O escândalo do pagamento pela seguradora norte-americana AIG de prémios a 418 dos seus funcionários de topo (52 receberam 33,6 milhões de dólares e o mais afortunado 6,4 milhões!) com verbas do empréstimo de 200 biliões concedido pelo Estado para evitar a sua falência está a levantar nos EUA um coro de compreensíveis protestos e a gerar dificuldades à Administração de Barack Obama.
É indispensável sublinhar que o pessoal beneficiado pertence exactamente ao sector da AIG responsável por aventurosas acções de gestão (os antes chamados 'derivados' e hoje renomeados 'tóxicos'...) que foram as principais e mais directas responsáveis pelo colapso financeiro da empresa - tal, de resto, como noutros casos. Segundo o actual gestor da AIG, Edward Liddy (nomeado após a concessão do empréstimo, note-se), o pagamento era inevitável em função dos preceitos contratuais entre a empresa e esses quadros e o não-pagamento implicaria riscos indemnizatórios brutais para a AIG - posição no essencial reiterada pelo próprio secretário do Tesouro, Thimothy Geithner.
Sob pressão da opinião pública e do próprio Congresso, a Casa Branca mobilizou uma legião de juristas para procurar forma da anular a situação, enquanto do Congresso aparecem propostas de criar leis e impostos exclusivamente dirigidos aos beneficiados, de forma a que o Estado recupere aquelas verbas... A verdade é que não é preciso ser republicano para verificar que houve evidente ligeireza por parte da Administração Obama na definição das condições do empréstimo à AIG não prevendo situações como esta.
Qualquer pessoa se interrogará sobre, fossem quais fossem os contratos, se os prémios porventura teriam sido pagos se a AIG tivesse aberto falência e não tivesse sido salva pelo dinheiro dos contribuintes. A resposta não será linear, uma vez que um processo de falência de um gigante destas dimensões não é igual ao de uma pequena loja, onde pura e simplesmente não há dinheiro, podendo admitir-se que o mesmo acabasse a concretizar o absurdo (de resto, nada que não se tivesse já visto no nosso país).
Mas o absurdo é mais profundo.
Os salários e prémios milionários atribuídos em função dos lucros aos gestores do sector financeiro (lucros essencialmente contabilísticos e altamente instáveis a prazo dadas as características do sector) revelou-se um dos principais responsáveis do desencadear da crise, mas o que é completamente incompreensível é que a administração de uma empresa celebre contratos com quadros em que lhes atribui tais prémios não exclusivamente como incentivo mas em quaisquer circunstâncias, incluindo a de a sua acção ser responsável por prejuízos e até pela falência da empresa! Uma pura irresponsabilização, um prémio ao aventureirismo e à quebra de todas as normas éticas e profissionais, que começa logo nas próprias administrações que desencadeiam o processo.
Em resumo, um quadro que roça a insanidade, uma excelente imagem da irracionalidade atingida pela gestão capitalista, nomeadamente nas últimas décadas de desregulação e especulação. E que aconselha uma atenta vigilância das medidas que vão fazendo o seu caminho em Portugal nos casos BPN e BPP (pelo menos).
Ruben de Carvalho