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Equívocos em torno de dinastias políticas.

Parece, mas não é.

Esta crónica do Pedro Lomba parece original - mas não é. Parece analítica - mas não é. Parece explicativa - mas não é. Parece pertinente - e o problema que levanta é-o, sem dúvida. Mas a resposta não está lá.

Vasco Campilho
18:30 Terça feira, 19 de janeiro de 2010

A crónica que Pedro Lomba publicou hoje no Público oferece-nos uma curiosa interpretação da história política da nossa democracia. Quatro dinastias políticas ter-se-ão sucedido no poder: os históricos; os professores; os discípulos; e os chefes de partido. Esta tipologia decadentista das lideranças do Portugal democrático serve para apelar ao aparecimento de uma Quinta Dinastia, "portadora de outra autoridade", apelo no qual o Vasco Barreto detectou e bem uma clara dimensão messiânica.

Trata-se de uma tipologia que de original tem muito pouco. Quem quer que tenha lido "O fim das ilusões, as ilusões do fim" , de Joaquim Aguiar, reconhecerá um parentesco acentuado desta tipologia com a classificação que nesse livro ele propõe: aos fundadores sucedem os herdeiros, e a estes os funcionários.

Acresce que a tipologia proposta por Joaquim Aguiar tinha verdadeiras qualidades analíticas: já a de Pedro Lomba apresenta grandes fragilidades. Os históricos apenas o são por já ter passado muito tempo - ou talvez por terem sido fundadores do regime. Os professores resumem-se a um só líder, Aníbal Cavaco Silva, que se apresentou como herdeiro de Sá Carneiro. Guterres não encaixa certamente na categoria de discípulo, nem na de professor, nem na de histórico (herdeiro caía-lhe muito melhor). E chefes de partido foram todos os que lideraram a governação desde 1976, com excepção dos governos de iniciativa presidencial.

A tipologia de Joaquim Aguiar assentava também sobre uma narrativa da vida democrática portuguesa: fundadores do regime que tinham sabido encontrar herdeiros, mas não legar estruturas partidárias que permitissem qualificar novas gerações de quadros políticos, deixando o poder cair na mão de meros funcionários do aparelho. Sente-se funcionar esta narrativa na reflexão de Pedro Lomba, mas a tipologia que ele propõe faz mais para a obscurecer do que o contrário.

Sem qualidades analíticas nem virtualidades explicativas, o exercício de Pedro Lomba tem no entanto um propósito: afirmar que dos percursos partidários nada poderá sair de bom para a liderança da Nação. Curiosa posição, sendo que por todo o mundo democrático a profissionalização da política é a regra e a emergência de lideranças apartidárias é a excepção - excepção usualmente emparelhada com o populismo e as pulsões autoritárias que ameaçam os regimes democráticos desde os seus primórdios.

A questão que interessa no problema que Pedro Lomba levanta - e que é real - é saber porque é que em Portugal os partidos não têm demonstrado capacidade de formar quadros políticos de qualidade, capazes não apenas de granjear o respeito dos cidadãos mas também de produzir os resultados que se esperam de um regime político funcional. A essa questão, todavia, a crónica do Público não traz qualquer resposta.

 

[adenda]: Um blog costumeiro em covert ops afirmou que aqui se sugeria que Pedro Lomba teria plagiado Joaquim de Aguiar. Isso é, evidentemente, falso: deixei bem claras as relevantes diferenças entre a tipologia proposta por Joaquim Aguiar no seu livro e a avançada por Pedro Lomba no seu artigo. Diferenças para pior, na minha opinião, mas que afastam qualquer possibilidade de plágio. Parece-me plausível, isso sim, que Lomba se tenha inspirado em Aguiar. Mas mau seria se um bom livro não pudesse inspirar um cronista.

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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