Philippe Daniel Alain Séguin, que deixara a luta política activa em 2004 quando aceitara ser presidente do Tribunal de Contas francês e que morreu inesperadamente de um ataque de coração na sua casa de Paris, na madrugada do passado dia 7, tendo a sua morte sido seguida por um coro de elogios fúnebres, vindos de todos os quadrantes políticos de França, não só invulgarmente concordantes quanto às forças e fraquezas do homem que agora desaparecia mas também tocados da mesma admiração (misturada de incómodo) pela sua singular independência moral, será lembrado noutros países europeus - se o for... - pelo debate televisivo travado em 1992, quando era presidente da Assembleia Nacional, contra o então Presidente da República François Mitterrand, com extraordinário brilho e correcção de parte a parte, debate que terá decidido o voto popular francês no referendo ao Tratado de Maastricht, aprovado poucos dias depois por uma unha negra, em que Mitterrand defendera que os franceses respondessem 'sim' à pergunta que lhes era feita e Séguin defendera que respondessem 'não' (apesar do resultado, o prestígio de Séguin aumentou porque muita gente atribuiu à sua argumentação persuasiva a estreitíssima margem de aprovação do Tratado). Em França será lembrado por muito mais do que isso.
E a falta de qualidades como as suas é sentida mais agudamente na hora da sua morte, pois, só com 66 anos, não estava completamente fora do jogo político: já mostrara, por exemplo, que o Tribunal de Contas a que presidia podia ter efeito moralizante ao tratar com rigor e isenção as despesas do Eliseu. Gente sua, ou melhor, gente que trabalhara consigo e lhe era dedicada, está em posições de poder e influência - o primeiro-ministro; um conselheiro especial de Sarkozy - mas a sua força, o traço dominante do seu carácter que vários correligionários e adversários descreveram (entre respeitosos e intrigados) como a capacidade de pôr as suas convicções à frente da sua carreira, era o que sobretudo o distinguia. Embora intelectualmente apetrechado - escreveu vários livros, entre os quais uma biografia de Napoleão III -, não deixou uma corrente de pensamento político chamada 'seguinismo'.
O pai de Philippe Séguin, professor na Tunísia onde o filho nascera, morre em combate na reconquista da França aos alemães com apenas 23 anos e Philippe, órfão de guerra, foi ajudado pelo Estado na sua educação (era 'pupilo da Nação'); depois da universidade fez a Escola Nacional de Administração (Promoção Robespierre, 1968-1970) e depressa foi atraído pela política. Profundamente patriota, identificou-se com o gaulismo, começou a trabalhar no secretariado geral da presidência de Georges Pompidou em 1973, trabalhou a seguir com Valéry Giscard d'Estaing e com o primeiro-ministro deste, Raymond Barre, mas era um gaulista mais social, mais 'à esquerda' o que qualquer deles. Em 1981 foi um dos pouquíssimos deputados da oposição (outro foi Jacques Chirac) a votar pela abolição da pena de morte, promovida por Mitterrand. Em 1995 o seu apoio a Chirac contra Balladur foi crucial no triunfo daquele, primeiro dentro da direita, depois nacionalmente, mas, uma vez no Eliseu, Chirac escolheu Juppé e não Séguin - de candeias às avessas com a Europa - para primeiro-ministro. Continuou na presidência da Assembleia Nacional até à vitória da esquerda em 1997 e, em 1999, entre intrigas chiraquianas e oposição à guerra do Kosovo (seguidismo, para ele, dos americanos), bateu com a porta ao partido. Chirac viria a oferecer-lhe o Tribunal de Contas.
Homem corpulento, grande orador parlamentar com bela voz de barítono, honesto, consciencioso, entusiasta, colérico, fumador inveterado de Gitanes e conhecedor enciclopédico de futebol, tinha instinto político como poucos. O seu 'não' a Maastricht pressentia o que diria a voz do povo em 2005. E era, acima de tudo, um patriota: chamou ao livro que escreveu sobre o Quebec (e irritou o Governo canadiano) "Plus Français que moi, tu meurs!"
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010