Ivana Lazarevska nem sabe exactamente o que há-de desejar para o seu futuro de artista plástica. Tem 24 anos e um percurso académico que a faz venerar o professor e que nunca a levou a sair de Skopje. Mas pressente que a participação no maior acontecimento internacional que alguma teve lugar na sua cidade natal lhe mudou a vida: a Bienal dos Jovens Criadores da Europa e Mediterrâneo (BJCEM).
Setecentos jovens de 46 países juntaram-se na edição 2009 da Bienal entre 3 e 13 de Setembro. Apesar do "cliché" que diz que a cultura apaga fronteiras, à partida, não se tem ideia da complexidade da operação. Nem se imagina, a partir de Portugal, França ou Itália (três dos co-fundadores da associação que organiza a bienal, a BJCEM), a dificuldade que passam jovens egípcios, palestinianos ou sírios para obterem um visto que lhes permita viajar "até à Europa". A mesma dificuldade que teriam os macedónios, a que os egípcios chamam "europeus" - sem a noção da diferença entre Balcãs e Escandinávia - para sair para qualquer lado. É só por isto evidente que a importância radical do evento passa pelo encontro destas pessoas, algumas das quais, como Ivana Lazarevska, nem sabe o quanto pode realmente aproveitar disso.
Acontecimento político
O encontro é o resultado de considerável vontade e concertação política. Em geral, os organizadores da Bienal têm origens e funcionamentos diversos nas suas sociedades de origem tendo em comum o facto de associarem poderes, entre financiadores e produtores. Na Macedónia o único financiador foi o ministério da Cultura, e o produtor executivo da AMMS, Associação Internacional para a Cooperação com a Juventude, Emil Mitevski, trabalhou cinco anos para conseguir, entre outras coisas, a logística para um acontecimento inédito no país: 12 locais de apresentação de espectáculos e exposições, 11 acontecimentos por dia num país em que Mitevski sabia que seria "impossível arranjar" os cem projectores de que iriam precisar.
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| Sérgio Cruz, Vídeo |
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O reflexo nas representações dos diversos países é evidente, mas há que ter em conta os critérios usados na selecção dos artistas para fazer uma avaliação justa do conjunto das obras. Não são poucas as vezes em que, mais que condições verdadeiras, o mais visível sejam as idiossincrasias de cada país.
As representações portuguesas resultam de uma selecção dos artistas descobertos no concurso nacional Jovens Criadores organizado pelo Clube Português de Artes e Ideias (CPAI) e pelo Instituto da Juventude. Skope 2009 foi a primeira vez que Portugal participou sem financiamento de Estado, o que Paulo Gouveia, o director do CPAI, insistiu em ver mais como "um investimento" do que um impedimento.
Marrocos é anfitrião em 2011
O grau de experiência torna-se rapidamente evidente, mas o investimento na cultura pode ser lento. É lento. Durante a reunião da associação BJCEM deliberou-se o local de realização da próxima edição, em 2011: Marrocos. Depois da tentativa frustrada de organizá-la no Egipto, em 2007, será a primeira vez que este acontecimento terá lugar num país muçulmano. E isto apesar de a Bienal sempre ter dado atenção à presença das representações do Sul e do Mediterrâneo interior e marítimo, tendo sido responsável pelo primeiro acontecimento cultural que teve lugar em Sarajevo após a guerra, com a Bienal de 2001.
Para que serve então a cultura? Pela importância que lhe é dada pelas nações se pode avaliar as facilidades e dificuldades que os jovens criadores enfrentarão no seu futuro. É fácil criticar as falhas de uma organização inexperiente e com meios precários quando já se experimentaram as falhas relativizadas das organizações experientes. Mas a verdade é que, quer para os jovens criadores quer para os organizadores, poucos serão os passos deste processo que não sejam essencialmente políticos. Trata-se de representações nacionais e em poucos países será mais evidente o isolamento internacional como na Macedónia.
Os políticos macedónios mantêm um discurso relativo aos seus jovens em que fazem depender a abertura das suas políticas internas relativas à parte da cultura que não é património da liberalização de vistos da União Europeia. Como se a circulação dos seus valores jovens não fosse vítima de outro tipo de limitações. Mas o que parece mais importante é perceber que a cultura continua a ser a única hipótese de contacto com o mundo para muitos dos jovens de alguns países cujos nomes vemos no mapa que o representa.