Depois de uma semana em que conseguiu (com mérito) manter a serenidade e conter os ímpetos daqueles militantes do PSD que queriam que a cowboyada da negociação do OE para o próximo ano acabasse em tiroteio fatal, eis que Passos Coelho volta a falar demais.
Note-se que considero que a entrevista dada à Revista Única é, globalmente, uma entrevista positiva. Define os traços gerais da linha de actuação do PSD nos próximos tempos, numa tentativa de demarcação do modelo social e económico defendido pelo PS.
Esta conversa com o líder do PSD - há que enquadrá-la! - tem um tom quase intimista, falando do seu currículo político e percurso pessoal e insere-se num conjunto de diálogos com várias personalidades, da autoria de Clara Ferreira Alves para a revista do Expresso. Não é, portanto, uma entrevista com um jornalista especialista em economia ou da área da política (que, provavelmente, seria mais difícil para o entrevistado).
Qual foi, então, o erro de Passos Coelho? Afirmar que estará preparado para governar com o FMI. Acreditando que Passos Coelho não é tão naif para achar que tais declarações iriam passar despercebidas, teremos de concluir que pretendeu deixar uma mensagem política - a de que está convicto da inevitabilidade da intervenção do Fundo Monetário Internacional. Ou seja, o líder da oposição, numa altura em que é necessário reunir esforços para o país evitar intervenções de organismos internacionais, dá a entender que a ajuda externa é uma fatalidade!
Mais: Passos Coelho matou a sua estratégia. É que - recordemos! - o Orçamento foi viabilizado pelo PSD para acalmar os mercados internacionais e, por esta via, evitar a vinda do FMI. Apenas por essa razão - o PSD, como a actual direção política faz questão de recordar à exaustão, discorda das soluções constantes da Lei do Orçamento. Perguntamos: então, se a vinda do FMI é muito provável e é um cenário que não devemos diabolizar, por que razão se viabilizou o OE 2011, discordando dele? Para evitar vinda do FMI? Aparentemente, segundo o líder do PSD, o resultado da não viabilização seria exactamente o mesmo...
O que Passos Coelho deveria ter dito?
É verdade que na entrevista, Passos Coelho ainda diz que podemos resistir. Mas da como a forma como o faz, deduzimos que pensa que a nossa resistência é o cenário mais irrealista. De facto, a mensagem de Passos é a seguinte: estamos preparados para governar com o FMI; trabalharei com ele por um período não inferior a 4/6 anos - mas ainda podemos resistir. Errado. Errado. Errado.
Um líder da oposição responsável diria antes: Portugal tem capacidade para resistir; nós temos uma situação diferente da Irlanda; confiemos nas instituições democráticas portuguesas para resolver; o momento da clarificação política chegará - se o recurso ao FMI for o melhor para Portugal, não será o fim da Pátria, mas é um cenário que, neste momento, não colocamos. Acreditemos em nós. Portugal. Passos Coelho anda com as premissas e as prioridades trocadas...
P.S - Cresce nos políticos portugueses a tendência pró-FMI. Razão: diz-se que os políticos portugueses, enredados nos seus interesses e passado, não serão capazes de tomar as medidas adequadas para equilibrar as nossas finanças. Será que não percebem que estão a atestar a sua própria incompetência?