INFERNO
Partido Comunista
Como explicar a sobrevivência e, mais do que a sobrevivência, o espantoso crescimento do Partido Comunista Português?
Com o finado XVIII Congresso do partido, diversos especialistas explicaram a longevidade da múmia e procuraram convencer-nos que o PCP resiste por motivos vários: pela sua história como oposição à ditadura salazarista; pela sua base essencialmente trabalhadora e rural, que continua a identificar-se com o partido; pela sua natureza nacional, ou seja, imune às derrocadas do Leste; e até, imagine-se, pela deslocação do PS para a direita, o que permitiu abrir um certo espaço à esquerda dos socialistas.
Infelizmente, os sábios não acrescentaram uma última explicação: o nosso absoluto atraso político e uma confrangedora falta de vergonha moral.
Porque só o atraso e a desvergonha explicam um partido que, depois das calamidades comunistas do século XX (oitenta milhões de vítimas?, cem?, cento e cinquenta?), apresenta resoluções programáticas onde, depois de saudações efusivas a tiranias como Cuba ou Coreia do Norte, se propõe "construir a sociedade nova" por via revolucionária, ou seja, violenta.
Num país com sentido da História, e até da decência, isto seria o descrédito total: o mesmo tipo de descrédito que esmagaria um hipotético Partido Fascista se este, de braço estendido, saudasse Hitler ou Mussolini, antes de passar às suas teses "rácicas" e "anti-semitas".
O PCP, o nosso PCP, não é apenas uma relíquia estalinista, assaz esquálida e embaraçosa. É a prova acabada de que Portugal não se respeita.
PURGATÓRIO
Arte africana
Não vale a pena sublinhar e voltar a sublinhar a importância da arte africana na construção da modernidade europeia. Qualquer caloiro de História da Arte aprende nos primeiros dias de aulas que sem a "negrofilia" de inícios do século XX não haveria Matisse, não haveria Picasso. E não haveria a música, a dança, a fotografia ou o cinema que fizeram da História da Arte novecentista essa poderosa mistura de vanguarda e "primitivismo".
Dito isto, por que raio o Estado português tenciona abrir e pagar um Museu de Arte Africana Contemporânea em Lisboa? Vozes oficiais garantem-nos que o museu reforça o papel de Portugal como elo de ligação entre a Europa e o continente africano. O argumento é poético, sentimental, paternal, a roçar o neocolonial: não cabe a um obscuro e pobre país europeu a consagração oficial dos filhos dos outros.
A Portugal está reservado um papel mais modesto e, no verdadeiro sentido da palavra, mais primário: em primeiro lugar, não consagrar o "contemporâneo" com dinheiros públicos e entender, de uma vez por todas, que as expressões artísticas contemporâneas devem fazer o seu caminho crítico ou popular sem esmolas do Estado; e, em segundo lugar, cabe-nos recuperar e mostrar o nosso próprio património artístico, um gesto caridoso que implica pessoal, informação e meios. Ou seja, o que normalmente falta.
E África? África, ao contrário do que pensam as nossas sumidades, já não nos pertence. E não nos assiste nenhuma espécie de superioridade moral ou cultural para fazermos por África o que ela deve, e em alguns casos pode, fazer por si mesma. Chega de complexos.
PARAÍSO
José Saramago
Saramago é bom quando não perde tempo a pregar. Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis (uma obra-prima) são bons exemplos da excelência do homem quando ele suspende a ridícula importância a que se concede. Os romances pós-Nobel, alimentados por uma grandiloquência moralista e infantil, são francamente ilegíveis e até ridículos: A Caverna ou Ensaio sobre a Lucidez são tão politicamente primários que nenhuma qualidade estética os salva.
Por isso, brindo à publicação de A Viagem do Elefante (Caminho), o melhor romance desde o Nobel e seguramente um dos melhores romances de Saramago. História simples? Só à primeira vista: em 1551, D. João III resolve presentear o seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, com uma oferta memorável. A oferta é um elefante, Salomão de seu nome, que da Índia atracou em Lisboa e que irá agora, por terra e rio, de Lisboa para Viena. Partindo destes factos históricos, o livro é o relato, delicioso e deliciosamente irónico, da viagem lenta de Salomão, guiado pelo seu cornaca e perfeitamente indiferente às vaidades hierárquicas dos oficiais que acompanham os seus pesados passos.
Uma aventura, se quisermos, pela Europa pós-reformista de meados do século XVI, que na tela de Saramago ganha contornos pícaros e oníricos. Termina tudo em festa, com uma Viena rendida ao paquiderme. O exacto paquiderme que, pouco depois, cumprindo a lei natural da vida, deixará o mundo dos vivos para ver as suas patas transformadas em elegantes bengaleiros, daqueles que servem para guardar sombrinhas e chapéus-de-chuva.
É uma bela metáfora sobre a nossa condição: depois das viagens todas desta vida, terminamos assim. Em pouco. Em nada.