Num discurso de quase uma hora, num fim de tarde quente, na Quinta da Atalaia, Seixal, Jerónimo de Sousa deixou claro a intenção do PCP de votar contra o Orçamento de Estado para 2011, no pressuposto de que este documento prosseguirá as orientações definidas no Programa de Estabilidade e Crescimento: "Não aceitamos comprometer a instabilidade social em nome da estabilidade governativa", disse o líder comunista.
O secretário-geral do PCP acusou o primeiro-ministro de traçar para o país uma "estratégia suicida de renúncia a uma política de crescimento, desenvolvimento e emprego", para regressar "a todo o vapor à ditadura do défice".
Em matéria fiscal o líder comunista propõe a "revogação da taxação adicional do IRS"e a criação de um "novo imposto sobre as transacções em bolsa e transferências financeiras para os paraísos fiscais", bem como retoma a proposta de a aplicação da taxa de IRC de 25% a todos os grupos económicos com lucros superiores a 50 milhões de euros e o "fim das isenções fiscais para as empresas financeiras no Offshore da Madeira".
Propõe ainda fazer aumentar o salário mínimo nacional de "600 euros até 2013", e o congelamento dos preços da electricidade e dos combustíveis.
PCP defende "autonomia do Ministério Público"
No plano da Justiça, Jerónimo de Sousa defendeu a "autonomia do Ministério Público e a independência dos tribunais", saudando o recente desfecho do processo Casa Pia: "Foi feita justiça ao fim destes anos o que é bom para a Justiça e sobretudo para as vítimas", disse o líder comunista.
Mais uma vez, como o havia feito no discurso de abertura da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa voltou a criticar PS e PSD, acusando-os de simularem divergências: "Temos assistido a uma espécie de 'jogos florais de Verão' entre PS e PSD. Encenaram uma crise política, para melhor camuflar as suas conivências. Se com o PS nada mudou com o PSD e CDS nada mudará", disse.
Em matéria de presidenciais três parágrafos do seu longo discurso foram suficientes para deixar claro o objectivo da candidatura de Francisco Lopes: "Uma candidatura empenhada na denúncia da prática negativa do actual Presidente da república e na contribuição para a derrota do candidato de direita".
Uma candidatura, disse Jerónimo de Sousa, "liberta de apoios dos que são responsáveis pelo caminho de injustiças, exploração, retrocesso social e declínio económico da vida nacional", numa demarcação da candidatura de Manuel Alegre, apoiada pelo PS.
Francisco Lopes subiu ao palco juntamente com os restantes membros dos órgãos dirigentes do PCP e ouviu atentamente o discurso do secretário-geral, numa posição de algum destaque, na fila da frente do grupo de dirigentes e convidados.