É tão bom falar do que não sabemos, não é? E simples, basta pôr umas palavras complicadas, daquelas que dão um ar erudito a qualquer prosa e faz-se de um biografo oficioso de Álvaro Cunhal um aparente sábio analista social com laivos de neurologista.
Só que nem tudo o que aparenta é e, visto à lupa, pouco mais sobra que arrogância que tenta camuflar ignorância e ressabiamento.
TDACHSR, que segundo o medíocre autor se lê "tedacherr" (o que, convenhamos, é um acrónimo perfeitamente parvo por não reflectir sonoramente a suposta oralidade das iniciais inventadas e que por azar não soavam a nada) consiste num texto repleto de erros e contradições, digno apenas de um país onde umas barbas brancas dão a qualquer Pacheco uma atenção e "estatuto" de intelectual que ninguém se atreve a questionar.
Eu atrevo porque não suporto a mediocridade quando esta se quer fazer erudição e porque não me sinto na obrigação de respeitar quem demonstra não respeitar ninguém além se si mesmo.
Podemos começar logo pelo título: "Transtorno do deficit de atenção cívica com hiperactividade social em rede (TDACHSR)". Não é preciso ser uma Edite Estela para constatar o clamoroso erro de português vejamos: a palavra déficit não existe na língua portuguesa, queria o autor dizer "défice de atenção", que em si é já um transtorno de algo pelo que "Transtorno do déficit", a ter algum significado em português correcto (que não tem, é apenas mau português) resulta numa redundância, pois um "défice" transtornado será, por lógica, ou um duplo transtorno ou a correcção do défice.
Ma se o artigo começa com dois erros, um gramatical e outro de sintaxe (o que eu, editor fosse, já não deixaria passar), a asneirada prossegue logo na abertura do texto. Vamos lá buscar novamente a lupa:
Se JPP, anti-tudo, se dá ao trabalho de ver "na Wikipédia essa tradução e embora não esteja certo do rigor da dita, para o que vou dizer chega-me" e se contenta com o uso do nome da doença em inglês, "Attention-deficit hyperactivity disorder", com uma pesquisa na Wikipédia em português teria ficado a saber que está a falar de "Perturbação de Hiperactividade com défice de Atenção" e que não é tanto uma doença do foro psiquiátrico como diz mas sim do âmbito da neurologia e psicologia, embora eu entenda que uma personalidade como a de JPP tenha um certo carinho pela psiquiatria.
Diz o Pacheco que "não é a doença da "psique" propriamente dita que me interessa, mas uma sua variante social" e nesta variante social faz uma diferença absolutamente redutora e demonstrativa do seu (mau) carácter ao separar, na perigosa doença acabada de inventar em mau português, a que "ataca o povo" da que "ataca as elites que já nem sabem o que é ser elite". Eu vejo aqui uma doença muitíssimo mais grave, o elitismo, a soberba e a imodéstia de JPP que, elite das elites, se afirma como o último reduto do saber ser elite. Isto sim já me parece do foro psiquiátrico.
Ou então é mera estupidez e preconceito, já que o sagaz analista social logo no parágrafo seguinta nos informa que todos os negros da amadora são obrigatoriamente "rappers" e os "betos" anda todos em colégios da Opus-Dei ("chegará a todos, ao rapper negro da Amadora, como ao "beto" do colégio da Opus Dei")
O chorrilho de disparates, preconceitos e lugares comuns é infindável, senão atente-se nesta absurda linha de raciocínio que pode ser anulada pela lógica pensamento a pensamento: "um nerd qualquer infectou outros nerds", "depois os amadores das últimas modas tecnológicas" (o que para JPP é contra-natura, devíamos estar todos a jogar xadrez borrifando-nos para a tecnologia), "depois os autores de blogues" (isto de quem se gaba ser um pioneiro nos mesmos), "depois os jornalistas" (num texto escrito num jornal, jornalista fosse eu e ficava ofendido, a sério que ficava), "depois as "juventudes" partidárias, já "amolecidas" para a infecção pelo telemóvel" (mas... espera aí, eu tenho telemóvel e não sou "juventude" partidária!) e vai por aí fora, numa espiral de insanidade que acaba em conclusão nenhuma. O parágrafo só não é um desperdício porque nos revela todos os traumas e preconceitos de Pacheco.
