida e Medicina, 997 de Física e das Engenharias e 404 de Ciências Sociais e Humanidades.
Nos dias seguintes à publicação da notícia, além das inúmeras felicitações, uma pergunta invejosa emergia nos blogues: o que vai ser feito do dinheiro? A resposta foi dada esta semana. O dinheiro foi aplicado na compra de um supermicroscópio electrónico, único no país, que permitirá a Elvira e à sua equipa não só ver coisas à nanoescala, como fazer coisas a essa escala, ou seja, nanofabricar. Daí o entusiasmo da cientista esta semana com a chegada do novo equipamento. E daí o nosso entusiasmo: quando temos uma cientista deste nível que utiliza o dinheiro de um prémio que ganhou para comprar equipamento para a sua universidade para poder trabalhar mais e melhor, há fartos motivos de esperança no futuro. Que, como ela disse, é azul.
Uma mala muito segura
Há cerca de um ano, várias empresas portuguesas (ANA, Critical, Iberomoldes, Inov, PIEP, Tecnic) associaram-se num projecto designado Mala Segura. Objectivo: desenvolver novas técnicas de produção, monitorização e localização de malas perdidas nos aeroportos. Esta semana, um grupo de convidados teve a oportunidade de assistir à primeira demonstração, no aeroporto de Lisboa, dos avanços do projecto, através da utilização de quatro protótipos para teste. Para já, está-se na fase I, que utiliza a tecnologia RFID, para a gestão e segurança de malas nos aeroportos. A fase II, de maior potencial comercial, aponta para o desenvolvimento de um sistema GPS/GSM/WSN para localização e controlo da moda pelo proprietário no aeroporto e noutros espaços fechados, mas também em espaços abertos. Para já, a colaboração empresarial e os resultados são muito encorajadores. Esperemos que o consórcio consiga patentear uma tecnologia "made in Portugal" que pode revolucionar a indústria mundial de produção de malas de viagem.
Fazemos nós ou obrigados?
Aumento do IVA, do imposto sobre combustíveis, das taxas sobre bens de luxo, corte do 14º mês aos funcionários públicos, além de uma redução de 7% nos salários brutos dos trabalhadores do Estado: é isto que tem possivelmente de ser feito para os mercados acalmarem e aliviar a pressão que está a ser feita sobre os juros da dívida pública.
Calma, estimado leitor. Estas medidas são para a Grécia. Essa é a boa notícia. A má é que as recomendações são de Bruxelas, que assim se substitui ao papel que antes era feito pelo FMI - e é evidente que, depois da Grécia, vão apresentar-nos a mesma receita. Convém lembrar, aliás, que há menos de três décadas tivemos de tomar este purgante. Por isso, é decisivo o Programa de Estabilidade e Crescimento que o ministro das Finanças está a preparar para apresentar em Bruxelas. Um consenso amplo era o ideal. E algumas medidas que mostrem que vamos mesmo reduzir o défice também não era mal pensado. Até porque, se não o fizermos, outros nos obrigarão a fazer. Por isso, o anúncio do congelamento dos salários nas empresas públicas é um bom sinal. Que outros se sigam.
Sócrates e os mártires da liberdade
Primeiro foram as suas orientações sexuais, depois o 'caso Freeport' parte I, em seguida a licenciatura, depois 'Freeport' parte II, em seguida as escutas a Belém, agora a compra da PT pela TVI... Justa ou injustamente, a mancha de suspeição sobre Sócrates está instalada - e a sua actuação limitada pelas energias que gasta a responder a isto. No seu caminho surgem agora inúmeros mártires caídos em combate pela liberdade de expressão. José Eduardo Moniz, que me lembre, emitiu um comunicado dizendo que fazia todo o sentido que a PT tomasse uma participação no capital da TVI - e saiu do cargo com mais de três milhões de euros nos bolsos. O anterior director do "Público" deixou o cargo de sua livre vontade, segundo escreveu. E ninguém imagina que Belmiro aceitasse entregar a sua cabeça ao poder para obter um negócio. Como também ninguém acredita que Balsemão afaste Mário Crespo da SIC-Notícias. Mártires da liberdade de expressão? Esses foram os 110 jornalistas mortos em todo o mundo no ano passado.
Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais
.....
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais
.....
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala
Sophia de Mello Breyner, Um dia
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010