Há momentos na vida das nações em que, como diz João Salgueiro, "não chegam políticos, são precisos estadistas". Portugal encontra-se hoje nessa situação: carente de políticos que, no poder e na oposição, sejam capazes de se transcender e de demonstrar que têm estofo de estadistas.
Ninguém nasce estadista, nem a condição de político deve ser menorizada por contraponto. É, aliás, na acção política - sobretudo nos momentos de crise grave -, que se forjam e se revelam os estadistas. Ou não. Portugal é hoje um palco propício a que os políticos se afirmem, ou pelo menos se esforcem por alcançar a condição de estadistas. Se o não fizerem, mergulharão no mais profundo e definitivo descrédito, que será também o descrédito do regime e do país na cena internacional.
Os acontecimentos dos últimos dias, com a precipitação da crise de confiança dos mercados financeiros, exigem uma resposta pronta e uma percepção muito rigorosa do que é essencial e prioritário. Não é aceitável que, perante o descalabro iminente, o Governo deixe crescer a dúvida sobre se quer ou não continuar a governar nas condições que os eleitores lhe impuseram. Não é aceitável que um partido com as responsabilidades do PSD e com um discurso tão exigente em matéria de finanças públicas, esqueça esse discurso para dar satisfação a Alberto João Jardim no momento e nas circunstâncias menos adequadas. Não é aceitável que, perante o icebergue que temos pela frente, Governo e oposições se entretenham em braços-de-ferro suicidas, enquanto o país ameaça afundar-se como o "Titanic".
A Comissão Europeia veio corrigir o que disse, ou o que foi atribuído ao comissário Almunia sobre a realidade portuguesa. Mas isso não altera a situação de facto. Se o fantasma da Grécia paira sobre Portugal, o que Portugal tem a fazer é olhar para a Irlanda. Em vez de se queixar das agências de rating, o Governo devia falar aos portugueses, dizer-lhes toda a verdade e prepará-los para os sacrifícios que são inevitáveis, como já se percebeu. Devia convocar partidos, empresários, sindicatos, autarquias, regiões autónomas e co-responsabilizá-los na busca de soluções urgentes. Soluções que passem pelo desmantelamento do Estado paralelo que se foi construindo ao longo dos anos, com centenas de fundações, agências e institutos públicos de utilidade duvidosa, exércitos de consultores, escritórios de advogados e demais clientelas que esgotam o Orçamento. Soluções que passem pela eliminação de SCUT e parcerias ruinosas, por taxar devidamente os lucros da banca, as mais-valias bolsistas, os ganhos especulativos. Soluções que passem por cortes exemplares nos salários e mordomias de todo o aparelho político e que preparem os cidadãos para medidas extremas. Medidas como, por exemplo, o pagamento de uma taxa extraordinária e transitória sobre vencimentos e pensões a partir de determinado montante, não só na Função Pública mas em todo o universo. Haja rigor e justiça na distribuição dos sacrifícios, combata-se o desperdício com vigor e determinação, comportem-se os agentes políticos com seriedade e empenho e os portugueses compreenderão.
É uma tarefa árdua que nenhum Governo minoritário pode executar sozinho. Mas uma tarefa para políticos com perfil e ambição de estadistas, ou, pelo menos, com forte sentido de Estado. Políticos que, estando no poder ou na oposição, sejam capazes de, por uns tempos, pensar mais no país do que nas próximas eleições - isto é, na sua própria conveniência e na dos seus partidos.
O almoço do Tivoli
José Sócrates reclama-se o direito de criticar os jornalistas que o criticam. Fá-lo em público, como no Congresso do PS ou numa entrevista à RTP, e fá-lo em privado, mas de modo que toda a gente o oiça, como terá sido o caso no almoço do Hotel Tivoli. É uma opção. Mas é uma opção lamentável que só pode envenenar a sua relação com os media.
O primeiro-ministro não é um cidadão como os outros. Quer pelo poder efectivo que detém em meios de informação do Estado, quer pela influência que pode tentar exercer nos restantes - por ser o primeiro-ministro e porque o Governo toma decisões susceptíveis de os beneficiarem ou de os prejudicarem -, as suas críticas públicas ou semipúblicas serão sempre lidas como pressões e ameaças à liberdade de expressão. Sobretudo se não se eximir a formulá-las em termos de ameaça, como parece ter acontecido com Mário Crespo.
Sócrates tem direito à opinião e à crítica. Só que as suas opiniões e críticas têm tido consequências. O já longo historial de casos com os media mostra que todos os alvos que nomeou foram neutralizados. E esse facto é demasiado perturbador para ser levado à conta de mera coincidência.
Instinto policial
Três vice-presidentes da bancada do PS tiveram uma ideia para combater a corrupção: fazer de cada cidadão um polícia. Não é muito original. Qualquer ditadura recorre a este expediente. Pondo na Internet as declarações de rendimentos, pensaram os ilustres deputados, facilita-se a investigação, pois todos os cidadãos serão potenciais denunciantes. O rendimento declarado pelo vizinho não é compatível com o Jaguar em que ele se passeia? Toca a avisar o fisco ou a PJ. Francisco Assis, líder parlamentar do PS, matou a ideia no ovo. Mas ficámos todos mais esclarecidos sobre o verdadeiro instinto de certos socialistas altamente colocados.
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010