Começo com uma ressalva: detesto a palavra 'elites'. Portugal é o que é porque tem as elites que tem. Gente que muitas vezes tem mérito, cultura e dinheiro (ou tudo isto) mas que outras tantas vezes é de um conservadorismo insuportável e de um imobilismo militante. Gente que olha com pavor para tudo o que não emerge do seu grupo, não frequenta os mesmos meios, não tem os mesmos 'valores' ou memória colectiva. Há elites destas em todo o lado, na esquerda e na direita, do PCP ao CDS. Mas não há partido que sofra mais com isto do que o PSD.
O PSD vive, desde a saída de Durão Barroso em 2004, uma clara tensão entre a sua elite e uma corrente mais basista ou populista. Santana Lopes e Luís Filipe Menezes viveram sempre debaixo do fogo das elites. Mesmo Marques Mendes nunca foi apoiado de uma forma clara: quando Mendes foi eleito líder do PSD, em 2005, o grupo de Ferreira Leite, Alexandre Relvas, António Borges, Rui Rio e Aguiar Branco disseram que o apoiavam "por agora".
O "por agora" de Mendes chegou ao fim e seguiu-se Menezes que, como disse Pacheco Pereira, teria que sair "nem que fosse à bomba". Não foi preciso tanto. Menezes regressou a Gaia pelo seu pé. Nesta altura as elites não tinham alternativa. A sua hora tinha chegado. Numa longa reunião, Rui Rio e Manuela Ferreira Leite acabaram por decidir quem avançava para "salvar o partido e o país".
Estão quase a passar dois anos sobre o momento em que este grupo conquistou o poder no PSD. Numa primeira fase, o PSD tornou-se um partido credível, com um discurso alternativo, valores claros e diferentes e alguns rostos estimulantes. Foi assim que venceu as europeias.
O que se passou depois da ida de Paulo Rangel para Bruxelas foi um desastre. O PSD desperdiçou de forma displicente os debates televisivos a que Sócrates se sujeitou. Depois fez a campanha mais redutora e obsessiva da nossa democracia, que culminou numa óbvia humilhação. Nesta altura, a elite agarrou-se a uma nova crença: a "asfixia democrática" deu lugar à certeza (ou à fé) de que Sócrates havia de cair pela via judicial. Com todo o respeito, isto é o mesmo que fazer política depois de consultar o professor Karamba.
Para concluir em beleza, a elite não arranja coragem para avançar contra Passos Coelho, apesar de o desprezar. E coliga-se a Jardim e a Santana Lopes, apesar os detestar. No fim do mandato, a elite arrisca-se a ver Sócrates em São Bento, Portas acima dos dez por cento e Passos Coelho no PSD. Não vale a pena dizer mais nada.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010