13/02/2012 atualizado às 9:29
Página Inicial » Opinião » Miguel Sousa Tavares » PEC: Plano de Extermínio dos Contribuintes

PEC: Plano de Extermínio dos Contribuintes

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 18 de março de 2010

O tão esperado PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento) conheceu finalmente a luz do dia e a primeira coisa que se pode dizer é que nada era mais previsível do que o seu conteúdo. Sumário: os mesmos de sempre vão pagar mais para que os mesmos de sempre ganhem mais ou não percam nada.

56% dos portugueses, interrogados na semana passada numa sondagem do "Público", disseram acreditar, infelizmente, que Portugal pode mesmo entrar em falência, incapaz de assegurar o pagamento da dívida: o Governo pensa o mesmo e daí ter finalmente decidido pôr fim à brincadeira e enfrentar a realidade. Mas 46% dos portugueses, mesmo acreditando que a coisa está muito feia, declararam-se indisponíveis pessoalmente para suportar sacrifícios em prol das contas públicas (Kennedy não nos poderia governar). O Governo também pensa o mesmo e daí ter apostado em que os sacrifícios continuem apenas a ser suportados pelos de sempre: os poucos que não fogem ao fisco, que não dependem de favores ou subsídios do Estado, que abriram caminho pelo seu esforço, trabalho e mérito.

Os tais 'privilegiados', que Sócrates apontou como exemplo da injustiça fiscal e que agora vão ser massacrados com 45% de IRS, mais o corte nas deduções com a Saúde, a Educação e os PPR (com que aliviam a despesa do Estado nestes sectores), são o alvo falso de uma demagogia que pretende esconder o fundamental: o Estado gasta metade da riqueza do país e o país continua pobre. Em lugar de verem agradecido o seu esforço (em cinco anos, passaram de 40 para 45% do IRS e agora, juntando os impostos directos e indirectos mais a Segurança Social, vão passar a entregar 60% do que ganham!), os 'privilegiados' são tratados como se fossem eles os culpados pelo deboche financeiro em que temos vivido. Eles, os únicos que não fogem ao fisco - porque os outros, os do grande dinheiro, estão no abrigo de offshores, fundações ou sociedades feitas para tal, e a grande massa dos evasores, aqueles que, pagando podiam de facto fazer a diferença, são os coitadinhos que não passam facturas, falsificam o IVA e vivem em economia paralela e protegida pelo Estado. Por isso é que os que vão pagar 45%, representando apenas 1% dos contribuintes, respondem por 18% da receita do IRS. É em grande parte graças a eles que foi possível a este Estado voraz recolher mais receitas fiscais do que a própria despesa nos últimos dez anos (ou seja, cobrou mais do que necessitava), e ter aumentado a receita fiscal seis vezes mais do que o PIB (isto é, colectou impiedosamente os poucos que criaram riqueza para dar aos que nada acrescentaram). Ser generoso com o dinheiro alheio é, aliás, uma característica bem portuguesa: basta ver os salários e mordomias dos gestores públicos.

Não falo dos justamente assistidos - dos que vivem com pensões de 300 euros ou do meio milhão de verdadeiros desempregados. Falo, para começar, dos imediatamente acima, mas moralmente bem abaixo: dos que vivem dos esquemas do subsídio de desemprego enquanto mantêm empregos paralelos ou vegetam no café ou à porta do Estádio da Luz a dizer mal de tudo; dos 'biscateiros' que nunca passam factura nem pagam um tostão de impostos e se acham cidadãos exemplares; dos que cultivam as falsas baixas e arruínam o sistema de saúde público com doenças que não têm, exames de que não precisam e remédios que não pagam; dos que compram Mercedes com subsídios para plantar batatas ou produzir 'arte' ou gravuras paleolíticas. E falo dos ainda mais acima na escala dos assistidos: dos que oferecem robalos em troca de telefonemas, andares recuados em troca de urbanizações e milhões em offshores em troca de subtis alterações às leis. Falo, enfim, de todos os que vivem à conta e não sabem viver de outra maneira, dos tais 46% que se declaram soberbamente indisponíveis para aceitar sacrifícios - com a certeza adquirida de que os 'outros' é que têm de o fazer. São esses que o PEC protege.

