Portugal, depois do Santo António, da Dona Amália, do senhor Eusébio e do Dr. Mário Soares, teve um homem popular - o engenheiro Sócrates. Mas esse está até hoje a ranger os dentes e é pouco provável que consiga comer sardinhas, pois tem várias coisas atravessadas na garganta, para além do Manuel Alegre, do Louçã e da Drª Manuela.
Por isso, Portugal mudou de ícone popular. Mantendo o senhor Tony Carreira como ídolo entre os artistas da canção - pois ele é um homem que, por cantar sempre o mesmo, entra muito no ouvido das pessoas e no goto das empregadas de comércio -, virou-se para aquele bisneto do senhor Vasco Santana que andou aí por cartazes com um fato às riscas e com uma promessa de assinar por baixo. Chama-se Dr. Paulo Rangel e é a nova vedeta da política. Caiu em Graça, ganhou as eleições e pôs lágrimas nos olhos daquela santinha que é a Drª Manuela, a cuja não chorava assim desde que lhe nasceu o último neto (ou talvez desde que a dívida pública chegou a quase 100 por cento do PIB).
O Dr. Rangel é um falso velho, e também um novo falsificado. Na verdade, ele não é tão velho como parece, nem tão novo como a Drª Manuela apregoa. É claramente - embora o próprio desconheça - bisneto desse grande actor que foi Vasco Santana e, para o provar, basta-me dizer o seguinte: imaginem o homem, já com um grão na asa, chapéu vagamente puxado para trás, gravata já lassa a rodear o pescoço gordito e a falar com um candeeiro. É igualzinho ao bisavô!
Mas por que motivo se tornou popular o Dr. Rangel? Por uma razão assaz simples e que vários manuais de ciência política já estudaram: porque o popular anterior, o Engº Sócrates, se tornou impopular. E o povo português, que nisto é muito português, depois de ter idolatrado o Engenheiro, volta-lhe costas e diz: 'O Engº o caraças! O Engenheiro não faz nada por nós! Aquele, o outro, como é que se chama, o da Manuela, é que é um gajo às direitas, que disse que não queria mais socialismo'.
Por isso, o outro, o da Manuela, depois de um q.b. de beijinhos distribuídos em campanha, uns tantos apertos de mão e dois ou três comícios, transformou-se no homem mais popular de Portugal. Caído em graça, fará recordar ao Engenheiro o que ele teve e desbaratou, a golpes de mau feitio. Fará lembrar ao Engenheiro que tudo tem um fim, incluindo a própria glória do Engenheiro. Fará reflectir o Engenheiro sobre a vacuidade da vida e a inexistência de um desígnio grandioso para si próprio, para o seu vasto umbigo e para aqueles que o acompanharam na jornada.
Entretanto, estará o Dr. Rangel a encher-se de si. Dêem-lhe mais uns tempos (o número de anos depende da qualidade do material) e estará insuportável. Estará cheio de si, à espera do seu desígnio, quando vem o povo e escolhe outro qualquer para ser o mais popular. Dir-se-á: povo ingrato, que não agradeces a quem tanto trabalha por ti.
Ah, mas ainda bem que o povo é ingrato, porque é nessa ingratidão total que reside o segredo da democracia. É nessa abrupta passagem de bestial a besta que reside a lição de humildade de que a História só exime uns poucos. E esses poucos eximidos de tão terrível guilhotina, tiveram dentro de si o segredo da sua longevidade: Foram grandes porque nunca se levaram a sério! Nunca pensaram ter qualquer desígnio!
É esta a lei secreta. Pode ser que ainda haja por aí quem a aprenda.
Comendador Marques de Correia