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Partido Comunista, arte africana e José Saramago

8:00 Segunda feira, 8 de dezembro de 2008

INFERNO

Partido Comunista

Como explicar a sobrevivência e, mais do que a sobrevivência, o espantoso crescimento do Partido Comunista Português?

Com o finado XVIII Congresso do partido, diversos especialistas explicaram a longevidade da múmia e procuraram convencer-nos que o PCP resiste por motivos vários: pela sua história como oposição à ditadura salazarista; pela sua base essencialmente trabalhadora e rural, que continua a identificar-se com o partido; pela sua natureza nacional, ou seja, imune às derrocadas do Leste; e até, imagine-se, pela deslocação do PS para a direita, o que permitiu abrir um certo espaço à esquerda dos socialistas.

Infelizmente, os sábios não acrescentaram uma última explicação: o nosso absoluto atraso político e uma confrangedora falta de vergonha moral.

Porque só o atraso e a desvergonha explicam um partido que, depois das calamidades comunistas do século XX (oitenta milhões de vítimas?, cem?, cento e cinquenta?), apresenta resoluções programáticas onde, depois de saudações efusivas a tiranias como Cuba ou Coreia do Norte, se propõe "construir a sociedade nova" por via revolucionária, ou seja, violenta.

Num país com sentido da História, e até da decência, isto seria o descrédito total: o mesmo tipo de descrédito que esmagaria um hipotético Partido Fascista se este, de braço estendido, saudasse Hitler ou Mussolini, antes de passar às suas teses "rácicas" e "anti-semitas".

O PCP, o nosso PCP, não é apenas uma relíquia estalinista, assaz esquálida e embaraçosa. É a prova acabada de que Portugal não se respeita.

PURGATÓRIO

Arte africana

Não vale a pena sublinhar e voltar a sublinhar a importância da arte africana na construção da modernidade europeia. Qualquer caloiro de História da Arte aprende nos primeiros dias de aulas que sem a "negrofilia" de inícios do século XX não haveria Matisse, não haveria Picasso. E não haveria a música, a dança, a fotografia ou o cinema que fizeram da História da Arte novecentista essa poderosa mistura de vanguarda e "primitivismo".

Dito isto, por que raio o Estado português tenciona abrir e pagar um Museu de Arte Africana Contemporânea em Lisboa? Vozes oficiais garantem-nos que o museu reforça o papel de Portugal como elo de ligação entre a Europa e o continente africano. O argumento é poético, sentimental, paternal, a roçar o neocolonial: não cabe a um obscuro e pobre país europeu a consagração oficial dos filhos dos outros.

A Portugal está reservado um papel mais modesto e, no verdadeiro sentido da palavra, mais primário: em primeiro lugar, não consagrar o "contemporâneo" com dinheiros públicos e entender, de uma vez por todas, que as expressões artísticas contemporâneas devem fazer o seu caminho crítico ou popular sem esmolas do Estado; e, em segundo lugar, cabe-nos recuperar e mostrar o nosso próprio património artístico, um gesto caridoso que implica pessoal, informação e meios. Ou seja, o que normalmente falta.

E África? África, ao contrário do que pensam as nossas sumidades, já não nos pertence. E não nos assiste nenhuma espécie de superioridade moral ou cultural para fazermos por África o que ela deve, e em alguns casos pode, fazer por si mesma. Chega de complexos.

PARAÍSO

José Saramago

Saramago é bom quando não perde tempo a pregar. Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis (uma obra-prima) são bons exemplos da excelência do homem quando ele suspende a ridícula importância a que se concede. Os romances pós-Nobel, alimentados por uma grandiloquência moralista e infantil, são francamente ilegíveis e até ridículos: A Caverna ou Ensaio sobre a Lucidez são tão politicamente primários que nenhuma qualidade estética os salva.

Por isso, brindo à publicação de A Viagem do Elefante (Caminho), o melhor romance desde o Nobel e seguramente um dos melhores romances de Saramago. História simples? Só à primeira vista: em 1551, D. João III resolve presentear o seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, com uma oferta memorável. A oferta é um elefante, Salomão de seu nome, que da Índia atracou em Lisboa e que irá agora, por terra e rio, de Lisboa para Viena. Partindo destes factos históricos, o livro é o relato, delicioso e deliciosamente irónico, da viagem lenta de Salomão, guiado pelo seu cornaca e perfeitamente indiferente às vaidades hierárquicas dos oficiais que acompanham os seus pesados passos.