Mas o PEC também continua a proteger o despesismo do Estado. É certo que - finalmente! - já houve um recuo em relação ao delírio keynesiano do primeiro-ministro com as obras públicas, que só criam emprego enquanto duram, mas deixam dívidas para muitos e muitos anos. Suspenderam-se os TGV Porto-Vigo e Lisboa-Porto (este, o único que fazia sentido) e as inúteis cinco novas auto-estradas projectadas, ao mesmo tempo que se pôs fim a quase todo o esquema das SCUT - e nisso espera-se poupar €6000 milhões nos quatro anos. Mas manteve-se o ruinoso TGV para Madrid, o novo e desnecessário aeroporto de Lisboa e a respectiva ponte sobre o Tejo. (O Porto tem razão nos protestos: só Lisboa é que continua em festa). Sem o aeroporto, sem o TGV para Madrid, sem a nova ponte e o terminal de Contentores de Alcântara, e sem o segundo submarino, poupar-se-iam mais uns €10.000 milhões.

E muito mais se pouparia ainda com algumas medidas de higiene financeira, tais como o fim das parcerias público-privadas, a redução aos casos estritamente necessários do recurso a consultadoria externa, a proibição expressa e consequente responsabilização cível e criminal de quem autorizasse a sistemática derrapagem de custos nas empreitadas e adjudicações ao Estado e o controlo apertado do endividamento das empresas públicas, com responsabilização salarial dos seus gestores. E isto, esperando que o endividamento zero das autarquias seja mesmo para cumprir. O congelamento inevitável dos salários da função pública (se é que o Governo, depois da vitória dos professores, vai conseguir aguentar a rua e os sindicatos), e a sua progressiva e justa equiparação aos restantes trabalhadores quanto à idade da reforma, só podem ser politicamente sustentáveis se não continuarmos a ser diariamente confrontados com os maus exemplos que vêm de cima.

Vá lá que finalmente se avançou para a tributação das mais-valias bolsistas, cuja isenção era um verdadeiro escândalo. Mas continua a ser infinitamente mais rentável ganhar dinheiro a especular do que a trabalhar. E continuo sem perceber porque é que a banca só paga, no máximo, 12% de IRC, enquanto outros pagam duas ou três vezes mais a trabalhar e o próprio porteiro do banco é capaz de pagar mais do que isso.

Tudo visto e revisto, e ainda a quente, a notícia é esta: como seria de esperar, é a classe média, os trabalhadores independentes e os maiores pagadores de impostos individuais que vão pagar pelos desmandos alheios. São os que menos sobrecarregam o Estado e mais o financiam que vão ser penalizados por uma situação para a qual em nada contribuíram e da qual nada beneficiaram. Mas a história ensina-nos que o massacre da classe média conduz inevitavelmente à ruína das nações. Oxalá a história abra uma excepção connosco, porque está visto que não sabemos viver de outra forma e nem ao menos temos a coragem dos necessitados. Quando e se esta crise financeira do Estado for ultrapassada ou contida, manter-se-á o agravamento dos impostos que agora dizem excepcional; a clientela larvar do Estado chegar-se-á outra vez à frente a reivindicar negócios, subsídios e apoios e tudo voltará à mesma, até nova crise. Aí, faz-se novo intervalo e aumenta-se mais ainda os impostos aos mesmos de sempre. Até ao dia em que eles estoirem e não haja ninguém para pagar a conta. Já faltou mais.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 2    « Anterior  |  Seguinte »
ordenar por:
mais votados ▼
O "direitinho"
hpg (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 22:47 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Sr. Primeiro Ministro,
Hoje relembro a escola secundária. Não sendo um génio, compensei o facto com muita dedicação e trabalho, tendo obtido sempre bons resultados.
Hoje relembro a Universidade, as directas a estudar, os fins-de-semana agarrado aos livros, o stress antes dos exames.
Relembro que abdiquei de muita coisa para poder estudar, para aprender, para me realizar profissionalmente e para poder aspirar a uma vida melhor.
Relembro o empenho e profissionalismo que sempre coloquei em tudo o que faço na empresa onde trabalho e que me trouxeram as merecidas compensações.
Relembro ainda, que sempre tive uma atitude de respeito pelo dinheiro que ganho, não o desbaratando, nunca consumindo aquilo que não tenho, tentando amealhar algum para os imprevistos.
Relembro que sempre paguei os meus impostos, as minhas contribuições e que apesar disso, cada vez recorro cada vez menos aos serviços do estado, pagando do meu bolso ou da Empresa que me emprega, aquilo que me prometeram que estaria incluído no preço.
Relembro que não contribuí para esta crise, nem a nacional, nem a internacional.
Fiz tudo tudo direitinho! Mesmo assim, não vou escapar ao castigo.
 
