A ideia de que Sócrates não tem condições para continuar, caso se prove que mentiu no Parlamento, só é válida do ponto de vista ético. Mas a política raramente é moral.
Para quem acompanha de perto a situação política, a entrevista de Cavaco Silva foi transparente: pressionado por diversos amigos a actuar sobre o Governo, na presunção de que o primeiro-ministro não tem condições para continuar, veio dizer que não se metia nisso. E mais: que se alguém quiser derrubar Sócrates, que o faça no Parlamento.
Se fez bem ou mal, é outra discussão. Na verdade, Cavaco fez o que a Constituição lhe permite. Não há uma lei que diga que o facto de um primeiro-ministro ter mentido no Parlamento, ou noutro local qualquer, o obrigue a deixar o Governo. Como é óbvio, a sensação de que a política se vai fazendo através da mentira, de que não se governa o país com honra - independentemente de ser injusta ou justa - corrói a autoridade e o exemplo necessários, sobretudo em tempos de crise. Mas, tão certo como isso, é o facto de essa avaliação - que é totalmente política - caber apenas ao Presidente e à Assembleia da República e a ninguém mais.
Ora aqui reside o busílis da questão - ainda que o Parlamento ou o Presidente concluíssem que Sócrates não pode continuar, o que fariam? Existe uma alternativa sem eleições? Não parece. Havendo eleições, não voltaria o primeiro-ministro a ser o mesmo? Tudo o indica (apesar de um novo líder do PSD poder alterar esta premissa ).
Eis, pois, a conclusão que já há séculos, tantos retiraram. A política não é um ramo da moral. É apenas a arte do possível.
O pós-PEC
Poder-se-ia chamar ao PEC 'processo de emagrecimento em curso'. Mas duvida-se de que o regime imposto nos deixe mais saudáveis. O ponto não é criticar a proposta do Governo. Pelo contrário: finalmente há uma análise realista da situação.
A questão está em saber-se se, ao fim de três anos de sacrifícios, teremos um país equilibrado e na rota de crescimento. Aí, sinceramente, duvidamos. Ora é essa dúvida que dá um sentimento de inutilidade aos sacrifícios.
E isso é terrível.
O PSD voltará a existir?
Neste fim-de-semana a nata do PSD (ou parte dela) vai dedicar o seu tempo a discutir como pode salvar o país.
Em teoria, será uma discussão sem nomes (as eleições para líder são depois), mas, espera-se, repleta de ideias.
Se assim for, saúda-se o esforço. Mas teme-se que - como dizia o outro - as boas ideias não sejam originais e as originais não sejam boas.
O país agradeceria uma surpresa, mas poucos acreditam que de lá saia a redenção...
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010