Esta é a quarta de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim de Outubro - alguns dos personagens em que votamos. Há três semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o terceiro caso em análise: o de Paulo Portas.
Ter mundo
Imagino muito trabalho para o escritor que tivesse a ideia de criar um personagem como Paulo Portas. Abundantes rascunhos, tentativas frustradas, sobreposição de dados. Enfim, imagino que seria sobre a candura original do (pessoano) "menino de sua mãe" que a figura do lutador apareceria. Muito antes do Independente já Portas era, de facto, um livro aberto sobre o qual se iam encenando diversos talentos. As suas vocações de cinéfilo, jornalista, esteta, comunicador ou político sempre acabaram por contrastar com o pano de fundo - um bordado bem mais brando - em que se desenhavam. Daí que o escritor que concebesse Paulo Portas como personagem tivesse que deixar o pano de fundo demasiado à mostra. Sobre esse livro aberto - que todos vêem, mas que ninguém descodifica até ao fim -, brotaria então a imensa energia do personagem. E o seu multifacetado e complexo mundo. Não, não é um personagem fácil. Pelo menos, é bem mais intrincado do que Manuela Ferreira Leite ou José Sócrates.
Ter futuro
Paulo Portas é um personagem relativamente misterioso. Não se entenderá nunca bem o futuro que lhe está reservado nas narrativas que (ele próprio - ao arrepio do criador) percorre. O personagem teria que ser daqueles que rapidamente descobrem os seus próprios caminhos, deixando o escritor (que o inventou) ligeiramente perdido. É por isso que um pequeno partido se adequa a este tipo de perfil. Uma voz que protesta e que se ouve no presente, mas que, por natureza, dificilmente poderá preencher a palavra que mais jus faz ao futuro: a confiança. Portas é um personagem de catarse, de inspiração, de clímax. Ao contrário de um personagem que propusesse um futuro em que todos acreditam (ou seja: alguém correcto, tranquilo e com afeição para um desenlace melodioso), Portas denota clara inclinação para um ininterrupto vórtice em jeito de clímax. Se Portas se adequa a um pequeno partido, duvido, no entanto, que esse partido seja o PP. Sempre duvidei.
Ter estrela
Se há papel a que Portas se adapta como peixe na água é o da comunicação. Seja em que perspectiva e em que lugar for. O personagem nasceu no meio da frase bem recortada e faz da proporção - afirme o que afirmar - o seu território pleno. O que diz, diz bem. Muitas vezes, há alguma ira que reflecte vestígios de extrema solidão. Mas essa valia é própria dos actores e personagens que desvelam várias intrigas num único plano. É por isso que nem sempre o que diz corresponde ao que parece querer dizer. Embora - repito-o - o diga bem. Personagem complexo, claro. Nem sempre persuasivo, mas inevitavelmente apelativo. É um personagem que não gerando crença, gera adrenalina. A energia da cena. Para o melhor ou para o pior. E nem sempre sabe perder, por causa do mimo do seu mito original (e algo pessoano).
Ter um desejo mobilizador
O misterioso e o encanto vivem, muitas vezes, sem se entenderem. Paulo Portas não conseguiu nunca propor um desejo em que milhões se revissem, pelo simples facto de que ele é a mobilização. Pelo simples facto de que ele é o desejo. Neste caso particular, Portas não é um político como os outros, mas um esteta. Quando surge em público, a prestação começa e acaba em si e raramente se transpõe para além do que comunica. A comunicação que cria cabe apenas na comunicação criada. Nada parece sobrar que projecte mobilização. O que deve ser fantástico para os seguidores indefectíveis. Mas o que é terrível para quem poderia - um dia - vir a ser um seu seguidor. O misterioso e o encanto apenas pactuam na arte, não - ou raramente - na política.
Ter retaguarda
Paulo Portas expõe-se, mas controla como poucos o que mostra. O que não mostra torna-se forçosamente parte do imaginário: do 'diz-se diz-se'. Um 'diz-se diz-se' geralmente pejorativo, próprio dos mortais. Qualquer coisa com que o personagem vive bem. É essa, aliás, uma das suas maiores forças. Mas também de alguma ferida (visível).
Estar aberto à contingência
Este é outro campo em que Paulo Portas é mestre: maleabilidade quanto baste. Aparece e desaparece de cena, como muda ou transfigura (nem sempre da melhor forma)... quer o nome do partido, quer aquilo que advoga. Mas tenta, de modo persistente, manter incólume uma mínima base comum. O que lhe permite ligar os passados e o presente com coerência. Face à contingência, Portas brilha como poucos outros da concorrência. Personagem de clímax é assim mesmo.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor
Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Setembro de 2009