Sua santidade o arcebispo de Pec, metropolitano de Belgrado e de Karlovic, patriarca Pavle da Igreja Ortodoxa sérvia, nascido Gojko Stojcevic de um casal de camponeses na aldeia de Kucanci, parte do Império Austro-Húngaro de então e da Croácia de hoje, que morreu de síncope cardíaca no passado dia 15 de Novembro na Academia Médica Militar de Belgrado onde passara dois anos de pouca saúde durante os quais delegara as suas obrigações, havia feito o liceu em Belgrado, estudara depois no seminário de Sarajevo, refugiara-se durante a II Grande Guerra no mosteiro da Santíssima Trindade em Ovcare e, embora piedoso desde menino, talvez não tivesse optado pela vida monástica, como fez em 1946, tomando o nome de Pavle (Paulo, em português) se tivesse melhor saúde e houvesse aguentado os rigores da construção civil onde arranjara trabalho em Belgrado. Assim, seguiu carreira eclesiástica brilhante, subindo todos os degraus da hierarquia da sua Igreja: chegando a bispo de Prizen em 1957, antes de ser escolhido para 44º patriarca em 1990.
A diocese de Prizen incluía todo o território do Kosovo e, dada a história dessa província durante o século que quase coincidiu com a sua vida, os trinta e três anos em que dela se ocupou acentuaram nele um traço comum a muitos ortodoxos sérvios: a identificação quase integral de fé religiosa e sentimento patriótico.
O seu predecessor tivera que desenvolver considerável actividade diplomática ao lidar com as autoridades comunistas de Belgrado (era um comunismo diferente do da União Soviética mas era comunismo) mas as dificuldades com que o patriarca Pavle se confrontou quando a Federação Jugoslava se dissolveu foram provação muito maior. Homem virtuoso e atento aos pobres, recusou-se sempre a ter automóvel dizendo que não compraria um até que todas as famílias de Kosovo e Metohija, sérvias ou albanesas, tivessem um também.
Teólogo altamente considerado, autor de escritos litúrgicos importantes, organizador da primeira tradução do Novo Testamento em servo-croata aprovada pela Igreja Ortodoxa Sérvia, viu-se apanhado no torvelinho de razões e paixões do ramalhete de guerras civis e religiosas que brotaram da dissolução da Jugoslávia e alinharam católicos croatas contra sérvios ortodoxos e qualquer deles (às vezes os dois juntos) contra muçulmanos da Bósnia-Herzegovina. As razões principais dessas guerras estavam longe de ser religiosas mas políticos oportunistas procuraram - e muitas vezes obtiveram - apoio de homens de Deus igualmente apossados de patriotismo fanático que em vez de contribuírem para a pacificação dos conflitos os exacerbaram. Houve-os dos três lados, como dos três lados houve outros homens de Deus que tentaram conservar ou recuperar a paz.
O patriarca Pavle procurou manter-se acima de isto tudo, nem sempre o conseguindo inteiramente. A experiência do Kosovo que conhecera quando era província autónoma e rufiões da maioria kosovar assediavam a minoria sérvia, agredindo homens, violando mulheres, profanando santuários - ele próprio, então bispo de Prizen, fora um dia sovado na rua - marcá-lo-ia para sempre. Dir-se-ia que o sofrimento das vítimas sérvias das guerras jugoslavas dos anos 90 ocupava lugar maior no seu coração do que o sofrimento de vítimas de outras nações. Em 2000, depois do Governo de Belgrado ter cedido aos bombardeamentos da NATO e abandonado o Kosovo, instou publicamente o ditador Milosevic a demitir-se, o que facilitou o derrube deste pela população civil - mas antes disso, embora muitas vezes tivesse condenado a violência interétnica ("só o Diabo ganha com esta guerra" disse em 1992) nunca condenou a política ultranacionalista de Slobodan Milosevic, uma das causas certas da descida aos infernos da região.
Nunca dera o seu acordo a uma visita do Papa à Sérvia. Em 2005, para escândalo de muitos sérvios liberais, esteve num comício da extrema-direita. O Governo de Belgrado declarou por ele três dias de luto nacional.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009