O João e o Miguel têm 5 anos e são gémeos verdadeiros. Têm exactamente a mesma altura, feições idênticas e sorrisos iguais. As semelhanças ficam por aqui. "Parecem iguais mas só por fora. Tanto no feitio como nos interesses, são muito diferentes", diz Maria José Antunes, educadora de infância e coordenadora do Jardim de Infância do Colégio Dom Pedro V, em Braga.
O que o João mais gosta é de jogar play-station e fazer construções, enquanto o irmão Miguel prefere moldar plasticina, desenhar e pintar. Os gémeos da sala da Maria José, que conta com 25 alunos dos três aos seis anos, são a prova viva de que não existe "um modelo pedagógico pronto-a-vestir, de tamanho único, que sirva a todas as crianças da mesma idade". A máxima é de João Formosinho, director e criador da Associação Criança, instituição sem fins lucrativos que reúne professores universitários e educadores de infância cuja missão é investigar e promover uma alternativa pedagógica que "olhe a criança" como actor da sua própria educação e não como um figurante passivo.
"Ao contrário da visão tradicionalista, as crianças não são um papel em branco onde se colam saberes, cultura e competências. Os bebés são seres com direitos e já nascem com competências que têm de ser despertadas, desenvolvidas e ensinadas, mas ao ritmo das suas motivações e da própria maturação cognitiva", sustenta o líder da Associação Criança de Braga, fazendo coro com a mulher Júlia Formosinho, o seu braço direito no terreno, creches e jardins de infância.
Ambos catedráticos na Universidade do Minho, orientadores de mestrados e doutoramentos em Ciências da Educação, o casal Formosinho concorreu e venceu o Prémio Nuno Viegas Nascimento, de €50 mil, atribuído pela Fundação Bissaya Barreto e sujeito ao tema "Educar para criar: da escola à universidade".
O trabalho da Associação Criança, criada em 1996 e cujo projecto vencedor foi "Escutando Crianças, formando profissionais", não é mais do que o paradigma pedagógico leccionado pelos dois professores aos formandos da Universidade do Minho há 18 anos e colocado em campo pelos educadores de infância, sob a sua batuta.
A grande diferença em relação ao método tradicional de ensino é começar por colocar na mesma sala crianças dos três aos seis anos, sem as dividir por escalões etários. Depois, em vez de um guião de actividades únicas para todos, cabe à educadora agrupar os alunos por áreas de interesse, independentemente da idade. "Nos primeiros três meses dá mais trabalho, mas acaba por haver um maior envolvimento e rendimento de todos", explica Carina Lopes, educadora no D. Pedro V. Em vez de se gerar o caos, com uns empenhados e outros a apresentar folhas em branco "porque se recusam a trabalhar com medo de falhar", segue-se o interesse de cada um, "encaminhando-os em pequenos grupos de interesses e maturação cognitiva comuns. Assim não há angústias nem falta de auto-estima", diz a educadora.
"Rodam em pequenos grupos, ou até trabalham individualmente, integrando os grupos maiores à medida que ganham confiança", frisa Maria José, a coordenadora das quatro salas do infantário do colégio religioso bracarense. Actualmente, são já 40 instituições que seguem a pedagogia participativa de João Formosinho, inspirada num estudo iniciado na década de 60, nos EUA.
Em vez do ensino transmissivo, em que o professor ensina e o aluno ouve, João e Júlia Formosinho propõem um modelo participativo, em que o educador vai incutindo conhecimentos de todas as áreas em resposta aos interesses das crianças, de preferência através de projectos de grupo que envolvam os pais. Segundo Júlia Formosinho, os menores sujeitos a este tipo de estudo evidenciam maior sucesso escolar e na vida profissional adulta, boa integração social e menor atracção por comportamentos desviantes.
"Prefiro evitar nomes, mas posso dizer que, numa escola básica do centro de Braga e noutra de Vila Verde, quatro dos melhores estudantes de cada uma delas foram nossos alunos", refere, sem esconder a existência de um "choque de aprendizagem" quando transitam do infantário para o básico. "As professoras contam-me que é frequente os alunos dizerem nas primeiras aulas 'tu não me ouves', mas também se integram facilmente", observa Júlia.
A Associação Criança, sediada em Braga e apoiada pela Fundação Gulbenkian nos primeiros seis anos de vida e, até hoje, pela Fundação Aga Khan, tem firmados protocolos com 40 estabelecimentos que seguem o ensino participativo, maioritariamente no concelho de Braga mas também em Lisboa, Porto e Sintra, Além de duas formadoras a tempo inteiro, uma delas destacada pela DREN, o restante trabalho é feito em regime de voluntariado.
Fundação Bissaya Barreto dá prémio de € 50 mil
Um ano após a morte de Nuno Viegas Nascimento, presidente da Bissaya Barreto nos últimos 26 anos, a Fundação decidiu atribuir um prémio anual de €50 mil que contemple, rotativamente, as áreas sociais, da saúde e da cultura. A temática eleita este ano foi a educação, sob o lema "Educar para criar: da escola à universidade".
O trabalho da Associação Criança foi escolhido entre 18 candidaturas e mereceu a aprovação de todos os membros do júri, presidido pela presidente do Conselho de Administração da Bissaya Barreto, Patrícia Viegas do Nascimento, e constituído por Veiga Simão, Braga da Cruz, Júlio Pedrosa, José Cruz Vilaça, António Meliço-Silvestre e Henrique Monteiro.
Para Patrícia Nascimento, o projecto "Escutando as crianças, formando os profissionais" promove "os valores defendidos pela Fundação no atendimento à infância". O prémio será entregue na sede da Fundação Bissaya Barreto, em Coimbra, na próxima quinta-feira, na presença de Cavaco Silva.
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009