Não sei se sabem, que o Tribunal do Santo ofício (tribunais da Inquisição que não eram permanentes, sendo instalados quando surgia alguma heresia e logo após desinstalados), analisaram cuidadosamente aquele que é agora um dos marcos da nossa Cultura portuguesa, obra de um dos poetas mais considerados - Luís de Camões.
É verdade, os Lusíadas, não fossem eles, coisa do demo ou que tal, foram analisados verso a verso, no Mosteiro de S. Domingos pelos juízes do Tribunal da Inquisição.
Por causa de "um erro numa página" Damião de Góis viu proibida a venda da sua crónica do "Felicissimo Rei D. Manuel I", durante 5 anos. Demorou tempo, o Bispo D. António Pinheiro a corrigir o erro!
O padre António Vieira foi preso pela Inquisição, por defender abertamente nos seus escritos os cristãos novos e criticar a forma de actuar dos dominicanos do Santo Ofício.
O dramaturgo Antonio José da Silva "O Judeu" foi preso e torturado juntamente com a mãe, esposa e filha. Foi degolado e queimado num auto de fé no Terreiro do Trigo em Lisboa em que ambas foram igualmente queimadas vivas.
Claro que a barbarie destes actos, não se poderia perpetuar no tempo e na evolução histórica social e cultural do ser humano e, muito menos, em Portugal, um País pioneiro na abolição da pena de morte.
É certo que ainda no Estado Novo, as tão conhecidas 3 marias - Maria Velho da Costa
, Maria Teresa Horta
e Maria Isabel Barreno
, viram-se envolvidas num processo judicial que ficou famoso devido à publicação da sua obra conjunta "Novas cartas portuguesas
", que conteriam partes pornográficas e imorais.
Ao que consta, a obra em questão, faz uma crítica mordaz e feminina ao patriarcalismo lusitano e à condição da mulher em Portugal .
Pois é.
Ousar pensar pela própria cabeça é um acto que se paga caro em certas circunstâncias.
Mais ainda se quem ouve o pensamento não está culturalmente preparado para o ouvir e receber.
Normalmente, sente-se atingido pelo pensar diferente e oposto, aquele que se sente frágil face a esse pensar e que, não admite ser afrontado com criticas ou análises à sua conduta e, à sua personalidade que acaba por ser apenas a forma como os outros o vêem.
Por outro lado, existe em todos o medo de escrever determinadas coisas porque poderão não passar na censura.
Tal condiciona a actividade dos escritores, que não sabem se as suas obras serão apreendidas ou não.
Todos sabemos que os jornalistas foram desde sempre uma das classes mais visada com este género de auto-censura, ao recair sobre eles a responsabilidade de que o jornal não atrasasse a sua tiragem por causa de alguma frase mal pensada ou temerária.
Grandes ( hoje) escritores, viram-se atingidos pela censura, espiolhados pela policia politica como por exemplo : Aquilino Ribeiro e os seu "Quando os Lobos uivam" ou Soeiro Pereira Gomes, José Régio, Maria lamas, Urbano tavares Rodrigues, Alexandre O'Neil ..... tantos e tantos outros, para mencionar só alguns.
Cada um de nós quando escreve, põe no que escreve um toque de auto censura, uma procura de não dizer o inoportuno e apenas o que corresponde à realidade.
Deve haver em nós o cuidado de não atingir a verdade tornando-a mentira, mas não pode haver em cada um de nós, o medo de escrever o seu sentir, ainda que se corra o risco de estar errado e, desde que e sempre, isso não colida com a liberdade do próximo.
Claro que cada um de nós é responsável pelo que escreve. E, claro que, num Estado de Direito cada um deve escrever livremente sujeitando-se depois à hipotética situação de responder em Tribunal por um crime de difamação e, ter de fazer a prova da verdade dos factos.
Mas antes isso, que ver rasgado o escrito antes de publicado.
Antes isso que ver um caso de Justiça ser transformado num caso politico.
Era o que deveria ter acontecido com Mário Crespo.
Publicaria a sua crónica, que tem idade e estatuto para suportar as eventuais consequências da mesma, e o Sr. Primeiro Ministro, sem comentários e. caso entendesse que estava a ser atingido na sua honra e consideração, recorreria aos Tribunais onde, ou Mário Crespo faria a prova da verdade dos factos e seria absolvido ou, não a fazendo (e caso houvesse na verdade, algum crime), responderia pelo mesmo e, pelo mesmo seria condenado.
É tão simples quanto isso.
Querer pintar de azul uma "solução", é que não é forma sem dúvida de um Líder de um Estado Democrático reagir.
A coragem e a serenidade de se ver "falado", dar-lhe-iam a força e a razão sobre o que quer que fosse publicado.
A Liberdade de reagir, está ao nível da liberdade de agir.
E a responsabilidade da acção, sujeita-se ao peso da reacção à mesma.
A cultura democrática de um, Estado Livre, que não ainda culto, assim o exige.
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ACCB