| Patos e pratos |
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Patinhos
Lavariz (Montemor-o-Velho)
Est. Nacional 111
Tel. 239 623 535
(fecha domingos ao jantar e segundas)
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Vindos de
Coimbra pela velha N-111 em direcção à Figueira da Foz, vão-se sucedendo São João do Campo, São Silvestre, Quimbres, São Martinho de Árvore, povoações do tradicionalmente chamado Campo do Mondego ou Campo de Coimbra. Logo a seguir, os cruzamentos para Tentúgal (a dos pastéis e do verso de António Nobre "Tentúgal toda a rir de casas brancas"), para Meãs e para a Carapinheira. Atenção, que vai aparecer a placa assinaladora do
lugar de Lavariz. Depois desta, uma rotunda, e após a saída vê-se um casarão do lado esquerdo cujo letreiro em evidência anuncia "
Arcão Velharias". É aqui que nos interessa estacionar, embora a tabuleta do
restaurante Patinhos, por perpendicular à estrada, se deixe dificilmente ver. Estamos a cerca de 4 quilómetros de
Montemor-o-Velho.
Transposta a porta, depara-se-nos do lado direito um acurado local de espera com sofás e poltronas, pela esquerda um balcão encimado por três grandes quadros (representando Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz) da autoria do consagrado e sempre jovem Mário Silva. Salão amplo (acomoda 90 manducantes) e de condizente pé-direito, bem cuidado, uma das paredes laterais em vidro, a outra em tijolos e o resto branco tal como o tecto, chão de tijoleira com faixas de pedra e madeira, lareira. Mesas desafogadas, atoalhadas a branco ou castanho atravessado por chemin, guardanapos evidentemente de pano, loiça, faqueiro e copos apropriados.
A lista de comidas propõe 7 Entradas (incluindo 3 Sopas), 5 pratos de Peixe (contemplando apenas bacalhau, polvo e enguias), nesta altura talvez já reforçados com a lampreia, muito praticada para estas bandas, e 7 de Carne (três de pato, a justificarem o nome da casa, dois de porco, cabrito e vitela).
Vamos aos trabalhos práticos. Os "carapaus de escabeche" (€3), pequeninos, branquinhos no interior, foram mimoseados com um molho de componentes muito bem doseados. A "sopa de peixe" (€2,80) com pedacinhos de cherne e massinha de cotovelinho, engrossada sem exagero, sólida, saborosa. Acompanhado por uma saladinha, revelou-se muito agradável o "folhado de aves" (€2,50), o respectivo picado a rechear o invólucro de espessura milimétrica.
O "cremoso de bacalhau com gambas e espinafres" (€12,50), teoricamente interessante, não correspondeu totalmente ao que se esperava dele: necessitava de mais um pouco de molho e da consequente maior cremosidade aglutinante. No "bacalhau com broa" (€12,20), esta, tostada do forno e azeitadinha, a cobrir o gadídeo e a cebola, sem batata e com um toque de noz-moscada, num prato curioso e aprovado. Rigoroso, somente pão no fundo e nos lados da tigela, o "ensopado de enguias" (€13) teve-as em troços qualificados, no habitual guisado de cebola, tomate e pimento, bom e pouco puxado. Relativamente inocente, sem grandes temperos, a suscitar agrado em sua autenticidade, o "pato mudo assado no forno" (€12,20), competentemente assessorado por batatinha assada e migas com feijão-frade, mais uns naquinhos de laranja para possível desenjoo. Com idêntica companhia, ao "cabrito assado no forno" (€13), honesto, faltou-lhe um golpe de asa. O "arroz malandrinho de pato e miúdos do mesmo" (€11,50) não foi avaro do marreco e das moelas, a malandragem era decente, nada alagada, e o teor de sapidez elevado.
Há um octeto de doces, cujas provas se revelaram positivas. Não quero deixar de aplaudir a inclusão dos regionais e conventuais "pastel de Tentúgal" e "queijada de Tentúgal", que estiveram perfeitos, só ultrapassáveis poeticamente na quadra de Alberto Osório de Castro (1868-1946): "O duplo manjar-branco do seu seio,/ Biquitos de um dourado d'arrufada,/ Tinham mais mel e mais fino recheio/ Que os pastéis de Tentúgal e a queijada." Carta de vinhos satisfatória, com datas: 67 tintos, 21 brancos, 8 verdes, 15 espumantes, 2 champanhes. Serviço feminino e fardado, diligente e amável.
Este Patinhos abriu em 2004, por iniciativa de Paulo Queda e sua mulher Rosa Margarida, responsável pela cozinha. Antes de se tornar proprietário deste, o casal estivera dez anos à testa do restaurante que funcionava na cave de A Pousadinha, afamada pastelaria de D. Cacilda Amaral Craveiro Correia, para o lado de Tentúgal. Agora, proporcionam aqui uma culinária correcta e séria, num enquadramento atraente.
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010