Uma aventura, se quisermos, pela Europa pós-reformista de meados do século XVI, que na tela de Saramago ganha contornos pícaros e oníricos. Termina tudo em festa, com uma Viena rendida ao paquiderme. O exacto paquiderme que, pouco depois, cumprindo a lei natural da vida, deixará o mundo dos vivos para ver as suas patas transformadas em elegantes bengaleiros, daqueles que servem para guardar sombrinhas e chapéus-de-chuva.

É uma bela metáfora sobre a nossa condição: depois das viagens todas desta vida, terminamos assim. Em pouco. Em nada.

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PCP democrático?
Liberto Dias (seguir utilizador), 1 ponto , 22:27 | Terça feira, 9 de dezembro de 2008
Concordo com JPC sobre a caracterização da natureza profundamente totalitária do PCP, partido que nunca foi democrático, não o é, e certamente jamais o será.
O PCP perfilha uma concepção do mundo de matriz mecanicista e idealista (determinismo histórico), não humanista e de luta de classes, uma teoria de partido leninista (vanguardismo, tomada do poder por qualquer metodo, ditadura do "proletariado", centralismo "democrático" ,etc...) que deu os conhecidos resultados opressivos e de miséria para os povos do Leste Europeu até 1989, e de Cuba e da Coreia do Norte até hoje.
O crescimento da ideologia e do proprio grupo não é assim tão "espantoso" como afirma o articulista. Tem alguma expressão mas é conjuntural, como os doentes terminais que melhoram antes do fim...
Mas também não há razões para optimismos democráticos...
Esses grupos que detestam a democracia espreitam a crise.
Assim foi historicamente com a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 num perído de grande desemprego e angustia social.
Os maiores inimigos do comunismo e da extrema-direita são sempre a saúde das economias e o bem estar dos povos. O principal aliado dos extremistas a crise económica e o desemprego, ao que acresce a acção nefasta de alguns políticos "democraticos" oportunistas e corruptos e o capitalismo de Casino, desregulado e sem valores sociais.
Este momento é sem dúvida mais favorável às forças antidemocráticas.

Quanto ao PCP nada ter a ver com os regimes de Cuba e da Coreia bastará ler (para quem tiver dúvidas) as teses do Congresso onde aparece claramente o que eles pensam e perseguem.
O nacionalista PCP defendeu a teoria da "soberania limitada" para os povos de Leste,apoiou a violenta repressão do povo hungaro em 1956, aplaudiu o esmagamento da Primavera de Praga em 1968 (com o secretario geral do PCC DubceK a ser transportado para Moscovo de avião, sob prisão, humilhado e algemado ), conheceu e silenciou os metodos criminosos de Estaline, aplaude agora a ditadura fidelista e a monarquia vermelha do Coreia do Norte . E muito mais...
Em Portugal o PCP procurou na primeira fase uma aliança Povo-MFA para tentar acabar com o regime pluralista e parlamentar e tentou que eleições constituintes de 1975 fossem "adiadas"...Nesse ano Portugal esteve à beira da tragédia de uma guerra civil...
O PCP sobreviveu politicamente até hoje à custa de um eficiente aparelho de centenas de políticos profissionais, pagos pelo dinheiro dos sindicalizados e dos proprios contribuintes, também por razões estruturais de atraso e porque a direita portuguesa é das mais ignorantes e superficiais da Europa,com uma baixíssima formação cívica, o que lhe oferece multiplos argumentos ...
É evidente que o PCP goza hoje de uma "boa imprensa", dos complexos de esquerda de tantos "anti-fascistas", é também exímio no taticismo o que o leva a seduzir "naifs" de vários matizes para as suas lutas "unitárias".
A par do atraso secular e da baixa escolarização do País, o comunismo primário do PCP é também uma das mais graves doenças da sociedade portuguesa.
 
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    Re: PCP democrático?    Ver comentário
Dunca (seguir utilizador), 1 ponto , 23:32 | Terça feira, 9 de dezembro de 2008
O terceiro motivo
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 23:21 | Terça feira, 9 de dezembro de 2008
Nunca houve comunistas mas sim comunizados e comunizadores, isto é, mentalizados e mentalizadores. Os verdadeiros comunizadores portugueses ( que praticamente continuam desconhecidos) sempre foram muito poucos mas muito bons, e esse é um dos motivos que explica a sobrevivência do Partido. Outro motivo é que as emoções que animam os comunizados nacionais são basicamente aquelas paixões simples e duradouras que se encontram nos grupos folclóricos ou entre escuteiros e peregrinos. O terceiro motivo é tão conhecido e negado que nem precisa de ser lembrado.
 