Paradoxal é que no inicio do parágrafo seguinte afirme que as "novas gerações" e as "ex-novas gerações" "começam a escrever umas banalidades arrogantes em qualquer sítio da Rede"... que é nem mais nem menos o que JPP faz neste artigo. Pode, claro, arrogar-se de ter sido pioneiro na arte da banalidade, por mim assenta-lhe que nem uma luva, mas engana-se (outra vez) quando diz que tal acontecerá "quando passarem do SMS no telemóvel para o Facebook e o Twitter". É que já passámos, ó Pereira, em vez de andarmos a biografar o Cunhal e a minar o PSD.
Mas "O que é que caracteriza esta TDACHSR?" pergunta e, claro, responde: "Uma completa falta de atenção ao que é relevante, cultural, social, económica, politicamente", ou seja, andamos a falar pouco de JPP nas redes sociais, é isso que ele quer dizer mas não pode, apenas pensa. Mas para o José a coisa é pior que isso, verifica-se uma "multidão de "pontos", todos igualmente dispersos, todos igualmente irrelevantes". Irrelevantes porque não são os dele, além do perigo da pluralidade de opiniões que, como se vê na sua coutada particular a que dá o nome de PSD é coisa que não lhe agrada, como o demonstra mais adiante: "O vírus da TDACHSR produz uma rede muito complexa porque emaranhada, mas é incapaz de gerar uma seta, uma direcção, um sentido, um significado". Põe-nos a pensar pela nossa cabeça. sem um Grande Líder que aponte o caminho. E aqui eu começo a perceber melhor o fascínio por Cunhal e o(s) seu(s) PC(s)...
Mas "a rede" feita doença tem outros perigos, o de estarmos "demasiado interactivos", de tal forma que ele, Pacheco, que não gosta, não tem nem vê o Twitter consegue ainda assim saber "a que horas se vão deitar os directores dos jornais portugueses e onde comem e o que comem". Curioso que eu que passo muito tempo ligado no Twitter e Facebook não sei, talvez por prestar mais atenção a outras "frivolidades" que "escorrem pelo labirinto".
A grande charice, confessa-nos é que "... Tudo produz opinião". Oh como era bom quando só as "elites" o podiam fazer nos seus abruptos, com quase exclusividade de "bocas mais ou menos envenenadas"
Mas como eu disse no inicio, toda esta verborreia que tresanda a ressabiamento do termos percebido que qualquer um de nós pode ser um Pacheco Pereira, coisa que os Pachecos Pereiras não suportam, é no fim adornada com aquelas frases que não querendo dizer absolutamente nada quase (já só quase) parecem dar um ar erudito à coisa, como em "A TDACHSR não é pluralista no seu interesse, mas monista na sua desatenção. Ela mantém fortes relações com o relativismo ético". Um bilhete para os U2 a quem tirar disto algum significado (útil)
Mas, caro JPP, lamento não "apaga as distinções entre o saber e a ignorância, a decência e a perversidade, a verdade e a falsidade, o carácter e a esperteza". Lendo o seu artigozeco percebe-se perfeitamente qual destas palavras se aplicam ao seu autor e a "diferença que nasce de "literacias" que exigem atenção, esforço, trabalho, tolerância e vida" presumia-se que, aplicando-se a si, JPP, evitasse erros clamorosos de confundir psiquiatria com neurologia ou incluir erros de português no título.
João Moreira de Sá (Arcebisco de Cantuária no Twiiter)









