Antes de haver CNN ou telemóveis capazes de tirar retratos a qualquer momento, o mundo tinha Robert Capa. Era ele o fotógrafo que trazia da frente de batalha imagens que davam verdade aos noticiários da actualidade.
Do Dia D na praia normanda de Omaha à guerra civil espanhola, das travessuras de Picasso no sul de França passando pelo conflito na Indochina - onde acabou por perder a vida quando pisou uma mina - o fotógrafo de origem húngara vai finalmente ter uma biografia à medida da sua visão grandiosa. Michael Mann, já refeito do embate furioso com o gangster John Dillinger no filme Public Enemies, decidiu fazer da vida de Capa a sua próxima epopeia visual.
Quatro olhos, dois mestres, um destino
Embora não deixe de ser uma notícia inesperada e benvinda - sobretudo numa Hollywood que parece cada vez mais devorada por bonecada e super-heróis - o encontro quase que podia ter sido previsto. Michael Mann e Robert Capa parecem destinados um para o outro.
O fotógrafo teve a vida típica de um meteoro em chamas, com percurso excitante mas que se apagou cedo e tragicamente. Michael Mann, por seu lado e ao longo de uma colecção de aventuras que vincam sempre a determinação humana - sobretudo a que tem temperamento masculino impulsivo - parece torcer sempre pelo heroismo físico, sim, mas que é sempre inspirado por uma fé tão íntima como inexplicável.
Em filmes como O Último dos Mohicanos e Heat-Cidade Sob Pressão, os seus homens sozinhos têm sempre a possibilidade de apostar nesta ou naquela sorte, mas no fim são eles que decidem meter pés ao caminho e ir à luta por meios próprios.
Estúdio de artistas
O filme vai ser financiado pela Columbia, um estúdio que está a ter um ano fantástico em Hollywood. No fim de semana passado, numa estratégia quase pugilística, atirou com a concorrência para o tapete e colocou 2 filmes nos 2 primeiros lugares, entre eles o muitíssimo estimável Zombieland.
Até ao final do ano a Columbia ainda vai estrear o This Is It, protagonizado por um Michael Jackson talvez maior que nunca, e a aventura-catástrofe de Roland Emmerich, 2012, sobre o fim do mundo de acordo com os vaticínios da civilização Maia. Quem já viu diz que o espectáculo é absolutamente gigantesco. Perdão: as palavras que têm sido empregues são Best B-movie EVER!
Aperture: Capa ao perto
O filme de Michael Mann terá por base o livro Esperando a Robert Capa, de Susana Fortes, e segue a relação que capa manteve com uma fotógrafa judia chamada Taro e que se encontrava em Paris fugida à Alemanha nacional-socialista, isto em 1935. Taro acaba por morrer em 1937, durante a guerra civil espanhola, quando, um pouco a oeste de Madrid, os republicanos impôem perdas graves aos soldados republicanos na batalha de Brunete.
Nesse mesmo conflito Capa capta uma das suas imagens mais memoráveis e polémicas, a de um soldado que cai no momento em que é baleado, uma composição fotográfica de tal modo chocante, airosa no movimento, trágica e espiritual que alguns consideram demasiado perfeita para ser autêntica.
O tom do filme que Michael Mann será menos épico que intimista, o que não deixa de ser um bónus duplo. Para a Columbia, o orçamento não deverá chegar aos 50 milhões, aquilo que em Hollywood se chama peanuts quando a acumulação de talento tem esta força. Mas o grande beneficiado é mesmo Robert Capa. Um retrato perto do corpo fica a condizer. O lema dele era só um: se a fotografia não saiu suficientemente boa, então é porque a máquina fotográfica não chegou suficientemente perto.