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    Re: O terceiro motivo    Ver comentário
amboiva (seguir utilizador), 1 ponto , 13:26 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
censura?!?...nao fazia a minima ideia que a faziam
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 6:51 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
 
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    Re: censura?!?...nao fazia a minima ideia que a fa    Ver comentário
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 6:57 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
    Re: censura?!?...nao fazia a minima ideia que a fa    Ver comentário
flyboy (seguir utilizador), 1 ponto , 16:12 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
talvez?!? seja desta, a ver vamos
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 11:01 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
"Como explicar a sobrevivência e, mais do que a sobrevivência, o espantoso crescimento do Partido Comunista Português?"...

talvez seja a FOme, a fome com que o povo Portugues sempre se deparou e ressurgiu agora de uma forma avassaladora eu diria mesmo pornografica, esmagadora. O povo agarra se aos extremos, aos discursos de combate, iludidos com promessa de "eu bem vos disse", tipo pai Tirano.
As massas quando nao pensantes gostam de ser comandadas, gostam de receber ordens, da lhes a sensacao de seguranca e determinacao para seguir em frente...erro crasso, eles so querem o poder

 
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o` coutinho va` para o 24horas e` mais voce..
Carlos da Beca (seguir utilizador), 1 ponto , 20:43 | Quarta feira, 10 de dezembro de 2008
Para o sr. pereira coutinho a direita que defende `e a tal direita saudosista do portugal colonial com que fizeram fortuna.Como diria um camarada meu; em africa todos comiam `a mesa... uns sentados e outros em pe`.
 
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Rebanho fanático?
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 1:20 | Quinta feira, 11 de dezembro de 2008
João Pereira Coutinho atacava e criticava Obama por tudo e por nada. Chegou, há ainda poucas semanas, a escrever no Expresso: “Barack Obama, um candidato com retórica de pastor evangelista que já conseguiu o seu rebanho fanático.” Vejam só rebanho fanático.!! Pastor evangelista! E acrescentou: “ O candidato fala bem; mas é impossível penetrar no nevoeiro retórico da criatura, que deseja o paraíso na terra”. Não eram, então, os comunistas que, irrealisticamente, queriam o paraíso na terra? Seria Obama um deles?

Depois que Obana venceu o discurso de JPC mudou. Rendeu-se à mensagem do “pastor” e escreveu um artigo na semana passada a elogiar o futuro presidente dos EUA, pretendendo integra-se fielmente no “rebanho fanático”.

O PS e o PSD/CDS partilham o poder há mais de 30 anos, rodando sistematicamente (ora o PS ora o PSD/CDS). Neste regime o país tem empobrecido ano após ano, aproximando-se da cauda da Europa já muito perto da ponta de África e a culpa é segundo JPC do Partido Comunista. Porquê? Porque, já se percebeu, JPC gosta é de bater no ceguinho (o que não tem o poder, os que ele acha que nunca lá chegarão) e elogiar os governantes para estar perto do poder. Elogiar quem quer que esteja no poder. Principalmente nos EUA.

Agora que vai governar o candidato que “deseja o paraíso na terra”, ainda o veremos tornar-se um fervoroso comunista, citar Álvaro Cunhal e esquecer-se dos disparates que escreveu esta semana, como já se esqueceu do que escreveu sobre Obama.
 
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Não sei...
manxa (seguir utilizador), 1 ponto , 1:49 | Sábado, 13 de dezembro de 2008
mais, nem de história -minha disciplina favorita, apesar da indisponibilidade constante e permitida!- nem de literatura -meu ponto fraco e ignorante! Por isso resta-me, para além do resto, admitir que o que escreves está bem meditado. Assim, fico-me pelo dizer que é um prazer ler o que tu consegues escrever! Escreve! Escreve como Saramago, ou sobre Saramago, e o Nobel virá, um dia, explodir a sua aversão em compensação da tua diversão!
Sem aversão despeço-me, crente e dependente de mais crónicas inspiradoras, e crente de que no meu Portugal abandonado -escrevendo, aqui de uma Holanda cada vez mais emaciada!- há Gente, brutalmente, fantástica e poderosa. Mesmo que seja na sabedoria mais antiga: a do palavreado! E, eu, palavrão mór, saúdo e antecipo o regresso. Para breve! Para breve! Obrigado! E sem mais sarcasmo! Obrigado!
Ricardo
 
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