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Pé na tábua e fé em Deus

Os detractores primários do capitalismo que tornaram a brotar desde o começo da crise em 2008 não devem embandeirar em arco

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 23 de julho de 2010

Títulos e subtítulos das duas notícias principais da primeira página do "New York Times" de terça-feira passada:

Primeiro.

"Fabricante escondeu dados sobre riscos, segundo os arquivos"

O gigante farmacêutico Smith Kline Beecham descobriu num estudo datado de 1999 que o seu remédio contra a diabetes, Avandia, era perigoso para o coração, mas nunca tornou pública essa informação.

Segundo.

"Na crónica da BP, uma história de arrojo e disparates caros"

Na busca de crescimento e lucros, a BP correu riscos monumentais e sofreu as consequências. Mas a sua crónica mostra que não pôde ou não quis aprender com enganos dispendiosos.

Casos assim animam sentimentos de desconfiança e repúdio em gente que passou nestes dois anos muitos maus bocados e não sabe se alguma vez recuperará os confortos perdidos. Sobretudo na Europa que, mais do que outras partes do mundo, parece ter a mola pasmada. Porém, os detractores primários do capitalismo que, como cogumelos em campo sombrio e húmido, tornaram a brotar em muitas cabeças desde o começo da crise económica e financeira em 2008 não devem embandeirar em arco.

As notícias são publicadas no principal diário de Nova Iorque, cidade em cuja Wall Street está instalada a bolsa mais poderosa do mundo, são baseadas em estudos intensos e honestos, e nem polícia irá interrogar jornalistas e proprietários como poderia acontecer em Moscovo ou Beijing (para só falar em peixe grosso) nem grupos rivais de gangsters lhes darão sovas e irão de noite dar cabo de computadores e impressoras. No mundo civilizado, os males causados por desmandos do capitalismo tendem geralmente a ser corrigidos por uma melhor prática do capitalismo. A Europa tem mais de cem anos de sindicalismo - e seus eflúvios políticos na social-democracia e na democracia cristã - a ensinar como fazer render os ovos de oiro sem matar a galinha. À sua maneira os Estados Unidos também. E as outras democracias hoje enraizadas em partes do mundo que dantes tinham costumes diferentes.

Na Europa, o perigo dos grandes desmandos empresariais agora é outro. A crise económica animou nacionalismos viciosos, racismo e xenofobia contra pretos, árabes, ciganos, judeus e, às vezes, também contra quem quer que esteja do outro lado da fronteira da terra, da fé da língua ou da fortuna. Há quem tema que políticos pouco escrupulosos possam convencer o povo a passá-los dos extremos para o centro da vida política. Até agora tal não tem acontecido. Em duas eleições recentes, a legislativa checa, após a qual partidos de centro direita e não de extrema direita se coligaram, e a presidencial polaca, em que o candidato menos demagógico e mais pró-europeu, à frente desde a primeira volta, foi escolhido pelo povo.

Seja qual for o quadro político, porém, nada vale tanto quanto a atenção dos cidadãos, cada vez mais bem informados e capazes de escapar à exortação fatalista de Ademar de Barros, no fim dos seus comícios em S. Paulo: "E agora, macacada, pé na tábua e fé em Deus!"

José Cutileiro escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de17 de Julho de 2010

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