 Regras da comunidade
Bom resumo...
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 10:27 | Quinta feira, 18 de março de 2010
MST apresenta um bom resumo do que aqui vamos comentando..
Não dou pontos por resumos do que outros escreveram..
 
 Regras da comunidade
MST
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos , 10:28 | Quinta feira, 18 de março de 2010
PEC- pagas e calas, e está tudo dito e sem mais comentários.
Cumprimentos.
 
 Regras da comunidade
Estarei enganado?
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 16:59 | Quinta feira, 18 de março de 2010
MST queixa-se exactamente do mesmo que se queixa a maioria ou seja todos os que não fogem ao fisco sejam eles pobres, remediados ou privilegiados.
Para não ficar pela queixa pura simples, avança com "Vá lá que finalmente", "ainda a quente", etc.
Espero que no momento em que a sua crónica esteja no online ele já tenha digerido completamente o PEC e chegado à conclusão que se estivesse no Governo também não saberia como sacar a massa a quem ele considera justo sacá-la. Estarei enganado?
 
 Regras da comunidade
Recibos verdes para ti tambem...
lord byron (seguir utilizador), 2 pontos , 17:58 | Quinta feira, 18 de março de 2010
“O Governo também pensa o mesmo e daí ter apostado em que os sacrifícios continuem apenas a ser suportados pelos de sempre: os poucos que não fogem ao fisco, que não dependem de favores ou subsídios do Estado, que abriram caminho pelo seu esforço, trabalho e mérito.”

“Que abriram caminho”….” Esforço, trabalho e mérito” ???
Serio???
Em Portugal não existe um Champalimaud sem mérito!
Em Portugal não existe um Amorim sem esforço!
Será que existe algum Sousa Tavares sem trabalho???
 
 Regras da comunidade
Os maus de sempre...
tarik (seguir utilizador), 1 ponto , 9:59 | Quinta feira, 18 de março de 2010
O congelamento inevitável dos salários da função pública[...] e a sua progressiva e justa equiparação aos restantes trabalhadores quanto à idade da reforma, só podem ser politicamente sustentáveis se não continuarmos a ser diariamente confrontados com os maus exemplos que vêm de cima...
já agora tb a justa equiparação em relação ao ordenado mínimo na FP e no privado... é que na FP é bem menor... mas nisso não interessa falar, são só «privilégios»....
 
 Regras da comunidade
Estádio da luz
rui dinis (seguir utilizador), 1 ponto , 10:26 | Quinta feira, 18 de março de 2010
A parte que gostei mais foi esta , "Falo, para começar, dos imediatamente acima, mas moralmente bem abaixo: dos que vivem dos esquemas do subsídio de desemprego enquanto mantêm empregos paralelos ou vegetam no café ou à porta do Estádio da Luz a dizer mal de tudo",bem me parecia que o Benfica tinha alguma coisa a ver com o estado do país.
 
 Regras da comunidade
    Re: Estádio da luz    Ver comentário
still (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Quinta feira, 18 de março de 2010
    Re: Estádio da luz    Ver comentário
País da MENTIRA (seguir utilizador), 1 ponto , 23:22 | Quinta feira, 18 de março de 2010
    Re: Porquê o Estádio da luz ?..    Ver comentário
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 21:38 | Domingo, 21 de março de 2010
porra pá!
corta bushos (seguir utilizador), 1 ponto , 10:42 | Quinta feira, 18 de março de 2010
depois admiram-se que esta sociedade comece a ser violenta e problemática.
os condomínios dos seres intocáveis podem ter que contratar o exército.
shame on you!

a titulo de curiosidade:

http://www.youtube.com/wa...
 
 Regras da comunidade
Verdade
tiago-05 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:08 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Só não percebo é como Durão Barroso OCDE e outras entidades acham o PEC credivel e os nossos comentadores acham que não serve,que seria se a OCDE e Durão dissessem o mesmo?
 
