Perguntar não ofende, às vezes só aborrece
Permitam-me o desabafo: isto não está fácil. Quem pretender passear-se pacatamente em Lisboa arrisca-se a voltar a casa transtornado por interpelações que tocam no âmago das suas convicções mais profundas. Quantos acidentes rodoviários não ocorrerão por causa de cartazes que apelam à mais profunda introspecção? O cidadão aprendeu a não se distrair com outdoors de lingerie, mas para este novo desafio ninguém o preparou. Enfim, vamos às questões.
ADENDA: não alinho na lógica de, uma vez perdido o respeito entre duas pessoas, se poder discutir no espaço público qualquer tipo de assunto, o que talvez se aceite mal se há uma aparente objectividade, mas parece sensato se é notório o desequílbrio. Quando se perde o respeito, não há condições para uma discussão útil, haverá talvez condições para uma novela. Esta adenda é uma versão mais resumida de uma resposta minha que a Isabel Moreira
censurou junto do texto que escreveu sobre esta entrada. Dou o assunto por encerrado.
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Vasco M. Barreto
19:49 Quinta feira, 25 de fevereiro de 2010
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Hoje, no multibanco, Jerónimo de Sousa perguntou-me: "se eu fosse seropositivo, votaria em mim?" Ó Jerónimo, francamente... Eu não votaria em si, com toda a simpatia que me merece. Lamento, mas nunca votei em si e a sua eventual condição de seropositivo não mudaria o meu sentido de voto. Percebo e apoio a campanha, só que a formulação da pergunta é má. Ignoro se os publicitários cobram à palavra, mas não teria sido muito mais caro incluir cinco caracteres, que mudassem a pergunta para: "se eu fosse seropositivo, ainda votaria em mim?"
Horas depois, nova pergunta: "se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?" Para que não sobrem dúvidas: é motivo de orgulho saber que a câmara da minha cidade apoia esta campanha e não reconheço a ninguém autoridade para pôr em causa tal decisão. Dir-me-ão que a pergunta remete sobretudo para a questão da adopção, que divide a sociedade. Pois remete. Só que o tal grande - e longo - debate sobre a adopção continua a misturar duas realidades distintas na reacção que provocariam caso fossem separadas à partida - e esta confusão basta para justificar a campanha. A adopção de crianças institucionalizadas por casais homossexuais nunca será pacífica, mas a co-adopção do(s) filho(s) biológico(s) do parceiro (homosexual) não pode ser negada por ninguém que leve a sério o "superior interesse da criança" e defenda uma sociedade em que não se pode proibir que uma mulher engravide, por mais condenável que a alguém pareça o contexto em que essa gravidez decorrerá.
Infelizmente, também a pergunta da campanha da ILGA é má (será boa para os convertidos, claro). Não alinho na crítica de que esta é uma campanha "manipuladora" por o alvo (aparente) serem as criancinhas, embora saiba que aos detractores da causa foi dada uma borla. O principal problema é outro. Se o erro de formulação na pergunta de Jerónimo é técnico, o erro na pergunta da ILGA é ideológico. Na sua simplicidade, "se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?" é um exemplo da escola de pensamento que pretende chegar à tolerância pelo branqueamento das diferenças. É a mesma escola que fundamenta a paridade no desprezo das diferenças biológicas óbvias entre o homem e a mulher, por exemplo, e que nos convida a pensar que tudo o que os nossos sentidos captam como diferenças são "construções sociais". Sendo certo que a única tolerância genuína passa - justamente - pelo respeito pelas diferenças, não se percebe a pergunta. E ainda se percebe menos se a ideia era - como imagino que fosse - induzir uma epifania nos cidadãos mais críticos ou afastados das famílias de casais homossexuais, porque a única resposta automática que a pergunta desperta é: "claro que sim". Claro que mudaria muita coisa. Mudariam os afectos? Respondo por mim: não. Era aqui que se pretendia chegar, mas a pergunta, de tão categórica, falha esse objectivo.
Quando, há uns tempos, houve na Inglaterra uma campanha pelo ateísmo, o slogan era: "There's probably no God". Em termos gramaticais, o "provavelmente" enfraqueceu a afirmação, mas a verdade é que também a tornou mais rigorosa e, por isso, mais convincente. Até o público-alvo das cervejeiras, que não prima pela sofisticação e gosta de estímulos primários, entende estas regras. Por isso, a Carlsberg não é a melhor cerveja do mundo, é apenas "provavelmente a melhor cerveja do mundo". Por isso, a pergunta que se espalhou por Lisboa deveria ter sido outra. Como esta: "se a tua mãe fosse lésbica, mudaria o essencial?"
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