 Regras da comunidade
Erra em alguns pontos
cajo_vcambra (seguir utilizador), 1 ponto , 15:54 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Quando, por exemplo, diz o seguinte: "inúteis cinco novas auto-estradas". Eu não as conheço a todas, mas sei de uma que foi cancelada e considero que foi uma extrema injustiça, que põe em causa dezenas de empresas, que são, de forma sistemática, penalizadas na sua competititvidade, por não terem acessos rápidos aos principais eixos rodoviários do país. Falo da auto-estrada Stª Maria da Feira-Vale de Cambra-Arouca. Acredito que, para quem viva em fora desta área, este investimento possa parecer inútil e demagógico, mas não é para quem lá vive, não é para empresas lá implantadas.
Esta forma leviana como analisou este investimento faz-me acreditar que usou da mesma leviandade no resto da análise.

www.efseguros.com
 
 Regras da comunidade
Soluções?
SPONGEBOB (seguir utilizador), 1 ponto , 16:01 | Quinta feira, 18 de março de 2010
PEC extermínio contribuintes classe média sondagem falência dívida fisco subsídios Saúde Educação PPR offshores fundações IVA IRS evasores pensões desempregados despesismo
Se toda a gente sabe identificar o problema porque é que ele ainda não está resolvido?
 
 Regras da comunidade
    Re: Soluções?    Ver comentário
1963777 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:53 | Sexta feira, 19 de março de 2010
Extorquir os contribuintes, deprimir a economia
1963777 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:46 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Concordo inteiramente consigo. Parece-me, com efeito, que as medidas positivas do PEC se resumem à tributação (baixa) das mais valias bolsistas e ao adiamento de alguns investimentos, como as linhas de TGV Lisboa - Porto e Porto - Vigo. Mantém-se o despesismo público em muitas áreas e não se vislumbram medidas que ajudem a animar o tecido económico nacional, tendo em conta as suas reais especificidades. Bem pelo contrário! Parece que o objectivo é conseguir receitas a todo o custo, nem que para isso seja preciso deprimir ainda mais a economia!

A sobrecarga fiscal da classe média e dos reformados e o congelamento dos salários da função pública irão contrair ainda mais o consumo, o que terá efeitos negativos na actividade empresarial e no emprego, sobretudo nas micro e pequenas empresas, mais sensíveis às flutuações do mercado e com dificuldades crescentes em assegurar os seus encargos com os salários e com as prestações para o Estado. Desta forma, muitas delas serão fatalmente empurradas para a falência e/ou clandestinidade.

Por outro lado, privatizar empresas como a TAP, a ANA, a REN, a EDP e a GALP mais não significará, na actual situação de crise económica e financeira, do que vender a preço de saldo sectores estratégicos para o país. E os encaixes financeiros imediatos conseguidos com estas vendas “desesperadas” não compensarão certamente, a prazo, a perda das receitas anuais que estas empresas garantem ao Estado.

Conceição Pereira
 
 Regras da comunidade
Privilegiados
País da MENTIRA (seguir utilizador), 1 ponto , 23:00 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Afinal o sr MST também entrou para a categoria dos privilegiados, definida pelo indivíduo mais mentiroso e sem princípios que algum dia passou pela governação, mas que tem O SEU beneplácito e só por isso, já é bom que tenha sido comtemplado, para saber como elas mordem. O senhor tem sido um grande suporte. Pode crer...
Pensava que eram osprofessores, os privilegiados, que em toda uma carreira, não chegam a receber aquilo que Vara, p.e., recebe num só ano. Em 2008, recebeu cerca de 700 000,00 Euros.
 
 Regras da comunidade
Desapontada
sara09 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:37 | Sexta feira, 19 de março de 2010
Caro MSTavares,

Pelo que leio do senhor, pelas capacidades que lhe reconheço... esperava outro tipo de análise do PEC...

A sua análise. A sua opinião. Sem recursos a sondagens do "Público"(jornal) e outras...

Sara
 
 Regras da comunidade
Sempre foi assim,
psi456 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:44 | Sábado, 20 de março de 2010
enquanto uns engordam outros apertam o cinto.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 2    « Anterior  |  Seguinte »
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Muito barulho por nada
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 2
Uma tempestade liberal
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012, 1
Ambição, traição, inocência
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
E os patrões, Álvaro?
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012, 5
Sinais de fogo
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012, 3
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP